Nota em novembro de 2008:
Este post é o que se poderia chamar de um post scriptum e mesmo o número 182 é enganoso ou fictício, pois ele já deve ter sido ocupado por um outro post em meu segundo blog, como explico abaixo.
Mesmo depois de ter declarado o fim das “emissões”, ou o fim das postagens no blog, em janeiro de 2006, pelo fato dele ter sido bloqueado por algum motivo misterioso naquele momento, ele voltou a funcionar, por motivos que rigorosamente desconheço, mas que provavelmente têm a ver com minhas inabilidades informáticas e incompetência técnica em manipular este tipo de instrumento. Coloquei, portanto, mais algumas mensagens, como se pode constatar pela lista do Arquivo, na coluna da direita.
Assim, tão misteriosamente como tinha parado de funcionar, ou melhor, de postar publicamente os uploads que eu fazia, este blog voltou ao normal pouco depois, como provam os posts de 178 a 181, feitos esporadicamente em alguns meses de 2006. Mas, como eu já tinha começado um segundo blog -- Blog Cousas Diplomaticas http://diplomaticas.blogspot.com/ -- como informado abaixo, resolvi descontinuar este aqui por simples razão de seqüência numérica, como aliás ocorreu também com o segundo e o terceiro blogs, também empacados por razões que desconheço.
Finalmente, meu blog atual tem como título Diplomatizzando e pode ser lido neste link.
sábado, 22 de novembro de 2008
sábado, 23 de dezembro de 2006
181) Back to old times
Postagem em 23 de dezembro de 2006
Este foi o meu primeiro Blog, feito um ano atrás, quando eu ainda tateava nessas novas artes (para mim) oferecidas no espaço cibernético.
Começou de modo muito otimista, com muitas ilustrações e esperanças, e menos de um mês depois o Blog empacou, a ponto de não aceitar novas postagens, ou pelo menos a publicação de novas postagens (já que o upload continuava aberto). Nunca soube explicar o que tinha acontecido, e como não consegui resolver o problema tecnicamente, acabei abrindo um novo Blog, o "Cousas Diplomáticas", que por sua vez também empacou, e assim fui abrindo mais e mais blogs, segundo as conveniências do momento e as "especializações" requeridas (um para a Academia, outro só de resenhas de livros, outro para textos mais longos, e ainsi de suite...).
O fato é que acabei com um monte de blogs, todos relacionados na coluna ao lado, o que pode provocar alguma confusão ou overlapping.
Em todo caso, com a passagem do software de administração dos Blogs, a cargo da Google, a uma nova versão, mais moderna e convivial, os velhos blogs empacados, desempacaram, de forma tão misteriosa como tinham sido bloqueados a partir de um certo momento.
Em todo caso, isto me leva a reconsiderar o conjunto das postagens, a fazer um balanço do trabalho realizado até aqui e a racionalizar o seu uso, o que pretendo fazer neste final de ano de 2006.
À très bientôt, como diriam os franceses...
Este foi o meu primeiro Blog, feito um ano atrás, quando eu ainda tateava nessas novas artes (para mim) oferecidas no espaço cibernético.
Começou de modo muito otimista, com muitas ilustrações e esperanças, e menos de um mês depois o Blog empacou, a ponto de não aceitar novas postagens, ou pelo menos a publicação de novas postagens (já que o upload continuava aberto). Nunca soube explicar o que tinha acontecido, e como não consegui resolver o problema tecnicamente, acabei abrindo um novo Blog, o "Cousas Diplomáticas", que por sua vez também empacou, e assim fui abrindo mais e mais blogs, segundo as conveniências do momento e as "especializações" requeridas (um para a Academia, outro só de resenhas de livros, outro para textos mais longos, e ainsi de suite...).
O fato é que acabei com um monte de blogs, todos relacionados na coluna ao lado, o que pode provocar alguma confusão ou overlapping.
Em todo caso, com a passagem do software de administração dos Blogs, a cargo da Google, a uma nova versão, mais moderna e convivial, os velhos blogs empacados, desempacaram, de forma tão misteriosa como tinham sido bloqueados a partir de um certo momento.
Em todo caso, isto me leva a reconsiderar o conjunto das postagens, a fazer um balanço do trabalho realizado até aqui e a racionalizar o seu uso, o que pretendo fazer neste final de ano de 2006.
À très bientôt, como diriam os franceses...
terça-feira, 28 de novembro de 2006
180) Tao misteriosamente como empacou, ele voltou a desempacar...
Post em 28 de novembro de 2006:
Confesso que não sei como explicar.
Creio que foi devido à mudança da base operacional do Blogger, que se tornou mais moderno e prático.
O fato é que este Blog, que se encontrava bloqueado desde muitos meses, voltou a aceitar postagens.
O que me coloca um problema enorme de administração dos meus vários blogs.
Sim, cada vez que um empacava de vez, não permitindo novas postagens, eu ia abrindo um outro, novo, seguindo a numeração sequencial.
Vou tentar fazer um balanço dos diversos blogs em novo post, dentro de alguns dias, e decidir quanto aos procedimentos a serem adotados para consolidar a informação em poucos blogs especializados: comentários e informação de interesse pessoal, textos mais longos (de terceiros, eventualmente próprios) e resenhas de livros (meus e de terceiros).
Em todo caso, meus agradecimentos ao pessoal do Google, que nos permite este Free Lunch (nem sempre isento de problemas)...
Confesso que não sei como explicar.
Creio que foi devido à mudança da base operacional do Blogger, que se tornou mais moderno e prático.
O fato é que este Blog, que se encontrava bloqueado desde muitos meses, voltou a aceitar postagens.
O que me coloca um problema enorme de administração dos meus vários blogs.
Sim, cada vez que um empacava de vez, não permitindo novas postagens, eu ia abrindo um outro, novo, seguindo a numeração sequencial.
Vou tentar fazer um balanço dos diversos blogs em novo post, dentro de alguns dias, e decidir quanto aos procedimentos a serem adotados para consolidar a informação em poucos blogs especializados: comentários e informação de interesse pessoal, textos mais longos (de terceiros, eventualmente próprios) e resenhas de livros (meus e de terceiros).
Em todo caso, meus agradecimentos ao pessoal do Google, que nos permite este Free Lunch (nem sempre isento de problemas)...
sábado, 3 de junho de 2006
179) Testando o blog...
Sorry, guys (eu disse guys...),
Não sei como explicar, mas este meu Diplomatizando desempacou e o meu Diplomatizzando, que nao abria, voltou a funcionar.
Como explicar? Eu sinceramente não sei.
O fato é que eu escrevi para o balcão de reclamações do free lunch (esqueci o endereço, mas foi algum e-mail do blog support deste maravilhoso empreendimento capitalista que desmente a frase de Milton Friedman) e, de repente, apareceu algum aviso na minha tela falando de Java script e de cookies (vocês sabem, aqueles biscoitinhos chineses que veem com alguma coisa escrita dentro e são a própria teoria conspiratória da história...)
Em todo caso, agora estou com excesso de blogs e como não posso vender nenhum, vou ter de compatibilizar todos eles.
Apesar de manter blogs para todos os gostos e funções, acho que eles estão comecando a ficar excessivos...
Quem sabe o meu primeiro, narcisístico, também volta a funcionar?
Não custa tentar...
Em todo caso, vou ter um sério problema de numeração e vou precisar de algum matemático para operar uma regressão...
--
Posted by Paulo R. de Almeida to Diplomatizando at 6/20/2006 01:34:00 AM
Não sei como explicar, mas este meu Diplomatizando desempacou e o meu Diplomatizzando, que nao abria, voltou a funcionar.
Como explicar? Eu sinceramente não sei.
O fato é que eu escrevi para o balcão de reclamações do free lunch (esqueci o endereço, mas foi algum e-mail do blog support deste maravilhoso empreendimento capitalista que desmente a frase de Milton Friedman) e, de repente, apareceu algum aviso na minha tela falando de Java script e de cookies (vocês sabem, aqueles biscoitinhos chineses que veem com alguma coisa escrita dentro e são a própria teoria conspiratória da história...)
Em todo caso, agora estou com excesso de blogs e como não posso vender nenhum, vou ter de compatibilizar todos eles.
Apesar de manter blogs para todos os gostos e funções, acho que eles estão comecando a ficar excessivos...
Quem sabe o meu primeiro, narcisístico, também volta a funcionar?
Não custa tentar...
Em todo caso, vou ter um sério problema de numeração e vou precisar de algum matemático para operar uma regressão...
--
Posted by Paulo R. de Almeida to Diplomatizando at 6/20/2006 01:34:00 AM
terça-feira, 4 de abril de 2006
178) Mudar sempre é bom...
Os blogs, que são gratuitos, de vez em quando emperram.
Aí não há mais nada a fazer, senão mudar de casa...
Aí não há mais nada a fazer, senão mudar de casa...
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006
De volta ao velho Blog...

Hello folks...
Para comunicar que minha "mula" desempacou.
Explico: este Blog, que tinha ficado vários dias "congelado", sem aceitar novas postagens, parece que voltou ao normal.
Vou testá-lo transpondo os posts que tinha colocado em meu Blog alternativo (Cousas Diplomáticas) para este aqui, preservando a numeração original, sequencial, e fazendo um pequeno balanço do período "desviacionista".
Minha contagem, no Blog principal, este aqui, indica um número de 1764 visitantes, pouco menos de dois meses de sua inauguração (7 de dezembro de 2005).
Meu Blog secundário, Cousas Diplomáticas, teve, nos dez dias entre a data de inauguração (21 de janeiro de 2006) e o dia de hoje (1º de fevereiro), exatamente 315 visitantes, num total de 22 novas postagens.
Ao reunificar o material, espero não ter de recomeçar novamente, por algum desses porblemas inesperados, e inexplicáveis, que sempre ocorrem no espaço cibernético.
Em todo caso, é bom estar de volta às velhas paragens...
domingo, 22 de janeiro de 2006
De mudança...

Comunico que, desde 20 de janeiro, me mudei deste Blog para outro, ou melhor dizendo, fui obrigado, por motivos de bloqueio no upload de novos posts, a transferir meus novos materiais para este endereço:
Cousas Diplomáticas
http://diplomaticas.blogspot.com/
sexta-feira, 20 de janeiro de 2006
177) Interrompemos momentaneamente esta programação...

Sorry folks,
Sou obrigado a interromper a postagem de mensagens, informações, resenhas, curiosidades e outras bizarrices neste Blog, pois que o dito cujo deu para empacar como uma mula, a partir deste mesmo post (177), que estava originalmente devotado a um FAQ (Frequently Asked Questions) sobre a carreira diplomática e a diplomacia, a partir de informações do Instituto Rio Branco.
Estou me mudando, com armas e bagagens, se ouso dizer, para um novo Blog (http://diplomaticas.blogspot.com/), novinho em folha, mas que retoma a série a partir do post agora podado, em numeração sequencial.
Não sei bem o que ocorreu, mas a cada vez que tentei postar novas mensagens, a ferramenta do Blogger acusou "erros" e me mandava consultar um endereço secreto, que ainda não descobri onde fica (eu avisei a todos, no começo, que era neófito nessas coisas).
Como não pretendo discutir com uma mula, resolvi abrir novo endereço, embora de conteúdo e estilo similares ao anterior.
Desconfio que cheguei no limite do "free lunch", isto é das possibilidades de utilização gratuita de um espaço que alguém deve estar pagando em meu lugar (ainda não fui apresentado ao gentil proprietário, mas desconfio que se trate desse gigantesco empreendimento que se chama Google, e que começou pequeno, como todos nós).
Convido, portanto, todos vocês, a me reencontrarem, sempre com a mesma qualidade e estilo, nos meus novos domínios, um Blog agora chamado de Cousas Diplomáticas (http://diplomaticas.blogspot.com/)...
PS.: "Cousas Diplomáticas! é o nome de uma coletânea de ensaios que um ilustre predecessor meu, o diplomata historiador Manoel de Oliveira Lima, publicou há exatamente um século atrás...
quinta-feira, 19 de janeiro de 2006
176) Empire, again: novos elementos do dossiê...

O tema da controvérsia entre o historiador Moniz Bandeira e os editores da revista Primeira Leitura, que em seu número de dezembro de 2005 publicou uma resenha desfavorável do livro do primeiro, Formação do império americano, volta à agenda.
Tenho procurado disponibilizar, em diversos posts, todas as peças do dossiê, tanto as resenhas favoráveis e as entrevistas do próprio autor do livro, como os comentários desfavoráveis efetuados pelo resenhista e editor da citada revista.
Ver, por exemplo, os posts 31, 32, 34 e 35, no meu Blog auxiliar, bem como as remissões efetuadas neste meu Blog principal, sob números 158 e 163.
Desta vez vou disponibilizar elementos de informação que me foram repassados pelo próprio autor, a saber:
1) Carta de Moniz Bandeira à revista Primeira Leitura, de 2 de janeiro de 2006 (Resposta a Roberto Romano, sobre o artigo “A formiga que marchava contra o império: uma fábula hegeliana”, publicado na edição 46, dezembro de 2005).
(ver o post de número 37)
2) Carta de seus advogados aos editores da revista, datada de 3 de fevereiro de 2006(sic), mas que deve ser de 3 de janeiro (pedido para que estes providenciem a publicação da carta-resposta do Prof. Moniz Bandeira, em tamanho equivalente, nos termos dos artigos 29 e seguintes da Lei de Imprensa)
(ver o post seguinte, número 38)
Transporei em meus dois blogs, o principal e o assistente, resenhas e outros textos que sejam pertinentes ao tema.
Continuarei acompanhando o assunto, mas desejando ler as peças acima descritas deste dossiê, comece pela leitura deste post em meu Blog auxiliar:
De novo o Império: mais peças do affair...
174) What if?: uma pequena guerra nuclear no Oriente Médio?

Niall Ferguson é um historiador britânico, atualmente em Harvard (assim como o Brasil exporta futebolistas, um dos principais itens de exportação da Grã-Bretanha são historiadores, e os EUA são importadores de cérebros de todo o resto do planeta).
Ele coordenou o livro Virtual History, um dos melhores exemplos do gênero "what if?" que se conhece.
No artigo abaixo, que não é exatamente de história virtual, mas de especulação antecipatória, ele imagina o cenário de uma possível guerra de aniquilamento recíproco entre o Irã e Israel, levando os EUA de roldão no caldeirão do Iraque...
The Daily Telegraph(January 15, 2006)
"The origins of the Great War of 2007 - and how it could have been prevented"
Niall Ferguson
Are we living through the origins of the next world war? Certainly, it is easy to imagine how a future historian might deal with the next phase of events in the Middle East:
With every passing year after the turn of the century, the instability of the Gulf region grew. By the beginning of 2006, nearly all the combustible ingredients for a conflict - far bigger in its scale and scope than the wars of 1991 or 2003 - were in place.
(...)
The devastating nuclear exchange of August 2007 represented not only the failure of diplomacy, it marked the end of the oil age. Some even said it marked the twilight of the West. Certainly, that was one way of interpreting the subsequent spread of the conflict as Iraq's Shi'ite population overran the remaining American bases in their country and the Chinese threatened to intervene on the side of Teheran.
Yet the historian is bound to ask whether or not the true significance of the 2007-2011 war was to vindicate the Bush administration's original principle of pre-emption. For, if that principle had been adhered to in 2006, Iran's nuclear bid might have been thwarted at minimal cost. And the Great Gulf War might never have happened.
Niall Ferguson is Laurence A. Tisch Professor of History at Harvard University.
Leiam a íntegra neste link.
O jornal O Estado de São Paulo publicou esse artigo em versão traduzida na edição de 19 de janeiro de 2006.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2006
173) Dez tendências globais para os negócios em 2006

A consultoria McKinsey, voltada para o ambiente corporativo global, apresenta em seu último boletim um artigo sobre as tendências globais para o mundo dos negócios em 2006.
A íntegra do artigo encontra-se neste link (que pode requerer cadastramento prévio).
Apresento abaixo um resumo apenas...
Ten trends to watch in 2006
Macroeconomic factors, environmental and social issues, and business and industry developments will all profoundly shape the corporate landscape in the coming years.
Ian Davis and Elizabeth Stephenson
Web exclusive, January 2006
Those who say that business success is all about execution are wrong. The right product markets, technology, and geography are critical components of long-term economic performance. Bad industries usually trump good management, however: in sectors such as banking, telecommunications, and technology, almost two-thirds of the organic growth of listed Western companies can be attributed to being in the right markets and geographies. Companies that ride the currents succeed; those that swim against them usually struggle. Identifying these currents and developing strategies to navigate them are vital to corporate success.
What are the currents that will make the world of 2015 a very different place to do business from the world of today? Predicting short-term changes or shocks is often a fool's errand. But forecasting long-term directional change is possible by identifying trends through an analysis of deep history rather than of the shallow past. Even the Internet took more than 30 years to become an overnight phenomenon.
Macroeconomic trends
We would highlight ten trends that will change the business landscape. First, we have identified three macroeconomic trends that will deeply transform the underlying global economy.
1. Centers of economic activity will shift profoundly, not just globally, but also regionally. As a consequence of economic liberalization, technological advances, capital market developments, and demographic shifts, the world has embarked on a massive realignment of economic activity. (...) The United States will still account for the largest share of absolute economic growth in the next two decades.
2. Public-sector activities will balloon, making productivity gains essential. The unprecedented aging of populations across the developed world will call for new levels of efficiency and creativity from the public sector. Without clear productivity gains, the pension and health care burden will drive taxes to stifling proportions.
3. The consumer landscape will change and expand significantly. Almost a billion new consumers will enter the global marketplace in the next decade as economic growth in emerging markets pushes them beyond the threshold level of $5,000 in annual household income—a point when people generally begin to spend on discretionary goods.
Social and environmental trends
Next, we have identified four social and environmental trends. Although they are less predictable and their impact on the business world is less certain, they will fundamentally change how we live and work.
4. Technological connectivity will transform the way people live and interact. The technology revolution has been just that. Yet we are at the early, not mature, stage of this revolution. (...) For perhaps the first time in history, geography is not the primary constraint on the limits of social and economic organization.
5. The battlefield for talent will shift. Ongoing shifts in labor and talent will be far more profound than the widely observed migration of jobs to low-wage countries. The shift to knowledge-intensive industries highlights the importance and scarcity of well-trained talent.
6. The role and behavior of big business will come under increasingly sharp scrutiny. As businesses expand their global reach, and as the economic demands on the environment intensify, the level of societal suspicion about big business is likely to increase. (...) The increasing pace and extent of global business, and the emergence of truly giant global corporations, will exacerbate the pressures over the next 10 years.
7. Demand for natural resources will grow, as will the strain on the environment. As economic growth accelerates—particularly in emerging markets—we are using natural resources at unprecedented rates. Oil demand is projected to grow by 50 percent in the next two decades, and without large new discoveries or radical innovations supply is unlikely to keep up. (...) The world's resources are increasingly constrained.
Finally, we have identified a third set of trends: business and industry trends, which are driving change at the company level.
8. New global industry structures are emerging. In response to changing market regulation and the advent of new technologies, nontraditional business models are flourishing, often coexisting in the same market and sector space.
9. Management will go from art to science. Bigger, more complex companies demand new tools to run and manage them. Indeed, improved technology and statistical-control tools have given rise to new management approaches that make even mega-institutions viable.
10. Ubiquitous access to information is changing the economics of knowledge. Knowledge is increasingly available and, at the same time, increasingly specialized. The most obvious manifestation of this trend is the rise of search engines (such as Google), which make an almost infinite amount of information available instantaneously. Access to knowledge has become almost universal. Yet the transformation is much more profound than simply broad access.
Ian Davis is worldwide managing director of McKinsey & Company and Elizabeth Stephenson is a consultant in McKinsey's San Francisco office. A shorter version of this article was published in the Financial Times on January 13, 2006.
172) A globalização está de porre?

Eu já tinha ouvido muitas acusações à globalização, mas confesso que esta é original: o ato de embebedar-se também está mudando por causa da globalização.
Já não se pode mais ficar de porre tranquilamente, no seu canto, com a sua caipririnha habitual...
Parece que só se pode ficar bêbado segundo as tendências da época.
É o Zeitgeist da bebida..
Esta deu no jornal mexicano La Jornada
(Jueves 12 de enero de 2006)
Hecha para "dar fuerza", la bebida está siendo sustituida por el posh, aguardiente
La globalización pone en riesgo la tradición maya de consumir chicha
ELIO GONZALEZ CORRESPONSAL
San Cristobal de Las Casas. Como muchas otras costumbres ancestrales, la de hacer chicha, bebida de origen maya elaborada con maíz que "le da fuerza al cuerpo", está en peligro de extinguirse y con ella un trozo de cultura de las comunidades indígenas, que la han sustituido por el posh (aguardiente de caña).
Esta tradición, que era común en las fiestas de las comunidades indígenas herederas de los mayas, se ha ido perdiendo conforme desaparece la relación espiritual entre el hombre y el maíz a consecuencia, principalmente, de la globalización.
"La chicha es una bebida que se hacía mucho antes de la conquista de los españoles, y está ligada a los rituales tradicionales más antiguos", afirma el investigador tzotzil Enrique Pérez López, quien dice que al dejarse de elaborar y consumir este producto natural se está perdiendo un elemento cultural de los pueblos originarios.
Tradición centenaria
Jorge Ruiz Alvarez, indígena tzeltal del municipio de Huixtán -cuya madre, Carmela Alvarez Hernández, es de las pocas personas en ese lugar que guardan celosamente la receta para hacer chicha-, afirma: "Nuestros abuelos nos cuentan que los conquistadores españoles trajeron el trago para controlar el pensamiento de nuestros antepasados y para que se olvidaran de lo que ellos tomaban.
(...)
Ruiz Alvarez resume la razón por la cual cree que se ha dejado de elaborar y consumir la chicha: "Muchos hermanos indígenas han perdido la relación espiritual que nuestros antepasados tenían con el maíz, en gran parte por culpa de la borracha globalización que todo lo ha contaminado".
Para quem não conhece espanhol, "borracha" não é a nossa borracha de apagar, mas quer dizer "bêbada"...
171) Chile: o que resta fazer...

Não vou acrescentar comentários extensos ao muito que já foi dito na imprensa sobre a vitória da socialista Michelle Bachelet para a presidência do Chile nos próximos quatro anos. Essa vitória não tem nada a ver com uma suposta "onda esquerdista" na América Latina, mas segue a tendência seguida pelo Chile desde a redemocratização nos anos 1990, na qual uma "concertação" entre democratas cristãos e socialistas moderados conduz o processo de normalização política dando continuidade ao essencial dos elementos de política econômica colocados em vigor no regime anterior, um pouco, aliás, como fez Tony Blair, na Grã-Bretanha, com a herança tatcheriana, ou seja, muito liberalismo econômico e extrema responsabilidade fiscal.
Esse caminho vai ser perseguido e continuado, no Chile, com o acréscimo de novas medidas para equacionar, ou pelo menos encaminhar, aqueles que parecem ser os problemas cruciais da sociedade chilena nesta fase:
1) Aprofundamento dos investimentos em educação, como forma de diminuir os índices ainda elevados de desigualdade distributiva
2) Reforma do sistema previdenciário, cujo regime de capitalização ainda não foi testado na prática mas que já antecipa alguns problemas graves de cobertura para indivíduos que não tiveram capacidade contributiva em bases correntes. Trata-se de uma questão de solidariedade inter-geracional que já começa a ser equacionado pelo governo chileno, neste caso bem mais responsável do que outros governos, que estão esperando o regime de repartição se deteriorar ainda mais, criando uma bomba-relógio para os atuais e futuros pensionistas do sistema.
Feliz é o país que pode se preocupar com o futuro dos seus filhos, pela educação ou pelo sistema de previdência, sem ter de se ocupar de questões tão urgentes e imediatas como tapar buracos, por exemplo...
terça-feira, 17 de janeiro de 2006
170) O estado mundo em 2006 (e de metade do mundo)

Gostaria de chamar a atenção para o lançamento da edição anual do relatório global sobre o desenvolvimento sustentável sobre o estado do mundo em 2006, desta vez trazendo como destaque o estado de meio mundo, isto é, da China e da India.
Não se deve levar estritamente ao pé da letra toda a literatura produzida por ONGs, especialmente as ecologistas, e talvez em especial as americanas, mas pode-se igualmente reconhecer que muita gente séria trabalha para elas, e esta em particular, o Worldwatch Institute tem demonstrado credibilidade em seu trabalho analítico, que serve ao mesmo tempo como alerta para certas tendências preocupantes. o WI também tem um certo viés pró-desenvolvimento e pró-Terceiro Mundo, o que nem sempre é garantia de isenção científica, mas neste caso vale a pena investir.
State of the World 2006
Special Focus: China and India
January 2006, ISBN: 0-393-32771-X, 244 pages
This year, Worldwatch Institute's annual State of the World report provides a special focus on China and India, examining the global impact as these two nations join the United States and Europe as major consumers of resources and polluters of local and global ecosystems. The report explains the critical need for both countries to "leapfrog" the technologies, policies, and even the cultures that now prevail in many western countries for the sake of global sustainability—and reports on some of the strategies that China and India are starting to implement.
From the Foreword:
"The western model of growth that India and China wish to emulate is intrinsically toxic. It uses huge resources—energy and materials—and generates enormous waste. The industrialized world has mitigated the adverse impacts of wealth generation by investing huge amounts of money. But... it remains many steps behind the problems it creates. India and China have no choice but to reinvent the development trajectory."
Sunita Narain
Director, Centre for Science and Environment, New Delhi, India
Besides the focus on China and India, State of the World 2006 looks at actions corporations can take to be more socially responsible; examines the potential socioeconomic, health, and environmental implications of nanoscale technologies; assesses the impacts of large-scale development of biofuels on agriculture and the environment; describes mercury sources, industrial uses, and health hazards worldwide; and provides an overview of the need to safeguard freshwater ecosystems, with examples of proven approaches in cities, villages, and farming regions around the world.
View the complete Table of Contents and links to chapter summaries, or click on one of the images from State of the World 2006 below for sample content.
State of the World 2006
Table of Contents
Foreword
Xie Zhenhua
Foreword
Sunita Narain
Preface
Christopher Flavin
State of the World: A Year in Review
Lori Brown
Chapter 1: China, India, and the New World Order
Christopher Flavin and Gary Gardner
Chapter 2: Rethinking the Global Meat Industry
Danielle Nierenberg
Chapter 3: Safeguarding Freshwater Ecosystems
Sandra Postel
Chapter 4: Cultivating Renewable Alternatives to Oil
Suzanne C. Hunt and Janet L. Sawin with Peter Stair
Chapter 5: Shrinking Science: An Introduction to Nanotechnology
Hope Shand and Kathy Jo Wetter
Chapter 6: Curtailing Mercury's Global Reach
Linda Greer, Michael Bender, Peter Maxson, and David Lennett
Chapter 7: Turning Disasters into Peacemaking Opportunities
Michael Renner and Zoë Chafe
Chapter 8: Reconciling Trade and Sustainable Development
Aaron Cosbey
Chapter 9: Building a Green Civil Society in China
Jennifer L. Turner and Lü Zhi
Chapter 10: Transforming Corporations
Erik Assadourian
Notes
Index
169) Temporada de caça a diplomatas (IV): quase fechando...

Interessados, apressai-vos!
Diplomates en herbe, hâtez-vous!
Ahora es la hora...
O prazo de inscrição para o concurso de admissão à carreira diplomática encerra-se no próximo dia 22 de janeiro de 2006.
Edital, Guia de Estudos e outras informações podem ser consultados no site do IRBr.
Permito-me lembrar que eu já coloquei três posts neste meu blog, resumindo toda essas informações, inclusive um lista seletiva de leituras.
Please, follow the links:
93) Aberta a temporada de caça a diplomatas (I)
Edital do concurso de 2006
94) Aberta a temporada de caça a diplomatas (II)
Programas das provas da Segunda e da Terceira Fases do Concurso.
103) Aberta a temporada de caça a diplomatas (III)
Guia de Estudos do Concurso de Admissão à Carreira Diplomática
Recomendações Bibliográficas
Time to run...
segunda-feira, 16 de janeiro de 2006
168) Anti-globalizadores super globalizados

Caro leitor,
Dê uma olhada na lista de compromissos, abaixo transcrita. Ela corresponde a vários (mas não todos) compromissos assumidos pelos anti-globalizadores neste ano de 2006. A programação, tão intensa quanto a de um executivo de multinacionais, deve levá-los a todos os cantos do planeta, por todos os meios de transporte possíveis e todos os tipos de acomodações. Os agentes de turismo, hoteleiros e restauradores em geral devem ficar contentes de serem locais de destino. Azar de Porto Alegre, que perdeu o privilégio, por razões puramente políticas aliás.
Vamos à lista dos encontros:
1. FSM 2006 policêntrico capítulo Américas e II FSA (24 a 29 de janeiro de 2006, Caracas, Venezuela)
2. FSM 2006 policêntrico Bamako (Mali) (19 a 23 de janeiro de 2006)
3. FSM 2006 policêntrico Karachi (Paquistão) (datas próximas)
4. Fórum Social Magreb (13 a 15 de janeiro de 2006, Bouznika, Marrocos)
5. Fórum Social dos Povos da Guatemala (20 e 21 de janeiro de 2006, Guatemala)
6. VI Fórum de Autoridades Locais (23 e 24 de janeiro de 2006, Caracas, Venezuela)
7. Acampamento Binacional Brasil-Uruguai (24 a 29 de janeiro de 2006,Barra do Chuí, em Santa Vitória do Palmar, no Brasil, e na Barra do Chuy e na cidade de Rocha, no Uruguai)
8. Fórum Continental da Saúde das Américas (janeiro de 2006, Caracas, Venezuela)
9. Fórum Social da Dinamarca (3 a 5 de fevereiro de 2006, Copenhagen, Dinamarca)
10. Fórum Social Porto Rico (26 a 28 de março de 2006, em Porto Rico)
11. IV Fórum Social Europeu (6 a 9 de abril de 2006, Atenas, Grécia)
12. Fórum Social Holandês (19 a 21 de maio de 2006, Nijmegen, Holanda)
13. II Fórum Social Mundial das Migrações Espanha 2006 (22 a 24 de junho de 2006, Rivas Vaciamadrid, Madri, Espanha)
14. Fórum Social Caribe (1 a 4 de julho de 2006, Martinica
15. Forum Social Midwest (6 a 9 de julho de 2006, Milwaukee, Wisconsin, Estados Unidos)
16. Fórum Mundial da Paz (Vancouver, Canadá, 2006).
Não é de perder o fôlego?
Agora, me responda, sinceramente: você não acha que os anti-globalizadores estão super-globalizados?
Do que, afinal de contas, eles reclamam na globalização?
Não precisa responder, eu só queria entender...
Paulo Roberto de Almeida
Brasilia, 16 de janeiro de 2006
167) Dez grandes autores, sempre válidos...

Livros de todas as eras para o século XXI
Recolhi do site de um “book lover” americano, Richard Geib, uma lista dos dez maiores livros para iluminar o século XX. Elaborada naquele ano, acho que a lista ainda se sustenta.
Ten Books to Read for the Year 2000
Those who forget the past are doomed to repeat it
A sobering thought considering this our ignominious 20th century
of revolutions, totalitarian tyranny, world wars, gulags, and death camps!
Below are some recommendations for good books on 20th century history!
1) Modern Times by Paul Johnson - It takes a big mind to tackle "big" history; Johnson makes it look effortless.
2) History of the Peloponnesian War by Thucydides - Cutting insight into the nature of realpolitik, as relevant today as in the Athens of Pericles.
3) Farenheit 451 by Ray Bradbury - Multi-media age horror story of popular culture out of control.
4) The Decline and Fall of the Roman Empire by Sir Edward Gibbon - English prose of an elegance unknown to the writers of our time, Gibbon chronicles "the triumph of barbarism and religion."
5) A History of Soviet Russia by Adam Ulam - The definitive word on the Soviet nightmare gratefully now over.
6) The Guns of August by Barbara Tuchman - Captures well the old order immediately before the First World War as it prepared to commit suicide.
7) 1984 / Animal Farm by George Orwell - Hardly needs acknowledgment.
8) The Rise and Fall of the Third Reich by William L. Shirer - Unerringly accurate account of the Third Reich is journalism at its best, Shirer mercilessly details the malevolence and folly of Hitler and his Germany.
9) Bread and Wine by Ignazio Silone - Salvation and justice in the revolutionary "vanguard élite."
10) The Clash of Civilizations and the Remaking of the World Order by Samuel P. Huntington -I hugely disagree with much of what he says, but the book still makes for topical and interesting reading. (Nota PRA: EU também estou em desacordo com a maior parte das teses e da própria metodologia analítica de Huntington, mas as questões que ele coloca são reais, e merecem discussão.)
Quem é Rich Geib?. Transcrevo de seu site: “I am a lover of books and reading and writing perhaps more than anything else; there is no holier place in the world for me than a bookstore.” Acho que ele acertou...
Lista copiada do link: http://www.rjgeib.com/2000/2000.html
Acesso em 16 janeiro 2006
166) Um Kissinger spengleriano, perdido no limbo de Dante...

Uma citação, de um realista convencido, ainda em sua juventude:
"Life involves suffering and transitoriness. No person can choose his age or the condition of his time. The past may rob the present of much joy and much mystery. The generation of Buchenwald and the Siberian labor camps cannot talk with the same optimism as its fathers. The bliss of Dante has been lost in our civilization."
Henry A. Kissinger, “The Meaning of History: Reflections on Spengler, Toynbee and Kant”, senior thesis at Harvard College (1950).
Informação sobre o Kissinger, constante da edição de 24 de janeiro de 2002, do jornal The Tribune (Chandigarh, India):
Dr Henry A. Kissinger
The selection of Dr Henry A. Kissinger as the world’s top public intellectual from a list of 100 is indeed a rare honour for the 79-year-old scholar-statesman. Considering the fact that those challenging him for the top place included luminaries such as Salman Rushdie (who got ninth place in the list), George Orwell (11th), George Bernard Shaw (17th), John Kenneth Galbraith (69th) and Alexander Solzhenitsyn (72nd), Dr Kissinger’s achievement is magnificent.
The list entitled “Public Intellectuals: A Study in Decline” has been compiled by a US federal judge, Mr Richard Posner, who used the Internet to count the number of media mentions of anyone who expressed himself on matters of general public concern between 1995 and 2000.
Born on May 27, 1923, in Furth, Dr Kissinger hails from a poor family. When his father, Mr Louis, a school teacher, was dismissed by the Nazis, he fled with his parents from the Nazi Germany to the USA before the outbreak of World War II. He was a brilliant student and did well in the examinations through hard work and perseverance — the qualities for which he has been known till date. In 1950 he got BA (Honours) degree. His 377-page honours thesis entitled “The meaning of History: Reflections on Spengler, Toynbee and Kant”, prompted Harvard University to set a future limit of 150 pages for honours thesis. He did MA in 1952, followed by Ph.D in 1954. For his Ph.D thesis, he analysed the fashioning of political order in Europe in the post-Napoleonic period, in particular how the Austrian and English statesmen, Metternich and Castlereagh, managed to create a generally enduring peace for the 19th century.
After he joined the faculty of Harvard University, both in the Department of Government and at the Centre for International Affairs, he came in contact with world leaders. This, in a way, shaped his eventful career in the next three decades. He became the Secretary of State on September 22,1973, the year in which he also got the Nobel Prize for Peace. He is the first naturalised US citizen to hold this post. Though he was fourth in the line of succession to the Presidency, the American Constitution barred him from that post as he was a Jew by birth and not a native-born American.
Dr Kissinger wrote several books on foreign policy, international affairs and diplomatic history. His two books — “The White House Years” and “The Years of Upheaval” — are treated as standard reference by students of international politics.
Arguably the USA’s most effective foreign policy architect, Dr Kissinger remains a 21st century realist. He is deeply steeped in theories of international relations and the interactions of governments. He was in New Delhi last week in his capacity as a leading member of the Aspen Strategy Group (ASG), a think tank founded in 1984, to “educate himself on Kashmir and not to push through any politics”. The fact that the Government of India had accorded almost the same treatment to him as that of the present US Secretary of State, Mr Colin Powell, who was also in Delhi, shows the importance the Indian leaders attach to Dr Kissinger’s views on matters of policy.
domingo, 15 de janeiro de 2006
165) Resultados antecipados do Foro de Caracas: um exercício de futurologia garantida...

A partir do dia 24 do corrente mês de janeiro de 2006, anti-globalizadores de toda a América Latina estarão reunidos em Caracas, unidos na caótica cacofonia globalizada que costuma marcar esse tipo de encontro do Fórum Social Mundial (agora em formato “policêntrico). Nunca, tanta gente junta dispensará tanto esforço para gritar em conjunto contra a globalização e o neoliberalismo e proclamar que um “outro mundo é possível” (agora, na nova modalidade, uma outra América Latina também...).
Como sempre, estarei aguardando – já são longos anos que espero – que, ao final desse novo encontro, nos digam quais são, exatamente, os tais caminhos alternativos à globalização capitalista e à economia de mercado, quais são o perfil, o conteúdo e a forma de organização desse outro mundo prometido. Confesso que tenho uma leve (mas cada vez mais pesada) suspeita de que nada de concreto emergirá desse novo encontro, mas gostaria de dar um crédito de confiança ao pessoal anti-globalizador, esperando que eles nos apresentem, finalmente, pelo menos o contorno, a primeira arquitetura desse novo mundo anunciado repetidamente há tantos anos. Não é possível, finalmente, que tantos universitários em assembléia, tanta inspiração no meio de alguma transpiração, tantos cérebros ativos e mobilizados não consigam produzir algo de minimamente racional sobre os fins pretendidos pelo movimento.
Em todo caso, desta vez resolvi não esperar o fechamento do encontro e a apresentação das conclusões. Vou eu mesmo apresentar algumas resoluções que estou certo resultarão do piquenique de Caracas, prometendo conferir em fevereiro a lista das conclusões que dali emergirão, para confrontá-las com as minhas. Na capital venezuelana, a vanguarda da anti-globalização aprovará, aclamará, confirmará as seguintes contribuições para nossa atenta leitura:
1) A globalização produz inevitavelmente crises econômicas, desigualdades sociais e retrocessos políticos, como “demonstrado” pela distância cada vez maior entre pobres e ricos (países e indivíduos), pelo aumento da concentração de renda, pelo desemprego e pela arrogância imperial da única superpotência global.
2) O imperialismo e suas receitas neoliberais – como as do “consenso de Washington” – têm produzido estagnação econômica e colapso em países da América Latina, em virtude de sua adesão acrítica e incondicional às políticas neoliberais; as políticas do FMI estão causando recessão e retrocessos sociais em quase todos os países da América Latina.
3) A soberania nacional precisa ser defendida contra o projeto imperialista de uma zona de livre comércio hemisférica, imposta contra a vontade dos povos latino-americanos pelo capital monopolista americano, que pretende nivelar o terreno para criar um espaço econômico ampliado para a “acumulação ampliada de capital”.
4) Deve-se defender a legitimidade de políticas públicas de “reserva de mercado” e de apoio a uma “agricultura multifuncional”, garantindo a segurança alimentar e a soberania na definição de políticas setoriais de desenvolvimento nacional.
5) O racismo, a discriminação contra a mulher, a opressão dos povos periféricos e o próprio terrorismo fundamentalista são o resultado da globalização e de um processo histórico marcado pela ocupação imperialista, que insiste em preservar “estruturas de dominação”, inclusive mediante o “terrorismo de Estado”.
6) Mas, como demonstrado pelo encontro de Caracas (como antes em Porto Alegre), um outro mundo e uma outra América Latina são possíveis; políticas alternativas são, não apenas desejáveis como, absolutamente necessárias. Essas políticas passam pela vida antes do lucro e pela promoção dos direitos humanos à frente dos direitos do capital. Os fluxos especulativos desse parasita social que é o capital financeiro internacional devem ser adequadamente controlados e tributados, se possível pela aplicação universal da Tobin Tax.
Essas são, em síntese, algumas das conclusões e resoluções que resultarão do rendez-vous de Caracas.
Não acreditam? Vamos marcar novo encontro no início de fevereiro neste mesmo espaço para verificar a lista das resoluções (se houver). Podemos também proceder a uma comparação com os debates do Fórum Econômico Mundial (dos capitalistas de Davos).
Meu slogan do momento seria: um outro Fórum é possível...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 15 de janeiro de 2006
164) Democracia e socialismo: a quadratura do círculo

Tarso Genro, advogado, ex-prefeito de Porto Alegre pelo PT, ex-ministro da Educação no governo Lula, ex-presidente interino do PT e atual candidato a alguma coisa neste mesmo governo – acho que a ordem cronológica correta é essa mesma -- é, provavelmente, a figura mais próxima do que se poderia chamar de “filósofo oficial” do PT, ou então, se ele preferir, um “intelectual orgânico” da classe operária, muito embora seja um fato que ele não acredita mais no papel do proletariado enquanto classe redentora da humanidade.
O problema dos intelectuais orgânicos é que, em geral, eles são muito prolixos, para não dizer chatos, preferindo estender-se sobre um número infindável de páginas para transmitir-nos aquilo que eles poderiam dizer em poucas páginas, ou mesmo em poucos parágrafos ou, quem sabe até?, em poucas palavras. Intelectuais inorgânicos também podem exibir as mesmas características, estou certo, mas é nos orgânicos que elas revelam todo o seu potencial complicador.
Retiro esta conclusão da leitura, algo enfadonha confesso, do último texto “conceitual” – concedamos-lhe esta caracterização – que ele acaba de divulgar em seu site, um catatau de nada menos do que 32 páginas, como ele informa alegremente.
Trata-se do artigo “É possível combinar democracia e socialismo?” que encontra-se disponível no site do múltiplo personagem, mais especificamente neste link, com data de 9 de janeiro de 2006.
Consciente de que seus colegas e companheiros talvez relutassem em ler 32 páginas de pura abstração socialista, nosso filósofo preparou um resumo de “apenas” seis páginas, colocando no dia 12 de janeiro de 2006 no site oficial do PT (neste link).
Dele tomei conhecimento no dia 15 de janeiro de 2006 e, talvez por espírito masoquista, fui buscar também o original para conferir. Como não pretendo submeter os frequentadores deste Blog a corvéia tão áspera, resolvi tentar uma síntese experimental em torno do “espírito” desse texto. Aos leitores de julgar se minha obra deixa a desejar em relação ao original, que pode ser conferido nos links acima informados.
Síntese livre do texto de Tarso Genro sobre democracia e socialismo
(esforço realizado: de 32 páginas para meia página)
A democracia ainda é atual. O socialismo tentou ser democrático mas falhou tremendamente na empreitada, e só produziu arremedos de democracia, quando não ditaduras abertas ou totalitarismos inaceitáveis.
Conciliar um com o outro representa, portanto, a quadratura do círculo, mas já que criamos um partido que se pretende socialista, vamos perserverar nessa tentativa de acomodação, continuando a proclamar, urbi et orbi, que essa idéia é possível.
Como o socialismo é uma “generalidade abstrata, hoje carente de paradigmas históricos”, tudo é permitido, inclusive manter a ilusão dos nossos militantes e inculcar no distinto público a crença de que, a despeito dos equívocos acumulados até aqui – tanto pelos regimes que se pretenderam socialistas, como por nosso próprio partido e seus famosos “recursos não contabilizados” --, essa entidade metafísica chamada “socialismo democrático” pode um dia tornar-se realidade.
Mas, cá entre nós, como não é mais possível “combinar um projeto de revolução democrática com a retomada, no longo curso, da utopia da igualdade social, aberta pela idéia do socialismo moderno”, o PT está inexoravelmente perdendo sua importância histórica. Concluindo: a coisa para nós está preta…
Créditos pela transcriação do espírito do texto:
Paulo Roberto de Almeida (em 15 de janeiro de 2006)
163) Embates em torno do Império: o déjà-vu da CIA...

Novos capítulos do dossiê Moniz Bandeira vs Primeira Leitura, transcritos no meu Blog acessório.
Entra em cena, desta vez, a CIA, a onisciente e omnipresente agência de inteligência -- será mesmo? -- dos EUA, que já foi acusada de todos os golpes e de todas as patifarias possíveis, inclusive no nosso Brasil.
A CIA pode estar por trás, segundo o professor Moniz Bandeira, de uma encomenda, a um filósofo brasileiro, de uma resenha desfavorável ao livro do primeiro sobre a formação do Império americano. Mas, o editor da revista que publicou a resenha faz troça da acusação e sugere, por sua vez, que a CIA passe a lhe pagar um "mensalão", para, pelo menos, justificar a acusação.
Leia ambas as peças deste dossiê -- que continuará em próximos capítulos, certamente -- nos dois links abaixo do meu Blog de textos:
Primeiro, as acusações do professor Moniz Bandeira, em entrevista concedida ao site do PT.
Agora, os comentários do editor da revista Primeira Leitura, Reinaldo Azevedo, que publicou a resenha que pode ter sido encomendada pela CIA, segundo o professor Moniz Bandeira.
Estarei atento a novos desenvolvimentos deste affair, por enquanto apenas bilateral, mas que promete transformar-se em peça jornalística e, quem sabe até?, em matéria judicial.
sábado, 14 de janeiro de 2006
162) Encore un belge, cette fois-ci expatrié...

Simon Leys é um belga singular. No auge da Revolução Cultural chinesa, quando todo mundo na esquerda se encantava sobre a capacidade dos dirigentes chineses de aprofundar o processo de transformação social e cultural naquele imenso país, criando o "verdadeiro socialismo" -- diferente, em todo caso, da sua variante soviética, burocrática, gerontocrática e quase esclerosada --, ele publicou um livro devastador sobre os crimes cometidos contra os direitos humanos e contra a inteligência, tout court, naquele império totalitário. Foi "Les Habits Neufs du Président Mao" (1971).
Simon Leys, na verdade, é o "nom de plume" de Pierre Ryckmans, nascido na Bélgica mas residente na Australia desde 1970, onde ele foi professor de estudos chineses na Universidade de Sydney (de 1987 até 1993). Ele conduziu um trabalho exemplar de sinólogo e de crítico literário.
Não contente, ele ainda se dedicou ao que se poderia chamar de "apócrifo histórico", como uma deliciosa memória de Napoleão. De retorno de Santa Helena clandestinamente -- um oficial quase sósia tomou o seu lugar, mas esse falso Napoleão morre no intervalo da viagem de volta à "glória" do verdadeiro Napoleão --, ele tenta provar aos seus concitoyens de Paris que ele era, de verdade, o grande imperador. Terminou amasiado com uma dona de épicerie, viu va de um dos seus oficiais em Waterloo... Uma história deliciosa que acabou virando filme: "La Mort de Napoléon" (1991).
Ele é membro da Australian Academy of Humanities e da Académie Royale de Litterature Française (Bélgica). Entre seus outros livros, se encontram "Chinese Shadows" (1977), uma nova tradução dos "Analectos" de Confucio (1997), "The Angel and the Octopus: Collected essays 1983 - 1998" (1999) e "Protée et autres essais" (2001).
Ele acaba de publicar um novo livro, de citações de terceiros, como informa esta nota do Le Monde.
Les idées de Simon Leys
par Eric Fottorino
LE MONDE | 14.01.06
Le titre de cet opuscule est déjà tout un programme. Cela s'appelle "Les Idées des autres, idiosyncratiquement compilées par Simon Leys pour l'amusement des lecteurs oisifs" (Paris: Plon, 2006). Le célèbre sinologue, par ailleurs fou de mer, a rassemblé là un florilège de citations choisies de la manière la plus subjective qui soit, en miroir de sa propre personnalité. On ne s'étonnera pas d'y trouver des phrases comme :
"Là où il n'y a pas de mystère, il n'y a pas de vérité" (Brecht),
ou
"Le secret d'ennuyer, c'est de tout dire" (Voltaire)...
Éric Fottorino
Article paru dans l'édition du 15.01.06
161) L'amour a ses raisons, même en Belgique...

A Bélgica é um reino tripartite, um território que, como a sua bandeira, é ocupado por três tribos de ferozes belgicanos, que conseguem se digladiar por um simples copo de cerveja: os valões brigam com os flamengos (não confundir com os nossos), e vice-versa, e os bruxelenses, à falta do que fazer, se dedicam à plantação de "choux de Bruxelles"...
Desde que eu morei nessa terra de belicosos nativos, uma tribo não fala com a outra, a não ser por meio dos seus respectivos ministros "inter-comunitários" (é a única monarquia do mundo em regime federativo...)
Pois bem: não é que agora, como relata o Le Monde deste sábado 14 de janeiro de 2006 (ver abaixo), o chefe do partido liberal flamengo namorou secretamente uma deputada socialista valona (ou valã, vocês escolhem...) e não contente de só ter abraços e de trocar carinhos e beijinhos sem ter fim, ainda acabou lhe fazendo um filho?
Será o primeiro nativo a romper a barreira do apartheid, mas, logo ao completar a maioridade, ele terá um sério problema de identidade: ele precisará não apenas escolher a qual cor da bandeira prestar juramento, mas também sua coloração política e tribal: ele terá de decidir se vai ser socialista valão, ou liberal flamengo, ou socialista flamengo, ou liberal valão, ou então um anarquista bruxelense.
Cruéis dilemas para esse filho inter-comunitário: melhor ele fundar uma nova tribo, com a sua própria fábrica de cerveja...
Belgique : l'idylle fatale du chef du Parti libéral flamand
LE MONDE | 13.01.06 | 13h51
Correspondant, Bruxelles
Un quotidien francophone a révélé la relation amoureuse qu'entretient Rik Daems, ancien ministre et chef du parti libéral flamand (VLD) à la Chambre des députés, avec Sophie Pécriaux, députée socialiste wallonne.
Un peu plus tard, une chaîne de télévision flamande annonçait que la jeune femme était enceinte. Situation délicate pour le leader d'un parti flamand qui n'a jamais raté une occasion de critiquer les Wallons.
Après ces révélations, M. Daems a décidé de renoncer temporairement à ses fonctions, "pour réfléchir". Les observateurs estiment qu'il aura les plus grandes difficultés à poursuivre sa carrière. Dans les rangs du parti, on estime que la crédibilité de M. Daems est entamée. Mais surtout et même si cela ne s'avoue pas on supporte mal sa relation avec une représentante d'un parti qui est la bête noire des médias flamands.
La direction du PS francophone a réagi avec flegme et humour. Elio Di Rupo, le président du parti, a estimé que cette histoire d'amour établissait "un lien entre la Flandre et la Wallonie, entre le PS et le VLD". Deux partis ennemis, mais qui sont actuellement réunis dans une coalition fédérale.
Jean-Pierre Stroobants
Article paru dans l'édition du 14.01.06
160) Pelamô de Deus, minha gente!: o carcará não só ataca, mas ele canta também...

Serviço de (des)utilidade pública: transcrevendo a letra do primeiro (esperando que ele seja o último) hino da ABIN (já que colocar também a música seria demais...):
"Nós somos da inteligência brasileira
Anônimos heróis na busca da verdade.
Servir sempre em silêncio temos por bandeira
E à pátria consagramos nossa lealdade".
(estribilho):
"A Abin é a luz forte que dissipa a escuridão,
Desfaz as incertezas e desvenda o sorrateiro.
A Abin, que, aliada aos seus parceiros de sistema,
É a linha invisível de defesa do Estado brasileiro!"
"Cumprimos nosso dever quer noite ou dia,
Buscando e analisando em prol da produção
De um conhecimento, a arma dos mais fortes,
Por isso, protegê-lo também é missão".
"Salve! Salve! a nossa Pátria brasileira!
Orgulho temos nós em tê-la num altar,
Onde a inteligência com que a protegemos,
Por certo, é um componente que a faz avançar..."
(PS.: Como eles atuam em surdina, pelo menos estamos livres de, em alguma cerimônia pública, ter de ouvir este deplorável hino. Nem os parnasianos seriam capazes de tantos malabarismos verbais. Vamos ter de ressucitar a escola gongórica...)
159) Já nao se fazem mais comunistas como antigamente...

Decididamente, o mundo mudou. Nos tempos da Guerra Fria, comunista de verdade era um cidadão geralmente de posses modestas que, por nada neste mundo (e eles não acreditavam em nenhum outro), se metia em falcatruas, patifarias, roubalheiras, negócios escusos, e passavam longe de qualquer assunto de corrupção.
Eram incorruptíveis, ainda que dispusessem (mas sem isso era impossível ter o partido funcionando) do famoso "ouro de Moscou" (que nunca foi ouro de verdade, essa relíquia bárbara, mas sim dólares, verdinhos, tangíveis). Esses "recursos não contabilizados" recebidos da finada União Soviética eram escrupulosamente aplicados na conscientização da classe operária e na compra de cadernetas para o Secretário-Geral Luis Carlos Prestes. No mais, eles viviam modestamente, rodando "A Classe Operária" em mimeógrafos a álcool, ambos pagos, o mimeógrafo e o álcool, com as contribuições dos militantes e afiliados, que, igual ao dinheiro do jogo do bicho, eram pagas em espécie, religiosamente (se o termo se aplica).
Rico mesmo, só o Oscar Niemeyer, que continua rico e comunista, mas ele é único no gênero, sendo propriamente uma peça viva de museu: o último stalinista vivo do planeta (agora que morreu o Álvaro Cunhal, do Partido Comunista Portugês).
Agora tudo mudou e nem mais ateus, de verdade, esses comunistas fajutos conseguem ser: outro dia estava o Aldo Rebelo, do PCdoB, pedindo pelo amor de Deus para dois deputados não se engalfinharem em plenário...
Escrevo tudo isto a propósito da notícia abaixo transcrita, sobre as falcatruas de um comunista, rico ainda por cima. Esse deputado João Hermann era conhecido por seu radicalismo verbal e seu gosto por um rabo de saia. Agora se descobre que ele também, por mais comunista que fosse, também molhava a mão numa boa propina empresarial. Logo ele que, milionário (segundo consta da reportagem), não precisava fazer isso.
Deve ser o tal de Zeitgeist, o espírito da época: como até o partido da ética se lambuzou todo nas tais práticas heterodoxas, não se poderia mesmo esperar que um mero comunista fosse permanecer incólume, em face de tanto dinheiro correndo solto no Congresso e nos gabinetes de políticos...
Da Veja on-line:
"Deputado recebeu R$ 79.000 de empresa
13 de Janeiro de 2006
A empresa de aviação Beta (Brazilian Express Transportes Aéreos), suspeita de manter contratos irregulares com os Correios, fez 25 pagamentos mensais, entre 2003 e 2005, para uma conta bancária aberta em nome do deputado federal João Herrmann Neto (PDT-SP). O total acumulado atinge 79.000 reais.
Nesta sexta-feira, a direção nacional do PDT suspendeu a filiação do deputado. Em nota, o partido diz que, se forem confirmadas as acusações, Herrmann será expulso definitivamente.
A empresa Beta teve o sigilo quebrado pela CPI dos Correios. Segundo a Folha de S. Paulo, os primeiros pagamentos foram de 3.000 reais, sendo corrigidos até 3.800 (na última quitação). O dinheiro saiu de uma conta da Beta no banco Safra de São Paulo e parou numa conta aberta em nome do deputado no Citibank.
Herrmann não quis comentar os depósitos, de acordo com a Folha. O pedetista, aliado do governo Lula, é um dos parlamentares mais ricos do Congresso. Em 2000, declarou um patrimônio de 110 milhões de reais, perdendo só para o deputado Ronaldo Cézar Coelho (PSDB-RJ), com patrimônio declarado de 249 milhões de reais. Herrmann costuma dizer que sua fortuna pessoal é fruto de negócios familiares relacionados ao agronegócio.
O deputado foi um dos principais nomes do PPS desde a sua criação e passou para o PDT em 2004. Até janeiro daquele ano, o Ministério das Comunicações e os Correios eram controlados pelo PDT. O parlamentar votou contra a criação da CPI dos Correios. "A CPI é uma ferida maltratada, uma porta de entrada para infecções", disse Herrmann, em maio, segundo a Agência Câmara."
Onde vamos parar? Se até velhos comunistas começam a roubar e a se corromper, vamos ter de recriar o Gulag, onde só tinha comunista de castigo...
sexta-feira, 13 de janeiro de 2006
158) O império americano: do livro para um tribunal?

O professor Luiz Alberto Moniz Bandeira publicou, em 2005, seu livro Formação do império americano: Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque (Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira).
Em atenção ao renome do autor e à possível importância da obra (que confesso ainda não li, mas pretendo fazê-lo um dia), publiquei, em meu Blog auxiliar, uma resenha favorável a esse livro, a transcrição de uma entrevista com o autor, ambas constantes do boletim eletrônico Espaço Acadêmico, e, também, uma resenha fortemente crítica desse livro, pelo filósofo Roberto Romano, publicada na revista mensal Primeira Leitura, todas matérias do mês de dezembro de 2005.
Pretendia parar por aí, mas eis que tomei conhecimento, por matéria publicada no dia 12 de janeiro de 2006 no site desta última revista, por seu editor, Reinaldo Azevedo, que o professor Moniz Bandeira enviou-lhe carta de 25 páginas exigindo direito de resposta, à falta do que ameaça, por meio de seus advogados, processar judicialmente a revista e o seu editor.
Para oferecer aos leitores deste Blog um dossiê completo deste affair, ainda não concluído, forneço abaixo os links para a leitura desses materiais.
Primeiro, as resenhas, a favor e contra, além da entrevista com o autor:
31) O Império americano: a favor ou contra?
Agora, o início de uma diatribe, que promete ocupar outros posts no futuro:
32) O Império americano: agora nos tribunais...
Tentaremos acompanhar novos desenvolvimentos deste affair político-literário, que ameaça mobilizar a République des lettres como nenhum outro caso o fez desde uma velha diatribe pelos jornais entre o crítico literário e diplomata José Guilherme Merquior (já falecido) e a filósofa Marilena Chauí...
157) Você falou em pátria?

Existem, obviamente, muitas definições de pátria, tantas quanto de país, nação, Estado, povo etc.
Em geral, todas têm conotações positivas, quando não francamente "patrioteiras"...
Pois eu queria referir-me a uma reflexão que não é necessariamente favorável à noção de pátria ou a suas conseqüências no terreno prático.
O excesso de patriotismo pode estimular a intolerância, como lembra o filósofo espanhol Fernando Savater em seu livro:
Contra las Pátrias (2ª ed.: Barcelona: Fabula Tusquets Editores, 2000; 1ª ed.: 1984).
Desse livro, retiro estas duas frases, ambas sugestivas:
El patriotismo es la menos perspicaz de las pasiones: Jorge Luís Borges (Ficciones)
Patria est, ubicumque bene est (A pátria está onde estejamos bem): Sêneca
Esta última não deixa, de certo modo, de lembrar o lema do Barão do Rio Branco:
Ubique patria memor (Em qualquer lugar, a memória da pátria).
156) Anos JK: documentos disponíveis no CPDOC

Não se trata de nostalgia ou qualquer culto aos chamados "anos dourados", que só o são retrospectivamente, comparados com os anos de inflação e de instabilidade política que se seguiram e, depois, o mergulho na era militar.
Mas vale a pena, para os que gostam de história, chamar a atenção para este alerta do Centro de Pesquisa e Documentação Contemporânea, da FGV-RJ, sobre documentos históricos da era JK:
"Visite em nosso Portal, a página "Os anos JK", na qual foram disponibilizados cerca de 250 textos biográficos e temáticos que recuperam figuras de destaque daquele importante período, como Jango e Lott, e temas relevantes como o Plano de Metas e a construção de Brasília. São apresentados ainda cerca de 100 fotos e documentos textuais e uma seleção de depoimentos de atores políticos do acervo de História Oral do CPDOC."
Acesse em: http://www.cpdoc.fgv.br/nav_jk
155) Tangenciando o propinoduto antes do tempo?

Transcrevo, do livro do ex-presidente interino do PT, ex-ministro da Educação, ex-candidato derrotado ao governo do estado do Rio Grande do Sul, ex-prefeito de Porto Alegre e atual candidato a uma vaga no STF, advogado Tarso Genro, Esquerda em Processo (Petrópolis, RJ: Vozes, 2004), o seguinte trecho, aparentemente (e involuntariamente) profético:
"O que ocorreu de negativo no Partido Socialista Espanhol, com vários dos seus quadros indo parar nas prisões por motivos que conhecemos [corrupção], deve servir de referência negativa para nós [do PT e do governo]. Assim como deve servir de referência positiva - do ponto de vista ético-moral - a passagem praticamente "limpa" [por que as aspas?] do ex-Partido Comunista Italiano na 'tangentópoli' [corrupção e caixa 2 dos politicos italianos nos anos 1990] ocorrida naquele país. Assim foi denominado o processo de investigação, denúncia e condenação judicial, de boa parte da elite política italiana, envolvida com obtenção de fundos para o financiamento ilegal das suas atividades eleitorais e partidárias e, igualmente, para proveito pessoal".
(do capítulo 10: "Glossário para uma 'esquerda democrática' (no governo e fora dele)", p. 105 do referido livro)
Como se diz, ninguém é profeta em seu próprio país, mas, neste caso, o autor não apenas tangenciou o problema, como antecipou o que poderia vir a ocorrer. A julgar pelo que se conhece do tsunami político de 2005, não se tratou de uma mera tangentópoli, mas de um propinoduto completo e acabado.
Qualquer semelhança com fatos, personagens ou ocorrências observadas em outras latitudes e longitudes não não deve ser mera coincidência...
quinta-feira, 12 de janeiro de 2006
154) Perguntas impertinentes a colegas que me acusam de ser “liberal fundamentalista”

Segundo me confidenciaram alunos, de alguns cursos de relações internacionais espalhados pelo Brasil, colegas pesquisadores nessa área, incomodados com as críticas que venho fazendo, desde muitos anos, aos movimentos anti-globalizadores, chegaram a classificar-me de “liberal fundamentalista”, ou vice-versa, o que redunda no mesmo, pois em nenhuma das hipóteses é possível saber exatamente do que eles estão falando.
Se há algo que eu não sou, justamente, é fundamentalista, pois que sempre fui e continuo partidário de uma abordagem essencialmente pragmática dos temas econômicos, como de todo o resto aliás, sendo bastante tolerante, para quem veio do pensamento de esquerda e do marxismo universitário, com todos os tipos de “religiões” políticas e filosóficas, terreno no qual, aliás, professo uma “irreligiosidade” absoluta.
Tampouco posso ser catalogado de “liberal”, na medida em que não tenho nenhum respeito por qualquer dogma político ou econômico e confesso apenas um anarquismo exemplar no plano cultural e das idéias.
Isso me faz indagar quem, de verdade, ostenta “pensamento único”, rótulo que os anti-globalizadores atribuem aos supostos liberais partidários da economia de mercado, quando estes últimos se dividem em tantas escolas de economia e de orientação política quantas são as religiões e ideologias em que se divide o mundo.
O rótulo me faz sorrir, pois indica que certas pessoas, das quais se espera, finalmente, um pouco mais de espírito acadêmico, hesitam em, quando não se recusam a, debater idéias e argumentos, preferindo catalogar os indivíduos que delas discordam, a propósito de temas concretos, e daí dão por encerrada a discussão, como se estivessem batendo a porta na cara de supostos (ou reais) opositores de suas idéias (se de fato ostentam algumas).
A academia herda, supostamente, seus métodos de trabalho da antiga tradição socrática do contraditório e da busca da verdade, o que pode e deve ser buscado no plano da lógica, mas também, e sobretudo, segundo o velho legado baconiano da comprovação empírica, da exposição honesta dos fatos e das conclusões e inferências que possam resultar dessa busca incessante de explicações razoáveis para as evidências de que dispomos para tal ou qual problema concreto da natureza ou da sociedade.
Isso me ocorreu ainda poucos dias atrás, quando escrevi, aliás gentilmente, a uma dessas sumidades universitárias, precisando-lhe a natureza puramente objetiva da decisão adotada por determinado país da América do Sul em não aderir à união aduaneira do Mercosul, esclarecendo que se tratava antes de incompatibilidade tarifária, razão portanto factual e concreta, e não de supostas “pressões dos EUA”, como ele argumentava.
Depois de idas e vindas nos elementos concretos em torno das quais se fundamentou a decisão desse país, meu interlocutor deu por encerrada a discussão dizendo que não pretendia, nem tinha tempo – “não quero e não tenho tempo”, disse ele – para discutir comigo, o que em matéria de troca de mensagens eletrônicas é o mesmo que bater a porta na cara.
Eu não fico chateado com esse tipo de atitude, que apenas indica que o parceiro, como diriam os franceses, está à court d’arguments, ou seja, lhe faltam argumentos para o debate e por isso dá por encerrada a discussão.
Como, de minha parte, nunca dou por encerrada qualquer discussão – pois sempre considero que os argumentos devam ser todos expostos, para que do debate possa surgir algum esclarecimento mais completo em torno do problema que nos ocupa –, gostaria de continuar esse exercício em torno das supostas idéias liberais, de um lado, e anti-globalizadoras, de outro, propondo algumas perguntas a esses meus colegas de academia que eles estão gentilmente convidados a responder.
A esse propósito, justamente, um deles já argumentou que eu não sou acadêmico – por não retirar meu sustento ou não ter como atividade principal a docência universitária – como se isso fosse critério de inclusividade na categoria e como se esta devesse recrutar única e tão somente os “dedicados integrais”, cuja dedicação exclusiva e cuja “integralidade”, aliás, deixam por vezes a desejar.
Tenho plena consciência de que meus esforços são absolutamente unilaterais, pois que nunca obtive resposta ou contestação a meus muitos escritos “anti-globalizadores” – muitos deles absolutamente provocadores, não hesito em confessar –, mas pretendo ainda assim continuar no terreno de luta, armado unicamente de meus instrumentos habituais: os argumentos como elementos essenciais do discurso, a lógica como método irrecusável e a sustentação empírica e as evidências históricas em apoio fático às minhas afirmações e propostas.
Voilà, tendo feito esses prolegômenos necessários, vamos às perguntas:
1. Quais são as evidências materiais, ou seja, provas estatísticas, dados quantificáveis, observáveis e verificáveis, de que a globalização, como pretendem os anti, aprofunda a miséria, cria mais desemprego e acarreta mais desigualdades no mundo? Isso vale tanto para dentro dos países, como entre os países, esclareço.
2. Se as políticas liberais só conseguem produzir recessão e desemprego, privilegiando unicamente os setores financeiros – o capital financeiro monopolista internacional, como se dizia antigamente –, por que, exatamente, os países que mais crescem e que ostentam as menores taxas de desemprego são, justamente, esses ditos “neoliberais”?
3. Se o “consenso de Washington” fracassou redondamente na América Latina, por que os países que mais são contrários às suas regras não são, longe disso, exemplos de crescimento, de dinamismo e de inserção competitiva na economia internacional? E por que, a contrário senso, os países que mais se identificaram com essas medidas “neoliberais”, a começar pelo Chile, conseguem ostentar taxas sustentadas de crescimento ao mesmo tempo em que fazem progressos no caminho da redução das desigualdades distributivas e da qualificação competitiva de suas economias?
4. Se os processos de abertura econômica e de liberalização comercial significam, ipso facto, sucateamento da indústria e desmantelamento de setores inteiros da economia nacional, como explicar as evidências de que países que adotaram essas medidas de modo unilateral, como o Brasil do início dos anos 1990, por exemplo, registraram, nesses anos justamente, as maiores taxas de crescimento da produtividade, além de ganhos significativos e comprovados de competitividade internacional?
5. Se as regras liberais impõem, como acusam os anti-globalizadores, total liberdade aos movimentos de capitais e a plena abertura cambial, o que facilitaria as atividades especulativas nos mercados de divisas, como explicar o fato que de que a Argentina, no auge do seu “fundamentalismo liberal”, impunha a rigidez cambial, em direção oposta aos regimes cambiais praticados pela maior parte dos países e contrariamente ao que sempre prega o FMI em caso de correção de desequilíbrios de balanço de pagamentos?
6. Se a flexibilização neoliberal do mercado de trabalho produz desemprego e perda de direitos consagrados, resultando em precarização ampliada das relações de trabalho e terceirização, por que os países que mais adotaram essa postura são os que exibem as menores taxas de desemprego e o maior crescimento da produtividade do trabalho?
7. Se o livre-comércio internacional acarreta desigualdades crescentes e dependência de empresas multinacionais, o que compromete políticas públicas, macroeconômicas e setoriais, por que os países, ou melhor, as economias que mais se inseriram nos fluxos internacionais de intercâmbio comercial são as que melhoraram de padrão de vida, viram o surgimento de suas próprias multinacionais e diminuíram, justamente, sua dependência de alguns poucos mercados de matérias-primas ou manufaturados leves, que são dominados por alguns poucos oligopolistas mundiais?
8. Se os direitos de propriedade intelectual são inerentemente injustos, transferindo renda dos países mais pobres para os mais ricos, condenando os primeiros a uma “eterna dependência tecnológica” dos segundos, por que países como China e Índia, que são ainda relativamente pobres para os padrões internacionais, estão aderindo de forma crescente a normas mais elevadas de proteção patentária?
9. Se os investimentos estrangeiros são criadores de maior dependência econômica e de remessa ampliada de divisas e de royalties para o exterior, por que tantos países em desenvolvimento vêm aumentando o volume e a qualidade da proteção dada ao IDE, assinando acordos de garantia de investimentos e assegurando livre transferência dos resultados produzidos?
10. Se já existem evidências concretas de que as políticas agrícolas, subvencionistas e protecionistas, de países desenvolvidos, como os EUA, a União Européia e o Japão, entre outros, são absolutamente condenáveis, em primeiro lugar em função de sua inerente irracionalidade econômica, em segundo e principal lugar em virtude do enorme prejuízo trazido aos países mais pobres, por que os movimentos anti-globalizadores, que dizem atuar em prol do desenvolvimento e da inserção dos mais pobres e do bem estar de suas populações, não são mais incisivos na oposição a essas políticas?
11. Se os países em desenvolvimento são, por definição e historicamente, importadores líquidos de capitais dos países mais ricos, por que os movimentos anti-globalizadores insistem tanto na adoção de uma taxação internacional sobre os movimentos de capitais, sabendo-se que esse novo imposto irá necessariamente aumentar o custo dos empréstimos e de captação de recursos financeiros nos mercados livres?
12. Finalmente, se mercados livres já provaram, ao longo da história, sua funcionalidade absoluta do ponto de vista da modernização tecnológica, dos ganhos de oportunidade, da distribuição de renda via especialização produtiva e outros benefícios indiretos da livre circulação de fatores, por que os anti-globalizadores, e com eles o contingente bem maior de protecionistas de todos os tipos, insistem tanto na administração política dos mercados internacionais, como se os governos soubessem melhor do que agentes econômicos ou do que os indivíduos consumidores o que é melhor para o bem estar dos cidadãos dos mais diversos países?
Voilà: deixo aqui algumas perguntas para as quais eu apreciaria muitíssimo dispor de respostas pelo menos tentativas por parte daqueles que se identificam, de perto ou de longe, com o movimento anti-globalizador.
Elas podem também servir de sinalização para o próximo encontro dos anti, a ser realizado neste final do mês de janeiro de 2006.
Respostas eventuais para a minha caixa postal, por favor...
Paulo Roberto de Almeida (pralmeida@mac.com)
Brasília, 12 de janeiro de 2006
quarta-feira, 11 de janeiro de 2006
153) O que faz um diplomata, exatamente?

Muito freqüentemente sou solicitado, por interessados na carreira diplomática, geralmente jovens, a pronunciar-me sobre a natureza exata do trabalho diplomático. As dúvidas são muitas e a curiosidade infinita. Ainda assim tento responder a cada um da melhor forma possível, mas novas demandas se repetem, com perguntas usualmente similares. Como exemplo típico desse gênero de questionamento, transcrevo mensagem enviada hoje (11.01.06), que tentarei responder em seguida:
“Ainda falta um pouco para eu me decidir por este caminho (a diplomacia), por isso vim lhe pedir um breve relato de um dia comum seu, em sua profissão. O que é comum encontrar nessa carreira? O que é gratificante? E quais as dificuldades? Não quero incomodá-lo, aliás tenho muito receio disso, mas, ao mesmo tempo, quero me encontrar com a certeza de um futuro inescusável. E como decifrá-lo, se não perguntá-lo? A simples informação de quanto tempo permanece sentado assinando papéis, de quanto de autonomia se tem, dentre outros aspectos congêneres; essas simples informações formam o motivo de minha interpelação.”
Pois bem, sei que existem muitas lendas em torno das atividades de um diplomata, geralmente de natureza turística ou etílica, ou seja, de que passamos o tempo viajando de um lugar para outro, em belas cidades de países desenvolvidos, participando de reuniões sofisticadas e, sobretudo, de coquetéis e recepções, um pouco como se todo mundo ainda vivesse nos tempos das cortes européias, em bailes e outras galanterias... Exagero, claro, mas o pessoal também exagera em torno da quantidade de bebida que é humanamente possível ingerir. Com exceção do Vinicius de Moraes, que vivia de copo de uísque na mão, o diplomata geralmente não bebe, salvo, claro, quando é obrigado...
Sans blague, para descrever um dia típico de um diplomata seria preciso, primeiro, distinguir entre o diplomata na Secretaria de Estado, ou seja, na sua capital, onde ele é miseravelmente remunerado, e aquele destacado para um posto no exterior, numa embaixada permanente, numa missão junto a um organismo internacional, ou em missão temporária, integrando uma delegação em alguma reunião internacional, onde ele ganha um pouco mais, mas onde ele tampouco vive nababescamente, como alguns podem imaginar.
Na Secretaria de Estado, somos perfeitos burocratas, processando informações, geralmente em formato eletrônico – como tudo o mais na vida, nestes tempos de informatização generalizada – mas também em suporte papel, muito papel. Ainda existe um bocado de formulários e memorandos nas burocracias governamentais, mais do que o necessário.
Um diplomata padrão cuida de alguns assuntos, sobre os quais possui, ou pelo menos deveria ter, domínio completo e competência reconhecida. Ele recebe um insumo qualquer – digamos um telegrama, hoje um simples e-mail, de uma embaixada, ou uma demanda de algum outro serviço – e imediatamente transforma esse tema em algum tipo de “instrução”, para a própria Secretaria de Estado, para outros órgãos do Estado ou para a missão no exterior que primeiro suscitou o problema. Essa resposta pode sair imediatamente ou requerer consultas a outras instâncias da Casa – divisões políticas, isto é, geográficas, ou econômicas, jurídicas, administrativas, etc. – ou de fora, algum órgão técnico do governo, por exemplo, ou até mesmo a entidades da chamada “sociedade civil”. Se o assunto é sério o suficiente para requerer uma decisão superior, ele é levado sucessivamente a escalões mais elevados, eventualmente até ao próprio presidente da República, que assume responsabilidade por todas as decisões maiores da política externa oficial, da qual o chanceler (ou ministro de Estado das relações exteriores) é o executor.
O gratificante, para um diplomata, é ver que uma proposta sua, emanada de seu “processamento” diligente, e inteligente, defendendo o que ele considera como sendo o interesse nacional, foi convertida em política de Estado e passa a ser defendida pelos representantes do país nos foros internacionais. As dificuldades, pelo menos no plano “psicológico”, geralmente estão ligadas à incapacidade de a instituição responsável pela política externa chegar a uma posição clara, contemplando esses interesses – mas nem sempre é fácil determinar onde está o interesse nacional –, ou então elas são derivadas do fato de que a melhor posição possível, em determinadas circunstâncias, tem de ser “contornada”, digamos assim, em função de alianças táticas ou de “competição” com outros objetivos, nem sempre muito claros.
Já nem considero aqui as dificuldades de tipo administrativo ou logístico – como a ausência de recursos materiais e humanos suficientes para executar o que se poderia considerar como a melhor diplomacia possível em todas as frentes abertas ao engenho e arte de nosso serviço exterior – ou os obstáculos propriamente “estruturais”, que são a obstrução dos fins pretendidos pelas “nossas” instruções por alguma coalizão mais forte no plano externo ou a insuficiente mobilização de aliados para a nossa causa. Isso faz parte da vida...
O diplomata na capital, ainda que fazendo parte de uma grande burocracia, dispõe de mais margem de ação e de mais autonomia do que o diplomata no posto, que tem necessariamente de seguir as instruções da capital. Mas este último também participa do processo decisório e da elaboração de posições, ao informar corretamente sobre as relações de força, sobre as posições dos demais países, sobre as alianças táticas que estão sendo desenhadas em torno de algum assunto e assim por diante.
Numa embaixada bilateral, que são os postos mais numerosos, as negociações são talvez menos freqüentes, mas aumenta o volume de informações produzidas sobre o país em questão e cresce o esforço de defesa dos interesses brasileiros em temas concretos, como comércio, investimentos, acordos de cooperação, geralmente científica e tecnológica, visitas bilaterais, bem como atividades de promoção cultural.
Coquetéis e recepções constituem parte integral do “balé” diplomático, mas esse tipo de atividade “festiva” geralmente está ligada às comemorações das datas nacionais – e isso dá para preencher quase todos os dias do ano, dependendo da capital e da respectiva rede de embaixadas, mas a freqüentação desse tipo de evento varia muito em função de “quem trabalha com aquele país” – ou então contempla a parte inicial de alguma reunião importante, com a presença de várias delegações. Almoços de trabalho – muito raramente pagos pelo serviço exterior – são mais usuais, ao passo que são mais raras aquelas recepções que nós mesmos organizamos para os colegas que conosco trabalham ou com quem convivemos por dever de ofício. Chefes de missão têm, sim, uma jornada extra, recepcionando ou participando intensamente desses eventos, para os quais se requer boa disposição de espírito, bom humor e o físico em forma...
Resumindo em poucas palavras, o diplomata, em suas diferentes funções ligadas à representação, negociação e informação, passa a maior parte do tempo pesquisando, escrevendo, processando informações, se relacionando com outros diplomatas, colegas e de outros países, bem como com funcionários de diferentes serviços, com o objetivo básico de conceber instruções e depois defender posições que reflitam o interesse nacional de seu país. É uma função, sem dúvida alguma, “nobre” e gratificante, mas também muito exigente e comportando alguma dose de desprendimento, pois por vezes as condições de trabalho, ou as da vida em família, não são as melhores possíveis (em alguns postos “de sacrifício”, por exemplo, ou até mesmo na Secretaria de Estado, onde os salários são baixos e o trabalho excessivo).
No cômputo global, creio que se trata de uma profissão invejável, pela diversidade de situações que ela permite e pelas oportunidades que cria de engrandecimento pessoal, intelectual e profissional. Os interessados em uma opinião pessoal sobre o que eu creio serem, na atualidade, as regras pelas quais deve pautar-se um diplomata, podem consultar meu ensaio preliminar “Dez regras modernas de diplomacia”, no seguinte link: http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/800RegrasDiplom.html; um resumo do mesmo texto, limitado às regras, foi colocado em meu Blog, post nr. 62, neste link: http://paulomre.blogspot.com/2005/12/62-dez-regras-modernas-de-diplomacia.html.
Boa sorte aos que tentam o ingresso na carreira, mas um aviso preliminar: será preciso estudar muito, antes e durante toda a carreira...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de janeiro de 2006
152) À l'Attac, sans disposer de majorité...

A ATTAC, cuja sigla significa Association pour la Tobin Tax et en Appui aux citoyens (ainda que o próprio James Tobin tenha recusado essa distinção), convida para uma mobilisation générale des citoyens contra o que eles chamam de "Europa ultra-liberal".
Eles querem manifestações na sede do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, contra a diretiva Bolkestein, que visa liberalizar os serviços em todo o território da União Européia.
Segundo a própria entidade reconhece em seu boletim, "la droite européenne est majoritaire au Parlement", mas a Attac não acha isso legítimo e pretende denegar ao Parlamento o direito de votar uma medida que liberaliza os serviços em escala européia, segundo o princípio do país de origem (PPO).
A posição da Attac é contraditória com os próprios objetivos da Europa comunitária, na medida em que, desde 1957, o tratado de Roma determinou a "livre circulação de mercadorias, de pessoas, de serviços e de capitais" (artigo 2). Por outro lado, a "estratégia de Lisboa", adotada em 2000, visa converter a UE, no horizonte 2010, na "economia do conhecimento a mais competitiva e a mais dinâmica do mundo" e a liberalização e ampliação dos mercados de serviços, setor que mobiliza perto de 70% do PIB comunitário, é fator importante nesse fortalecimento da economia européia.
Além de contraditória, essa posição é autoritária, pois se os cidadãos europeus votaram para eleger seus parlamentares, supõe-se que eles atribuiram competência a seus representantes para agir em nome deles, segundo orientações políticas defendidas durante a campanha. Argumentar agora que a diretiva é ultra-liberal, ou que ela vai beneficiar as grandes companhias multinacionais -- o que não é correto, pois serviços são flexíveis, comportam todas as gamas de atividades e podem ser prestados por todo tipo de companhia, em toda a Europa, dando chances, justamente, a pequenas companhias de pequenos países de alcançar um público mais vasto --, significa não aceitar as regras do jogo e pretender que posições minoritárias impeçam, por meio de manifestações ruidosas, a adoção de medidas que contam com claras maiorias políticas.
Se dependesse da Attac, a Europa não teria saído da Idade Média...
Quem quiser ler mais ataques da Attac ao capitalismo realmente existente e a uma suposta globalização perversa, pode consultar o site desses irredutíveis gauleses: http://attac.org/
Eles não são muito diferentes de outras tribos ruidosas que se manifestam nas redondezas...
151) Temas de política externa (5): auto-estima na diplomacia brasileira...

O Council On Hemispheric Affairs, entidade americana que, segundo sua própria definição, monitora as questões políticas, econômicas e diplomáticas afetando o hemisfério ocidental, acaba de anunciar a publicação em seu site de um artigo sobre a diplomacia brasileira sob o governo Lula.
Trata-se do artigo do pesquisador senior em política externa brasileira de naturalidade canadense Sean W. Burges, intitulado "Auto-estima no Brasil: a lógica da política externa Sul-Sul de Lula". Ele foi publicado na revista canadense The International Journal.
Abaixo um sumário em inglês desse artigo, que pode ser lido neste link.
Auto-estima in Brazil: The logic of Lula’s south-south foreign policy
Analysis prepared by COHA Senior Research Fellow Sean W. Burges, Ph.D.
Wednesday 11 January 2005
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In an article just published in the International Journal, the leading Canadian foreign affairs journal put out by the Canadian Institute of International Affairs, COHA Senior Research Fellow Sean W. Burges investigates the tone and intentions of the diplomatic rhetoric that has been emanating from Brazil since the 2002 lection of Luiz Inácio Lula da Silva. Burges argues that, “the Lula government in Brazil is pursuing a psychologically transformative foreign policy agenda in the global south. The goal is not to overturn or delink from the existing international political and economic system, but to prompt a change in how developing countries are inserted into and view the system.”
While the general content and intentions of Brazilian foreign policy are presented as having deviated little from the pattern established during the Cardoso presidency, the emphasis has turned slightly from seeking developed country cooperation in reforming international institutions to rebuilding developing country self-esteem, the essence of the auto-estima that lies at the core of contemporary Brazilian foreign policy. In short, “Lula is consciously attempting to reframe the development dichotomy, deliberately seeking to reshape notions of southern and Brazilian identity in the international political economy.
Rather than presenting the country as a developing state in need of aid, the emphasis is on Brazil as a complex and highly sophisticated economy and polity that is working to overcome an inequitable internal development pattern.” Significantly, leanings towards the isolationist, intra-Southern orientation of the New International Economic Order of the 1960s and 1970s are found to be absent despite the sometimes exceptionally nationalistic utterances of such key figures as Brazilian foreign ministry secretary general Samuel Pinheiro Guimarães or Brazilian National Bank for Economic and Social Development vice-president Darc Costa.
Burges thus argues that “Although idealist notions of solidarity play an important role in Brazilian diplomatic discourse, they are underpinned by a hard-edged analysis. Expansion of south-south trade and investment is an important part of Brazil’s strategy for economic expansion and development. Moreover, interest-based solidarity plays a central role in the maintenance of developing country coalitions such as the G-20 that Brazil has deployed with great effect in the WTO.”
The rise of auto-estima in Brazil and the growing sense of self-confidence it has created in the country’s foreign and domestic policies finds an international manifestation in Lula’s frequent suggestion that a new economic geography should be constructed, a proposal that has pushed the G-20 group of developing countries forward and provided the underpinning forthe evolution of the India-Brazil-South Africa dialogue forum which is now taking place with such an important potential. Emphasis is squarely on taking advantage of the opportunities that exist within developing countries and, on a competitive economic basis, exploiting the possibilities of intra-South cooperation.
Thus, “Rather than arguing that close economic ties with the north are not necessary, [Lula] suggests that they are neither sufficient nor structurally able to provide the opportunities needed for his country's sustained development. Instead of relying on new opportunities to be created in and approved by the north, the south should actively look to form its own arrangements.”
Isolation is not the rule or the goal; economically rational self-belief is. “Efforts to reshape global economic geography stem from a need to direct the loci of southern attention away from the North if auto-estima is to continue prospering both in Brazil and the global south. The challenge is to create a stable and self-sustaining new economic geography.”
Sean W. Burges (2005), “Auto-Estima in Brazil: The Logic of Lula’s South-South Foreign Policy,” International Journal 60 (3) (Autumn): 1133-1151.
An electronic copy of the journal article can be downloaded at www.coha.org
150) História recente do colonialismo e do imperialismo

Ao abrir hoje, 11 de janeiro de 2006, um de meus boletins eletrônicos de imprensa, percorrendo as notícias com o mesmo olhar vago de quem já anda saturado de informações, cheguei, finalmente, à seção de "aconteceu nesse dia". Sempre gosto de efemérides, dada minha atração especial pela história.
Mas o que li nesse this day in history?
Esta singela entrada, sem maiores explicações:
"Em 1943, Estados Unidos e Grã-Bretanha firmaram tratados para abandonar seus direitos extraterritoriais na China" (In 1943, the United States and Britain signed treaties relinquishing extraterritorial rights in China.)
Ou seja, exatamente 63 anos atrás, os EUA e o Reino Unido, então aliados da China na luta contra as potências do Eixo (Alemanha nazista, Itália mussoliniana e Japão militarista), davam finalmente por terminados os iníquos tratados desiguais que eles tinham extorquido do antigo regime imperial chinês em pleno século XIX. Em suma, pouco mais de duas gerações antes da nossa, a China era um país praticamente ocupado pelos principais países ocidentais, que ali dispunham de prerrogativas de, e se comportavam como, potências ocupantes.
O Japão já tinha entrado nessa brincadeira no final do século XIX, ao derrotar a China pelo controle de certos territórios (inclusive Taiwan), e novamente no início do século XX, ao derrotar novamente a China e a Rússia imperial, pelo controle do norte da China e pela tutela da Coréia (pouco depois convertida em simples colônia). Ele deu continuidade à sua política expansionista em 1931, invadindo e ocupando a Manchúria, e novamente em 1937, ao lançar-se à conquista de novos territórios chineses.
Bem antes dessa época, as grandes potências ocidentais já tinham extraído da China tratados e concessões iníquas, que representavam cessão de soberania e status de extraterritorialidade, que só vieram a termo, em 1943, em função das necessidades da guerra no Pacífico. Do contrário, é possível que a China permanecesse um país tutelado até praticamente os anos 1960, como ocorreu com a maior parte de outros territórios asiáticos e africanos.
Os contrastes entre essa situação humilhante e, de um lado, o antigo prestígio da China imperial dos tempos de Kublai Khan e de Marco Polo e, de outro, o novo respeito adquirido atualmente pela China no cenário internacional, em termos de poder econômico e possível desafio estratégico, não poderiam ser mais chocantes.
O interessante, porém, mais do que constatar a “perversidade” do colonialismo e do imperialismo contemporâneo, seria refletir sobre a marcha da história, aplicada ao caso chinês.
A ocupação e a humilhação da China não foram apenas o infeliz resultado da prepotência e da arrogância das potências colonialistas ocidentais. Elas foram, igualmente, o resultado da própria incapacidade da China de defender-se e de equiparar-se, econômica, tecnológica e militarmente às principais potências ocidentais.
E como isso foi possível, tendo em vista os precedentes chineses? De fato, até o século XVII, mais ou menos, a China detinha um dos melhores registros históricos em termos de inventividade humana (tendo oferecido ao mundo inovações fabulosas), uma das histórias políticas, artísticas e culturais mais longas do ponto de vista de sua continuidade, uma institucionalidade administrativa quase “weberiana”, enquanto Império unificado, bem como constituía a maior economia do mundo, pelo menos em termos de volume bruto.
Se as potências ocidentais, que tinham, em suas fases diferenciadas de modernização, aproveitado invenções chinesas geniais como a pólvora e a imprensa, puderam vencer, ocupar e “esquartejar” a China tão “facilmente” no decorrer do século XIX, foi porque a China deixou-se, de certo modo, dominar pela superioridade militar e tecnológica do Ocidente. Ou seja, ela já tinha entrado em decadência bem antes, parado de avançar na escala tecnológica e se convertido à introversão econômica.
Colonialismo e imperialismo nunca são atos (ou processos) unicamente unilaterais, pois eles dependem de determinado contexto econômico e político para se imporem e se “exercerem”.
Prova indireta disso pode ser oferecida pelas demandas atuais de certos grupos humanitários ou de intelectuais “imperialistas” para que de certos países, membros da ONU, enfrentando o caos político e um imenso sofrimento humano decorrente de seus Estados falidos, sejam colocados novamente sob “tutela internacional”, ou seja, que eles sejam recolonizados e submetidos a algum tipo de poder imperial.
A China atravessou seu “calvário” colonial de praticamente um século e meio de provações e humilhações. Macau e Hong-Kong, colonizadas pelos portugueses e pelos britânicos nos séculos XVI e XVIII, respectivamente, foram devolvidas à China apenas na segunda metade dos anos 1990. Taiwan configura um outro problema, dada sua população nativa, sua antiga ocupação japonesa, reconquista chinesa e nova ocupação pelas tropas “nacionalistas” do general Chiang Kai-Tchek, derrotado por Mao Tse-tung em 1949 na luta pela hegemonia política quando da reemergência da China enquanto potência independente.
Do ponto de vista político, Hong-Kong já não é mais independente, embora ainda tenha soberania econômica, enquanto território aduaneiro membro do GATT desde a origem. É possível que Hong-Kong exerça hoje certo “colonialismo” e “imperialismo” econômico sobre a China, uma vez que são os seus padrões econômicos, comerciais e financeiros, da mesma forma que os de Taiwan, que estão sendo adotados pela China continental e não o contrário. Como se vê, a dominação política e a “exploração” econômica nunca são partes de uma relação unicamente unidirecional, sendo antes uma interação bem mais complexa, que deita raízes na própria história.
Por isso é que eu gosto da história e é por isso que vou continuar lendo as páginas de efemérides nos jornais diários.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de janeiro de 2006, Blog 150.
149) Da mediocridade e da vulgaridade elevadas à categoria de obras de arte

Não sei se estou ficando careta, intolerante ou rabugento, ou ambos os três, de uma só vez, como poderia dizer um desses apresentadores de programas “populares”, mas o fato é que não consigo evitar um certo sentimento de desalento ao tomar conhecimento do que anda pelas TVs (e em algumas rádios) desse Brasil afora.
Não que eu seja um “vidiota” compulsivo, muito menos um espectador ocasional ou sequer errático de TV: eu simplesmente não vejo televisão. Mas, por vezes é impossível escapar dessa suprema forma de imbecilização do ser humano, ao passar por certos bares e restaurantes, ao freqüentar algum consultório médico, ou simplesmente ao adentrar em qualquer lugar onde existam pessoas esperando e atendentes primários que estão lá, obviamente... para atender, e para ver televisão. Lá está ela, a grande tela colorida ligada nos programas mais imbecis que jamais foi dado à mente humana conceber, ou então a propaganda idiota do programa idiota que passará mais tarde, durante ou após o chamado “horário nobre” (nunca uma qualificação foi tão abusada).
Como diria alguém, nunca antes no Brasil, talvez mesmo desde Cabral, jamais se viu tantos programas idiotas, tanta mediocridade e tanta vulgaridade juntos, sorridentes e contentes, nas telas da TV (e em certas rádios, mas essas pelo menos eu passo ao largo, ao passo que a TV, muito frequentemente, nos atravanca o caminho, ou a sala de espera). Também, nunca antes, em 500 anos, se ouviu tanta música medíocre na boca de certos grupos que deveriam ser trancafiados numa sala de testes de algum grupo desses que só conseguem fazer “música” com a ajuda de algum “dum-dum-dum” repetitivo.
Certos programas de auditório ou essas “interações” que apelam para os instintos mais vulgares do ser humano não são apenas medíocres ou vulgares, eles são repulsivos e abaixo de qualquer crítica que se possa fazer.
Será que estamos sendo transformados em uma nação de idiotas? Meu único temor é que isso não tenha mais volta e que não seja mais possível reverter o fenômeno no futuro prevísivel. Será que não haverá melhoria na qualidade da educação que consiga trazer o Brasil de volta a padrões “normais” de programas de entretenimento?
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de janeiro de 2006
terça-feira, 10 de janeiro de 2006
148) A primeira Assembléia Geral da ONU em 1946

Reprodução da matéria publicada no The New York Times de sessenta anos atrás, 10 de janeiro de 1946, relatando a abertura da primeira assembléia geral da ONU, em Londres, presidida pelo chanceler belga. O autor, o famoso jornalista James Reston, compara a sessão com a primeira reunião da Liga das Nações em 1920.
Para ver o link original da matéria, clique aqui.
On This Day
This event took place on January 10, 1946, and was reported in the The New York Times the following day.
UNO Opened; Attlee Asks World Unity
SPAAK IS ELECTED Belgian Is President Of The General Assembly After Floor Fight SOVIET LEADS OPPOSITION U.S. Votes on Russian Side for Norwegian -- Session Contrasts With League Meeting in 1920
By James B. Reston
By Cable to The New York Times
London, Jan. 10 -- The fifty-one nations of the greatest war-time coalition in history, representing four-fifths of the people in the world, started today another chapter in man's melancholy search for peace and security.
One hundred and forty-seven days after the close of the war that cost more than 20,000,000 casualties and left countless millions homeless, and on the twenty-sixth anniversary of the ratification of the ill-fated League of Nations Covenant, the nations met this afternoon in the blue and gold auditorium of the Central Hall of Westminster for the first meeting of the United Nations General Assembly.
Greeting them on behalf of Britain, which served as the spring-board for the final conquest of Germany, Prime Minister Attlee told them frankly that they would succeed in their new venture only if they brought "the same sense of urgency, the same self-sacrifice and the same willingness to subordinate sectional interests" with which they fought the war.
Spaak Elected President
Then, with a little less dignity than marks the balloting at a political convention at home, they proceeded to elect Paul-Henri Spaak, Belgian Foreign Minister, as President of the first General Assembly, despite a determined effort by the Soviet Union to replace him with the Norwegian Foreign Minister, Trygve Lie.
This election produced the only extraordinary incident of the day. When Dr. Eduardo Zuleta Angel of Columbia, chairman of the UNO Preparatory Commission and temporary president of the General Assembly, announced the balloting for the Presidency; the deputy chairman of the Soviet delegation, Andrei Gromyko, Russia Ambassador to Washington, asked to be recognized and strode to the microphone on the improvised modernistic blue and gold stage.
It was known at this point that the candidacy of Mr. Spaak would win, but Mr. Gromyko assured that he was supported by the United States, told the General Assembly that his delegation attached great importance to the election and favored the Norwegian Foreign Minister because of his personal capacities and the active movements of his country in the war.
Pole and Ukrainian Back Lie
As soon as Mr. Gromyko had left the rostrum, Foreign Minister Wincenty Rzymowski of Poland asked to be recognized and he then seconded the Russian nomination. When he had finished, D.Z. Manuilsky, the Ukrainian People's Commissar for Foreign Affairs, striking, white-maned figure with a booming voice, moved that Dr. Lie be elected by acclamation despite the fact that the rules of the Assembly call for elections by secret ballot.
After another short speech for Dr. Lie by Gustav Rasmussen, Danish Foreign Minister, the temporary-president called for a vote on whether to decide the issue by secret ballot, but immediately Mr. Gromyko rose again and asked for a vote on the motion to elect Dr. Lie by acclamation.
Some confusion attended those motions during which Mr. Manuilsky voted both for the secret ballot and for the election of Dr. Lie by acclamation, but finally fifteen delegations voted for a secret ballot and only nine voted in favor of putting Dr. Lie in by acclaim. The United States abstained on both those votes.
In the second balloting that followed, although M. Spaak had never been formally nominated on the floor, he received twenty-eight votes to twenty-three for Dr. Lie, the United States voting with the Russians for the Norwegian.
Thus the Assembly started with a show of strength by the Soviet Union, which is known to oppose Mr. Spaak because of his close friendship with Britain and his adherence to closer political ties among the Western European democracies- a movement that the Soviet Union has deprecated.
In reviewing this incident afterward some delegates showed interest in the silence of the United States. In the private preliminary discussions that preceded the session the United States had strongly supported Dr. Lie, but when delegates of the Soviet Union and her neighbors demonstrated for the Norwegian, Mr. Byrnes remained in his seat.
The incident, nevertheless, served to emphasize the great contrast between the opening of this General Assembly and the first meeting of the League of Nations General Assembly in Geneva in November, 1920.
Twenty-five years ago, in a peaceful neutral country, untouched by war, the theme was one of confidence in the power of moral force, and the only note of concern was over the absence of the United States and Russia.
In that opening speech twenty-five years ago, Giuseppe Motta, speaking for Switzerland, was certain that the idea of country and the idea of humanity could be fused; that the United States would join the League; and that Russia, "cured of her madness and delivered of her misery," as he said, would come back to the fold.
There were other striking contrasts that indicated the changes of history and illustrated the form and structure of the new security organization. Twenty-five years ago Italy, Japan and Rumania were present because they guessed right about the outcome of the first German war, but today they were absent because they guessed wrong about the second German war.
Two Nations Watched
Today in this grim capital, bleak and scarred by the explosions of German aerial intruders, it was two young and powerful nations, the United States and the Soviet Union, that held the stage, one by its speech and the other by its silence.
Then, too late, the neutrals, Sweden and Portugal, were present because the League of Nations accepted the right of nations to remain neutral in war, but today they were absent because they were not invited and because they are not prepared to abandon their neutrality whenever the Security Council votes the UNO powers into action against an aggressor.
There were a few familiar Geneva faces in the Central Hall today- Viscount Cecil of Chelwood, who played so important a part in the drafting of the League Covenant, and Dr. V. K. Wellington Koo, Chinese Ambassador to London, who was the only delegate in the hall who played an important role in that first General Assembly meeting in Geneva.
But the differences were vastly greater than the similarities. The leading place on today's program was reserved for a Socialist Prime Minister of Britain- symbolical not only of the rise of the Socialists in Britain but of the swing to the left in many parts of the Allied world.
Incidentally, the role of France today was more obscure. Overrun in this war, she was allowed to sit in on the major powers over the elections of the officers, but her role was definitely secondary.
Even the speeches today were different in tone and structure. The League opened with much talk about governments and the morals of disarmament of the sense of right and the virtue of pity. But today the British Prime Minister talked of the economic causes of war and he did not mention disarmament.
Tomorrow and Saturday the Assembly will get down to routine the work of electing chairmen of the six main Assembly committees, two vice presidents, the non-permanent members of the Security Council and thirteen of the eighteen members of the Economic and Social Council.
The election for the important post of secretary general will not take place until later. The Soviet Union favors Stanoje Simitch, Yugoslav Ambassador in Washington, for this post, but while some of the British Conservatives are beginning to talk about Anthony Eden and even Winston Churchill for the job, the trend still favors the election of Lester Pearson, Canadian Ambassador in Washington.
The Soviet Embassy said tonight that Andrei Y. Vishinsky, leader of the Russian delegation to the UNO Assembly, probably would remain in Sofia, Bulgaria, for two days and that it had no definite information as to when he would arrive in London. While he is absent from the sessions, Mr. Gromyko, the Russian's UNO expert with experience at Dumbarton Oaks, San Francisco and the executive committee and Preparatory Commission conferences here, is head of the Soviet Delegation.
With Foreign Commissar Molotoff absent, other delegates have made no secret of the fact that they would be encouraged by Mr. Vishinsky's presence.
147) As 25 melhores matérias do The Globalist em 2005

Gostaria de recomendar um site, claramente identificado com as tendências globalizadoras de nossa época, que traz matérias novas uma vez por semana, pelo menos, The Globalist, que pelo nome já diz tudo.
Em 2 de janeiro de 2006, o site traz uma seleção das 25 matérias que seus editores consideram como as melhores de todo o ano de 2005.
The Globalist's Top 25 Stories of 2005
By The Globalist, Monday, January 02, 2006
Our features in the year 2005 offered an intriguing mix of both the personal and the more general. From one Pakistani woman's experience studying in the United States to a wider history on nuclear weapons, 2005's features ran the gamut. Here are our selections for the best 25 features published on The Globalist in the year 2005.
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Listo aqui essas matérias:
1. Stunning Role Reversals in Pakistan
Why has it become relatively easier for Pakistani and Middle Eastern women to study abroad compared to their male counterparts?
By Sukaina Taqi
2. Europe's Social Democrats, Solidarity and Muslim Immigration
How might decreased immigration help Europe in assimilating newcomers?
By Wouter Bos
3. A Brief History of the Nuclear Age
Has progress been made since the beginning of the nuclear age in reining in these weapons?
By Joseph Cirincione
4. Why China Loves Globalization
Why is China's President Hu Jintao upbeat about future economic and political reform?
By Hu Jintao
5. Living Between Three Worlds
How has one man's life living between various times zones shaped his views on globalization?
By Sujan Pandit
6. Belgium's Muslim Beggars
How do Muslim communities living in the West view each other?
By Muqtedar Khan
7. Nehru’s Vision for India and China
Can India and China work together to re-create the vision of a powerful Asia?
By Gillian H.L. Goh
8. An American Woman in Iran: The People
What does an American find out about the people of Iran on her first trip there?
By Janet Larsen
9. Yellow Fever and Globalization
Back in the 17th century, were pandemics also transmitted by birds?
By John R. McNeill
10. The Women Who Ruled the Mongol Empire
In what ways did women centralize and expand Genghis Khan's vast empire?
By Jack Weatherford
11. Kyoto’s Statute of Limitations?
Is the Kyoto Treaty meaningless without a follow-on agreement?
By Annie Petsonk
12. AIDS in South Africa: Not Living, Not Dying Alone
How does HIV/AIDS shape the personal decisions of truckers in South Africa?
By Annamarie Bindenagel
13. Trekking Through China
How has development progressed in coastal versus inland China?
By Subbiah Lakshmanan
14. South Carolina and Globalization
What is one university in South Carolina doing to educate the next generation of world leaders?
By Pamela Martin
15. The Dayton 10: Lessons of War and Peace
What lessons has the world learned about post-conflict situations since the Dayton Accords?
By Wolfgang Ischinger
16. What Really Ails Europe (and America): The Doubling of the Global Workforce
How are workers from emerging markets changing the global economy?
By Richard Freeman
17. My Passage from Washington to New Delhi
Just how great are the differences between the U.S. and Indian capital cities?
By Kaiser Zaman
18. The Project for a New European Century
How is the European Union's model going to change global interaction in the 21st century?
By Mark Leonard
19. Global Trade at a Crossroads
What harsh lesson did history teach us about global cooperation?
By Jean-Pierre Lehmann
20. The Water Century
Why have water scarcity and sanitation become truly global problems?
By Steven Loranger
21. Dublin Swings
After several remarkable years of economic growth, is Dublin the same old city it used to be?
By Martin Sieff
22. India: A Hub for Globalization
Is India really ready to play a central role in the global economy?
By Raghuram G. Rajan
23. Which Pacific Century?
Which Asian country will prove most influential in the 21st century?
By Daniel Lian
24. Dateline Nigeria — Tomorrow Can Wait
How does an eight year-old boy get by on the streets of Lagos?
By Adesola Orimalade
25. Baghdadis and Washingtonians
Do residents of Iraq's capital have a right that D.C. residents can only dream of?
By Ilir Zherka
Interessado em alguma?
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146) Xiii!, agora complicou ainda mais...

Do Blog do Josias de Souza, da Folha de São Paulo (09.01.06)
Jeany sai do Corner
Jeany Mary Corner, a dama do “mensalão”, tornou-se uma ameaça ambulante. A exposição pública, mortal no seu ramo, fez minguar os negócios. Sem grana, abandonada pelos amigos e clientes, ela preparou um dossiê. Traz o nome de toda a sua clientela. Gente graúda de Brasília.
Munida de segredos insondáveis, Jeany pôs-se a pedir “ajuda” financeira aos personagens de sua lista. Acha que o seu silêncio obsequioso vale alguma coisa. “Fiquei no anonimato esse tempo todo. Fui muito digna. Diferente de outros que abriram a boca. Por isso, pedi ajuda sim. Falei para algumas pessoas: ‘Já que aconteceu tudo isso comigo, me dê uma ajuda para eu ficar sossegada até 2006’. Isso é chantagem? De jeito nenhum. Preciso viver e estou sem trabalhar”, diz ela.
Desfrutando do ócio em na estância mineral de São Lorenço (MG), a cafetina –ou empresária do setor de entretenimento, como prefere Jeany- prepara para março o seu retorno ao batente. Antes, promete visitar o Congresso Nacional. Vai perambular de gabinete em gabinete, para olhar nos olhos da antiga clientela.
Espera obter reconhecimento. “Você não acha que é justo uma ajuda financeira para me manter? Isso não é extorsão! Quando eu voltar vou andar pelos corredores do Congresso. Quero olhar alguns parlamentares de frente. Conheço alguns do tempo em que ainda eram governadores. Mas fui abandonada.”
Pressione AQUI para ler a entrevista que Jeany concedeu a Gerson Camarotti.
Escrito por Josias de Souza às 03h24 do dia 09.01.06.
145) Voulez-vous brûler une auto avec moi, ce soir?

Para os que acreditam que o famoso "modelo social" francês é infinitamente superior ao cruel modelo capitalista anglo-saxão...
...uma análise sans complaisance, não de um "Frenchman", mas de um anglo-húngaro, établi en France, mais écrivant à des lecteurs aux États-Unis and everywhere in the world...
Urban Riots: How the French Social Model Could Self-Destruct
Anthony de Jasay*
Reflections from Europe, January 9, 2006
"Nearly everyone in France is proud of the "French social model", if only because it is so different from the hated and feared "ultra-liberal Anglo-American" ways."
Para continuar a leitura deste artigo, publicado originalmente no site acadêmico The Library of Economics and Liberty, vá a este link.
* Anthony de Jasay is an Anglo-Hungarian economist living in France. He is the author, a.o., of The State (Oxford, 1985), Social Contract, Free Ride (Oxford 1989) and Against Politics (London,1997). His latest book, Justice and Its Surroundings, was published by Liberty Fund in the summer of 2002.
The State is also available online on this website.
PS.: Para os que não entendem Francês, o título deste post faz uma paródia com uma célebre canção soft-érotique "Voulez-vous couchez avec moi, ce soir?" (Você quer ir para a cama comigo, esta noite?)
144) Xiiii!, agora complicou...

Apenas transcrevendo:
TSE veta uso de dinheiro em espécie para doação de campanha
Agência Estado, 09.01.06
Brasília - Nas eleições deste ano, os candidatos e partidos não poderão receber doações em dinheiro vivo nem efetuar pagamentos com dinheiro em espécie. De acordo com resolução anunciada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Carlos Velloso, doações só poderão ser feitas com cheque nominal ou por meio de transferência eletrônica e terão que ser declaradas à Receita Federal.
Essas são algumas das medidas propostas por uma comissão especial da Justiça Eleitoral e aprovadas pelo TSE, destinadas a impedir ou dificultar a prática do caixa dois nas eleições deste ano. A resolução normativa anunciada hoje dispõe sobre arrecadação e aplicação de recursos nas campanhas eleitorais e também sobre a prestação de contas dos candidatos e partidos.
De acordo com as novas normas, os partidos serão obrigados a colocar à disposição da sociedade, na página da Justiça Eleitoral na internet, todas as informações sobre doações e gastos de campanha a cada 15 dias, e não mais apenas no final da campanha.
As novas regras prevêem também que os candidatos serão os responsáveis legais pelas doações, pelos gastos e pelas prestações de contas. Eles não poderão mais, portanto, atribuir aos tesoureiros do partido a culpa por eventuais irregularidades praticadas na campanha.
Vannildo Mendes
(Perguntar não faz mal: e dinheiro "morto", pode?)
143) Acho que eu já vi esse filme antes...

Não sei bem por que, mas ao ler o despacho de agência, abaixo transcrito, tive a leve impressão de que, algum tempo antes, eu já tinha ouvido palavras similares, apenas não sei bem onde, quando, e em relação a qual país, exatamente...
Se alguém souber, ou se lembrar, me avise, por favor...
Governo chinês é “aliado ideológico e político”, diz Evo Morales
09.01, 11h55
"Tenho a China como prioridade porque considero o país um aliado político e ideológico do povo boliviano." A afirmação foi feita nesta segunda-feira pelo presidente recém-eleito da Bolívia, Evo Morales. Ao passo em que ameaça investidores privados que atuam em seu país, Morales convidou o governo chinês a auxiliar na exploração das reservas de gás bolivianas.
O ex-plantador de coca encontrou-se com o presidente Hu Jintao no Grande Palácio do Povo, em Pequim. A visita faz parte de uma agenda que também inclui países da Europa e África do Sul.
Ao encontrar-se com o conselheiro chinês de Estado, Tang Jiaxuan, Morales convidou a China a "ajudar com a indústria de gás", após a reestatização dos recursos naturais que pretende implantar. "Para o governo do presidente Morales, hidrocarbonetos são um assunto de grande importância, em particular a industrialização do gás natural", afirmou Carlos Villegas, conselheiro econômico de Morales.
Morales já passou por Cuba, Venezuela, Espanha, Bélgica, Holanda e França. Sua extensa agenda inclui ainda a África do Sul e o próprio Brasil, antes de tomar posse como presidente no próximo dia 22.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2006
142) Renda per capita (se o termo se aplica) do deputado brasileiro ultrapassa a do deputado americano

Sempre nos surpreenderemos com a criatividade, inventividade, flexibilidade e esperteza do povo brasileiro, sobretudo de um certo "povo", aquele que faz da politica um modo de vida e uma atividade mais que rendosa, no limite da manipulação dos meios administrativos para acrescentar um pouco mais de vil metal a suas contas bancárias (várias, certamente).
Por essas e outras, e muitas mais, acredito que o Brasil está pronto para um movimento estilo crise argentina: "que se vayan todos!" (para fora, todos!).
Não acredito, cá entre nós, que a qualidade do material "entrante" será melhor do que o material "expurgado" (provavelmente será até um pouco pior), mas pelo menos teremos a satisfação de substituir o material já gasto, e cansado de se locupletar nas gordas mamas do orçamento, por gente menos escolada, menos afeita a desviar verbas do erário, gente que demorará vários meses para aprender o caminho da grana. Quando eles aprenderem, a gente substitui outra vez...
Está certo que as práticas do Congresso não ajudam muito, pois eles já têm prontinho, desde muitos anos, todo um esquema perfeito para a extração de recursos do distinto público: dezoito salários por ano (ou será mais?), verbas de gabinete que são utilizadas daquele jeito correto que vocês podem imaginar e outros trambiques legalizados...
Em todo caso, deixo vocÊs com a leitura da matéria abaixo...
PRA
A dura vida do parlamentar brasileiro
De Sérgio Duran no Jornal do Brasil, 9.01.06 (postado no Blog do Noblat):
"O parlamentar brasileiro ganha mais com salários e mordomias do que os congressistas americanos. Apenas em salário, um deputado federal brasileiro ganha 26 mil dólares (R$ 55 mil) a mais que um colega de ofício nos EUA durante o ano. Somando as verbas recebidas durante a convocação extraordinária, os vencimentos anuais de um parlamentar correspondem a aproximadamente 188 mil dólares (R$ 413 mil).
O congressista americano, embora trabalhe mais, recebe cerca de 162 mil dólares (R$ 356.400) por ano, sem direito a benefícios como auxílio-moradia e viagens, ambos pagos do próprio bolso.
Os gastos dos parlamentares chamam a atenção durante a convocação extraordinária de dois meses do Congresso, que custará aos cofres públicos quase R$ 100 milhões e vem sendo considerada uma folga remunerada - os trabalhos das Comissões de Ética e as votações só terão início no próximo dia 16.
Os ganhos anuais dos deputados foram calculados com os salários recebidos mensalmente, incorporados dois salários do chamado auxílio-paletó (um salário no início da legislatura e um no final), o décimo-terceiro salário e os vencimentos de R$ 25.694 da renda extra paga durante a convocação."
Clique aqui para ler matéria completa.
141) Previsões sobre o futuro do Brasil (feitas em 1968...)

Transcrevo abaixo interessante artigo do Professor Rubens Penha Cysne, atualmente atuando como visiting scholar no Departamento de Economia da Universidade de Chicago, sobre as previsões que o economista Mário Henrique Simonsen, de saudosa memória, fez, no longínquo ano de 1968, sobre as perspectivas de crescimento da economia brasileira, assim como sobre os demais problemas que o Brasil então enfrentava, enquanto economia e enquanto sociedade. Muitos desses problemas persistem ainda hoje.
Coloco esses exercícios de "futurologia aplicada" no contexto dos esforços de planejamento que então se faziam, para acelerar a chegada desse futuro. De certo modo, algo se construiu de positivo, como a estrutura industrial do país, mas muito se perdeu pelo caminho, também. Entre os problemas persistentes, levantados então por Simonsen e agora relembrados pelo Professor Penha Cysne, figuram a erosão na qualidade da educação, o sempre deficiente mercado de capitais e a poupança insuficiente, para efeitos de maximizar o crescimento, e, provavelmente, a racionalidade econômica e administrativa.
Pretendo igualmente retormar a análise dessas obras de trinta anos atrás, na esteira de meus trabalhos sobre a experiência histórica do planejamento no Brasil, um dos quais pode ser consultado neste link.
PRA
‘Brasil 2001/2’ e as previsões econômicas
Rubens Penha Cysne
jornal O Estado de São Paulo, domingo, 8 de Janeiro de 2006
Brasil 2001 e Brasil 2002 são títulos de dois livros publicados por Mario Henrique Simonsen, respectivamente, em 1968 e 1972. Tais livros comentam algumas projeções efetuadas para o Brasil, em 1967, relativas ao ano de 2001. Nesta virada de ano, em que proliferam projeções dos mais variados tipos, revejo aqui alguns pontos de tais análises. Fica clara a necessidade de encarar com a devida reserva qualquer exercício de futurologia econômica.
Em 1967, o Instituto Hudson, nos Estados Unidos, publicou o livro Ano 2000 - Um Arcabouço para Especulação sobre os Próximos Trinta e Cinco Anos, de Herman Kahn e Anthony J. Wiener. O estudo, prolixo, previa desde a evolução do sistema político internacional até a renda per capita de vários países fora do eixo dos industrializados, o Brasil em particular.
Nestas terras, o compêndio ganhou dimensão maior por causa dos dois livros de Mario Simonsen acima citados. Simonsen reconheceu o caráter especulativo da obra do Instituto Hudson, em consonância com a proposta dos autores. Isto posto, sua estratégia foi utilizar o exercício de futurologia de Kahn e Wiener para mostrar que algo deveria ser feito no sentido de se inverterem as tendências previstas de empobrecimento relativo do Brasil.
Simonsen enumerou cinco grandes problemas nacionais a serem resolvidos nos 35 anos que se seguiriam às previsões do Instituto Hudson: necessidade de fortalecimento da poupança interna, treinamento de recursos humanos, contenção da explosão demográfica, expansão das exportações e, por último, racionalidade econômica e administrativa.
Alguns dos problemas listados por Simonsen naquela época são ainda bastante atuais hoje em dia, outros, não. O cardápio modificou-se um pouco. Quase não se fala mais, por exemplo, em "problema do crescimento demográfico". Por outro lado, permanece a necessidade de elevar a absorção dos ganhos de comércio, de fortalecer a poupança interna e de maior racionalidade econômica e administrativa (menos impostos e mais investimentos públicos). Novos problemas, por outro lado, se incorporaram à discussão do cotidiano nacional: incerteza jurídica (que explica mais do que a metade do spread bancário médio de 40% existente em 2004, por exemplo) e violência urbana, este um problema crescente e talvez o mais urgente no momento.
O mote principal da análise de Simonsen se centrava na previsão, efetuada por Kahn e Wiener, a respeito da elevação contínua da relação entre a renda per capita americana e a brasileira - em 1965, esta era da ordem de 12,7 para 1. Kahn e Wiener previram, para 2000, um agravamento dessa diferença, chegando à razão de 20,1 para 1. A projeção dos dados brasileiros encerrava um crescimento médio anual de 4,5% para o produto e de 2,74% para a população.
A relação entre rendas per capita Brasil-Estados Unidos não se agravou como se previra. Ao contrário, reduziu-se. Passou de uma relação de 12,7 para 1, em 1965, para a nova, de 9,2 para 1, em 2000 (ao contrário dos 20,1 para 1 previstos). Simonsen apresentou (Brasil 2001, página 29) como uma projeção mais razoável a manutenção, em 2000, da relação em torno de 12 para 1 existente em 1965. Ficou mais perto do que ocorreu.
Roberto Campos, em seu texto Simonsen, um Matemático Humanista, publicado pela Revista Brasileira de Economia em 1998, refere-se à ironia utilizada por este autor em seus escritos como "ironia com penas de avestruz, e não com punhais florentinos, mais devotada aos conceitos do que aos preconceitos".
Talvez um exemplo do que diz Campos possa ser dado pelos três comentários finais com os quais Simonsen fechou Brasil 2001 e Brasil 2002 - "Especulações de longo prazo, até hoje, das duas uma: ou se reduziram a trivialidades, ou foram desmentidas pelos fatos" (Brasil 2002, página 26); ou "ser futurólogo é, antes de mais nada, uma questão de coragem de afirmar" (Brasil 2002, página 15); ou ainda "economia é a ciência que justifica, no presente, porque suas previsões para o futuro deram errado no passado" (Brasil 2001, página 12.
*Rubens Penha Cysne, professor da EPGE/FGV, é visiting scholar do Departamento de Economia da Universidade de Chicago (Home page)
domingo, 8 de janeiro de 2006
140) Uma nova história da Guerra Fria

Coloquei, no meu Blog auxiliar (Textos PRA), uma resenha publicada neste domingo, 8.01.06, no The New York Times Review of Books, do novo livro do famoso historiador americano da Guerra Fria, chamado, precisamente, The Cold War: a new history.
Interessados, buscar neste link.
139) Cinco mitos econômicos mistificados por um prêmio Nobel

Em resenha-artigo publicada no jornal Valor Econômico (06.01.06, pág. A8), o economista e professor da UFRJ André de Melo Modenesi apresenta, enfeixados sob o título “Conselhos de ano novo para o ministro Palocci”, alguns mitos que o economista e prêmio Nobel Joseph Sitglitz se encarregou de desmantelar em seu livro Os exuberantes anos 90: uma nova interpretação da década mais próspera da história (do original em inglês: The Roaring Nineties: A New History of the World's Most Prosperous Decade).
O resenhista acredita que esse livro “deveria ser leitura obrigatória dos brasileiros, notadamente os formuladores de política econômica” e expõe os cinco mitos que o economista americano atribui aos organismos econômicos como FMI e OMC como se fossem “verdade suprema”, os novos “mantras” do chamado consenso de Washington. Modenesi também acredita que, no Brasil, “a maior parte da imprensa especializada, da academia e dos formuladores de política econômica realizou seu ‘dever de casa’ e transformou o mantra que emana de Washington em fundamento da política econômica”.
Apenas para não contradizer meu espírito contrarianista, pretendo contestar a apresentação dos cinco mitos contestados por Stiglitz, tal como apresentados pelo seu resenhista brasileiro. Vejamos se consigo desestimular os conselheiros econômicos a adotar os novos mantras de Stiglitz.
Stiglitz: Mito 1) “A redução do déficit público pode reverter uma recessão econômica. O que é incorreto pois, ‘no curto prazo, os déficits [públicos] podem ser absolutamente essenciais para a saída de uma recessão, e os custos econômicos e sociais de prolongar uma recessão são enormes, muito maiores do que os custos associados ao aumento do déficit’ (pág. 281). Este mito contradiz uma das primeiras lições de macroeconomia: a demanda agregada é igual a consumo + investimento + gastos do governo + saldo comercial. Uma redução de qualquer um de seus componentes (inclusive os gastos do governo) reduz a demanda agregada e, portanto, desacelera a economia.”
PRA: Trata-se de um falso mito, só incorporado nessa categoria pelo fato de que Stiglitz tem uma necessidade atávica de atacar as supostas políticas recessivas do FMI. Não há nenhum mito aqui e não há contradição com essa primeira lição da macroeconomia keynesiana, que continua válida. O FMI recomenda, sim, a redução dos déficits públicos em caso de forte desequilíbrio fiscal ou externo, para que isso não aprofunde a situação do país assistido. A intenção, mais bem, é a de reduzir os gastos públicos que contribuem para agravar o déficit, não eliminar despesas que possam aprofundar a recessão, se é verdade que a situação anterior era de recessão. Geralmente não se trata de recessão, mas de crescimento desequilibrado, com forte impulso inflacionário motivado justamente pelo excesso de gastos públicos. Por enquanto zero pontos para Stiglitz pelo não-mito.
Stiglitz: Mito 2) “Os mercados são conduzidos pela mão invisível. Ou seja, o livre jogo entre oferta e procura resultaria em um equilíbrio eficiente e o bem geral seria promovido pela busca do interesse particular, como propôs Adam Smith no século XVIII. O que não é verdade: ‘A competição nem sempre conduz a resultados eficientes’ (pág. 285).”
PRA: Outro falso mito, pois nem Adam Smith acreditava que a competição resolvesse todos os problemas, em especial aqueles vinculados a mercados imperfeitos, como podem ser os de bens públicos. Dizer que a “competição nem sempre conduz a resultados eficientes” não implica que a “não-competição” possa produzir qualquer tipo de eficiência. Zero pontos, de novo, para o suposto contestador de mantras washingtonianos.
Stiglitz: Mito 3) “O que é bom para o mercado financeiro é bom para os EUA e para o resto do mundo. O que é, no mínimo, extremamente ingênuo: ‘Os mercados financeiros não são a fonte da sabedoria; o que é bom para Wall Street pode ou não ser bom para o resto da sociedade; e os mercados financeiros são míopes’ (pág. 286-7). Ou seja, o mercado financeiro é um grupo de interesse como qualquer outro e os seus anseios não devem ser confundidos com as demandas dos demais grupos de interesse que existem no país. A negação deste mito é particularmente relevante, pois os interesses do mercado financeiro têm sido travestidos de uma espécie de vontade geral - algo que está acima dos interesses individuais, que ‘se prende somente ao interesse comum’, nas palavras de Jean-Jacques Rousseau.”
PRA: Pode até ser “extremamente ingênuo”, mas não se vê bem como isso possa constituir um mito e quem o praticaria, a não ser os próprios interessados de Wall Street. Mercados financeiros são tão míopes quanto qualquer outro mercado, uma vez que eles são formados por agentes individuais que, em princípio, não agem em colusão uns com os outros, e sim cada um buscando maximizar seus lucros. Considerar a vontade desses mercados como a “vontade geral” à la Rousseau só revela ingenuidade de quem faz esse tipo de afirmação. Continuamos com zero pontos na série de Stiglitz.
Stiglitz: Mito 4) “O Estado deve ser mínimo. O que é uma falácia, pois um Estado minimalista não é capaz de promover um bom desempenho econômico e o bem-estar social, pois ele desempenha ‘papel importante, embora limitado, não apenas nas correções das falhas e limitações do mercado, mas também na busca por justiça social’ (pág. 11).”
PRA: Esse tipo de afirmação é recorrente na pluma dos partidários do Estado “máximo”, mas confesso que ainda não encontrei quem proclamasse sua vontade de instaurar um Estado “mínimo”. O que tenho visto é liberais defendendo a idéia de que o Estado deve limitar-se às atividades típicas do Estado, deixando todo o demais para a iniciativa privada. Outro falso mito, alimentando uma pretensa fúria liberalizadora e redutora do Estado que ainda não se materializou na prática em nenhum país.
Stiglitz: Mito 5) “O capitalismo americano é um modelo de organização socioeconômica a ser adotado pelo resto do mundo. O que causa arrepios a qualquer um que tenha mínima noção de antropologia social: ‘O sistema econômico americano tem enormes méritos, mas não é o único que funciona; outros sistemas podem funcionar melhor para outras nações’ (pág. 289).”
PRA: Tampouco tenho visto programas de “exportação” de capitalismo americano para o resto do mundo, como se se tratasse de alguma mercadoria prêt-à-porter. O que se vê, geralmente, são esses livros para executivos, avidamente consumidos mundo afora, como se eles representassem algo mais do que banalidades para encantar executivos em busca de novas idéias, qualquer idéia, para alimentar conversas com superiores da companhia. Cada país tem a sua história, única e original, e instituições nacionais, dificilmente transportáveis ou “importáveis” por outros países. Não se vê onde está o mito, que mais uma vez é construído por Stiglitz apenas para refutá-lo à sua maneira.
O resenhista brasileiro vai mais longe e pretende dirigir esses conselhos ao presidente Lula e ao ministro Palocci, como se estes estivessem, de verdade, submetendo o país “à disciplina dos mercados financeiros”.
Modenesi afirma, em especial: “ministro, em economia tudo tem o seu custo, isto é, há sempre um trade-off; um superávit primário de 5% do PIB é excelente para Wall Street e para a avenida Paulista, também, mas não é tão bom assim para o resto do país, não...”.
Inacreditável! O resenhista não parece perceber que o superávit primário – que é apenas isso, primário, não compensando o déficit nominal, isto é, real – conduzido pelo governo não visa atender a avenida Paulista, mas honrar contratos assinados e assumidos pelo governo. Ou o resenhista está de fato propondo que o governo aplique um calote nos mercados financeiros da Avenida Paulista? Algum dirigente responsável seria capaz de preconizar uma medida desse tipo?
O fato de um prêmio Nobel esgrimir alguns mitos construídos sob conveniência não lhes confere ares de autenticidade, como se sua palavra fosse um mantra infalível. Parafraseando o resenhista, o que realmente surpreende é ouvir uma personalidade com a autoridade de um professor universitário repetir afirmações gratuitas da boca de um prêmio Nobel e achar que isso lhes dá status de genialidade apenas porque vêem marcadas com o selo do prêmio Nobel. Parece que o complexo de colonizado não afeta apenas os supostos aliados de Wall Street, mas também os economistas ditos de oposição.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 8 janeiro 2006
138) As time goes by... people change

Para quem acha que os republicanos, nos EUA, sempre foram a favor do livre-comércio e que os democratas sempre foram a favor de ações afirmativas, propondo tratamento mais favorável para os negros e outras minorias, não custa nada constatar que o mundo e as pessoas mudam.
Lendo hoje, 8 de janeiro de 2006, o The New York Times, vim a consultar o evento do dia, mas de 8 de Janeiro de 1918, quando o presidente Woodrow Wilson proclamou, em sessão conjunta do Congresso americano, os seus "14 pontos" para a paz na Europa, no contexto da Grande Guerra.
Selecionei apenas o trecho transcrito abaixo, que descreve o pavor dos republicanos a qualquer medida que pudesse estabelecer o livre-comércio nas relações econômicas internacionais, situação na qual os produtores americanos, e seus representantnes republicanos, temiam a concorrência dos produtos alemães, que eles acusavam de fazer dumping.
Do The New York Times, de 8 de Janeiro de 1918:
"Republican Fear Free Trade
The only real outspoken criticism came from Republicans who saw in one of the war aims specified by the President a declaration that would commit the Allies and their enemies to the establishment of free trade for all the world for a basis of peace. This condition of war stated by the President in these words: "The removal, so far as possible, of all economic barriers and the establishment of an equality of trade conditions among all the nations consenting to the peace and associating themselves for its maintenance."
If this meant an acceptance of the principle of free trade that would permit Germany as well as other nations to dump their products in American ports and bring them into competition with American production, the Republicans, it was asserted, would enter a vigorous protest and would not consent to any peace that included such a condition."
Também não custa nada lembrar, mas isso não está na matéria do NYT, que o presidente Wilson, considerado um internacionalista e um humanista exemplar -- ele foi o único presidente com doutoramento de toda a história dos EUA, tendo sido professor na Universidade de Princeton, no último terço do século XIX -- era, na verdade, um racista também exemplar, tendo sido responsável pela introdução de uma versao precoce do apartheid, estilo USA, no serviço público federal dos EUA, contribuindo para a disseminação ulterior, em muitas outras instâncias da vida social dos EUA, de um sistema de segregação que então vigorava apenas nos estados do Sul, uma tragédia que persistiu até os anos 1960, pelo menos.
Como regra de princípio, até a era Roosevelt, os racistas e segregacionistas eram os democratas, com os republicanos moderados esforçando-se para integrar os negros à vida civil e política da grande nação do hemisfério...
OS republicanos, por sua vez, sempre foram protecionistas e defensivos em matéria de política comercial, ao passo que os democratas eram mais liberais (não no sentido americano, ou pelo menos eram liberais europeus em matéria de comércio).
Em pouco mais de um século, as posições se inverteram completamente.
Em um país próximo do nosso, igualmente, tinha gente que denunciava o livre-comércio, pregava uma "ruptura econômica" e recomendava a denúncia de acordos com o FMI. Uma vez no poder, porém, ou até mesmo antes de assumi-lo, o discurso e as ações mudaram enormemente.
As time goes by...
137) Em torno de um debate econômico

Um debate sobre processos econômicos
Paulo Roberto de Almeida
Tenho participado, nas últimas semanas, de um debate livre na Internet, por meio de uma lista de discussão, o Grupo “Mãos Limpas”, coordenado por um empresário de São Paulo.
O que segue abaixo é um exemplo de um troca-troca de argumentos, no qual eu posso parecer cáustico ou cínico, mas no qual tento fazer prevalecer a racionalidade econômica, contra o chamado senso comum...
Não aspiro ao monopólio da verdade, mas creio que algumas décadas de leituras atentas, de observação honesta da realidade e de muito estudo de questões econômicas, me habilitam a defender certas posições.
Feita a introdução, transcrevo aqui uma mensagem desta data, 8 de janeiro de 2006. Esclareço que meu “contendor” é Mtnos Calil, dai as iniciais MC antes de meus próprios argumentos.
(PS.: Costumo escrever mensagens sem acento na internet, salvo pequenas exceções, pois alguns servidores ainda rejeitam sinais diacríticos, substituindo-os por uma “sopa de letras” e outros sinais estranhos. É bem verdade que hoje em dia a maior parte dos provedores de acesso já superou a limitação dos sistemas ASCII, mas mantenho o velho hábito, pois ainda me acontece de receber “sopas de letras”...)
Mensagem de 8 de janeiro sobre o “Senso comum – PRA”:
Eu ainda nao havia comentado a mensagem abaixo do Mtnos Calil, nas seqüência do nosso debate sobre coisas e fatos da globalização e o que a economia política teria a dizer a esse propósito.
Respondo, embora rapidamente, dividindo as questoes como ele faz:
1) Distribuicao desigual de riquezas:
MC: Mais uma vez, PRA - 80% da renda mundial estão concentrados nas mãos 20% da população. Rendamo-nos à realidade dos fatos, para num segundo momento debruçarmo-nos sobre eventuais soluções. Não aceitar que o sistema que governa este mundo é cruel e injusto, fere o senso comum.
PRA: O fato de que a renda mundial é concentrada nao significa necessariamente que os 20 por cento estao se apropriando indevidamente, digamos, de uma parte da renda dos mais pobres, e que se isso nao ocorresse a renda seria igualmente distribuida. Isso simplesmente nao se sustenta. Pode haver alguma exploracao, ou extracao de recursos de certas zonas em favor de outras, mas isso é parte de qualquer sistema, interno ou internacional, e nao explica os fundamentos do problema.
A desigualdade se explica, basicamente, por diferenciais de produtividade do trabalho humano. Significa, assim, que aqueles 20 por cento da humanidade que concentram 80 por cento da sua renda sao muito mais produtivos do que o restante. As simple as that...
Respondendo à parte final: não aceito que o sistema que governa o mundo é cruel e injusto, simplesmente porque NÃO HÁ UM SISTEMA que governa o mundo, pois ele continua ingovernavel no plano mundial. Existem sociedades que se organizaram de formas diversas, algumas de forma mais eficiente do que outras, o que lhes habilitou nao apenas a dispor de maior bem estar para os seus cidadaos como, de certa forma, a extrair riquezas do resto do mundo. Este é um fato, mas só extrai riquezas que tem competencia para se estabelecer, nao quem quer...
Cruel e injusto? Não tenho certeza. O mundo atual é o resultado da historia, e ele hoje é certamente menos cruel e mais justo do que em epocas passadas.
E não há absolutamente nada que possa ferir o senso comum. Esta é a historia humana, talvez não muito dignificante, mas creio que a humanidade caminha para melhores dias. Afinal de contas já não se cortam mais linguas e orelhas dos inimigos capturados em guerra, já não se empalam individuos considerados inimigos e assim por diante.
2) Lógica formal e processos sociais
MC: Continuo na minha estratégia de não entrar no mérito de idéias e propostas e sim de estabelecer bases lógicas para o contraditório.
PRA: Se nao entrar no merito das ideias, seu raciocinio será falho e parcial. De toda forma, o itinerario historico da humanidade, com suas desigualdades distributivas, pode até seguir uma certa logica economica, mas nao obedece aos ditames da logica formal. Processos humanos nao sao "racionalizaveis" na base do que é moralmente correto deve prevalecer, e sim com base em relacoes de poder, de dominacao, de acumulacao, de vantagens acumuladas pelos que dispoem de maiores condicoes de competitividade. Essa ideia darwiniana, ainda que descartada parcialmente por suas implicacoes morais, ainda é a base dos processos humanos, sociais e naturais.
3) Conhecimento? Está livremente disponível...
MC: O meu ponto de vista é que não falta à humanidade conhecimento para resolver os seus problemas mais cruciais, sendo a miséria o mais crucial e urgente de todos.
PRA: Não, não falta. Ainda que existam milhões de pessoas ignorantes, e que a qualidade da educacao na maior parte dos paises seja deploravel, inclusive no nosso, quem frequenta a Internet sabe disso: 95 por cento de todo o ESTOQUE UNIVERSAL DO CONHECIMENTO HUMANO está livremente disponivel na Internet, bastando aceder a ele.
A "humanidade" tem conhecimento suficiente para resolver todos esses problemas cruciais, entre eles o da miséria e da desigualdade. O problema está em que isto custa alguma coisa, e como as sociedades estão organizadas em bases estatais, segundo os principios de Vestfalia, ainda nao é possivel ter o conhecimento e os processos economicos circulando livremente por ai, sem considerar o fato de que é preciso ter recursos minimos para aceder a esse conhecimento LIVREMENTE DISPONIVEL, volto a insistir.
O conhecimento proprietário, ainda que valioso e realmente estratégico, nao deve representar mais do que 5 por cento do necessario para resolver os problemas da miseria e da desigualdade da maior parte da humanidade (que precisa apenas de condicoes de producao e de atendimento basico de saude...).
4) Consenso sobre o óbvio? Infelizmente não haverá...
MC: "Precisamos antes estabelecer um consenso sobre esta realidade, baseado no sentimento de solidariedade com bilhões de seres humanos pobres e miseráveis que habitam este planeta."
PRA: A despeito do fato de que eu disse que não seria dificil resolver os problemas mais cruciais da humanidade, é evidente, pela simples amostra desta Lista, que não haverá consenso sobre essas solucoes. Eu, e alguns poucos, advogamos por um sistema economico livre e aberto, baseado na competicao e na inteligencia, que desde Adam Smith fez a prosperidade de muitos paises. Outros, que eu nao preciso mencionar, pretendem adotar outros caminhos. Nao me parece que as evidencias da historia militem em seu favor.
O fato é que, até a Revolucao Industrial, 95 por cento ou mais da humanidade, vegetava ao nivel da subsistencia, com ameacas recorrentes de fome, escasses, doencas e outros males. Desde entao, fizemos enormes progressos, mas a distancia de niveis de bem estar (grosseiramente medida pela renda per capita) entre os paises tambem aumentou tremendamente, talvez de 1 para 20 para mais de 1 para 200 hoje em dia. Isso nao quer dizer que os privilegiados o sejam porque passaram a explorar 200 vezes mais os pobres, apenas que sua produtividade aumentou tremendamente, ao passo que aqueles vegetam em niveis tipicos do Ancien Regime, ainda.
Solidariedade não é a palavra correta, e sim elevacao dos niveis de produtividade do trabalho humano, algo perfeitamente atingivel se as sociedades se organizam para o bem estar da maioria, nao para os beneficios de uma minoria, como ainda parece ser o caso entre nos...
5) Wishful thinking...
MC: "Tenho acómpanhado as declarações de dezenas e dezenas de economistas cuja grande maioria nem sequer faz uso do termo "miséria", o que revela crueldade, alienhação social ou simplesmente uma desconsideração humana por seus semelhantes. O amor ao próximo deveria ser o primeiro fundamento de qualquer regime social, econômico ou político."
PRA: Os economistas tratam justamente disso, a escassez, mas se eles nao demonstram amor ao proximo não é por perversidade, e sim por acreditar que existam instrumentos eficazes para diminuir a miséria humana. Esses instrumentos estão no crescimento da produtividade do trabalho humano, apenas isso. Amor ao próximo, sinto muito, nãoa resolve um pingo do problema, apenas representa um paliativo, na forma de distribuicao de riquezas previamente amealhadas por alguem. MAs é preciso existir esse alguem para que exista alguma riqueza que possa ser distribuida.
6) Etica do bem comum
MC: "Temos que integrar os fatos reais com principios de uma ética do bem comum para compor uma plataforma de entendimento. O consenso em torno do óbvio é premissa básica até para justificar posições divergentes."
PRA: Nada contra, apenas ressaltando que essa busca nao pode contrariar principios basicos da ciencia economica. Se não houver bens e recursos, simplesmente nao há prosperidade. As raizes das divergencias estão na forma de se conquistar a prosperidade. Alguns acreditam nas cornucopias infinitas, outros no trabalho duro...
7) Entendimento sobre conceitos
MC: "Globalização é outro termo que precisa ser definido. Para eu me posicionar a favor ou contra qualquer coisa eu apreciso ter a definição (ou um conceito abrangente) sobre o que é esta coisa. Acho um perfeito absurdo duas pessoas discutirem sobre a globalização sem antes estabelecerem um significado sobre o objeto da sua discussão. Isto simplesmente fere o senso comum e beira à esquizofrenia. O diálogo de surdos, tão comum em nossos dias, tem passado desapercebido a muitas pessoas, exatamente porque elas não param para se perguntar sobre o significado das palavras chaves em torno das quais se estabelecem as posições a favor e contra."
PRA: Não ha nenhum problema nisso, mas seria bom não nos digladiarmos por conceitos. Globalizacao significa simplesmente integracao de mercados, apenas e tao somente isto...
Quem quiser pode propor outro significado, mas nao retira a realidade do fato e do processo...
8) Apelo à lógica...
MC: "Faço-lhe novamente um apelo para tentarmos fazer da lógica a ferramenta básica de nossa comunicação, deixando de lado part pris liberais ou conservadores, estatizantes ou mercadizantes."
PRA: Não considero que esteja sendo ideologico ao refletir sobre o desenvolvimento da humanidade até aqui. Tudo o que eu digo pode ser aferido em estatisticas de orgaos internacionais, tipo ONU.
Existem paises ricos e paises pobres, existem pobres dentro de paises ricos e existem milionarios dentro de paises pobres, ao lado de muitos miseraveis. Esta é a realidade que temos de afrontar. A partir dai, divergem as propostas de solucoes. Eu sou a favor dos dados basicos da economia: mercados, instituicoes, pessoas conectadas em favor do crescimento da produtividade e da elevacao dos padroes de vida. Com base nas evidencias historicas, existem meios mais eficientes do que outros para se alcancar a prosperidade. Não adianta apeans querer replicar experiencias de outros paises, mas algumas evidencias são fatuais, nao ideologicas: mercados livres, por exemplo, funcionam melhor do que o planejamento centralizado. Se não fosse assim, teriamos dezenas de paises socialistas ainda hoje. Existe algum que seja um exemplo de sucesso?????
Era o eu que tinha a dizer.
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Paulo Roberto de Almeida
pralmeida@mac.com www.pralmeida.org
www.paulomre.blogspot.com/
Addendumde texto de debate anterior (6.01.06):
Quero crer que o Brasil se aproxima, hoje, de um quase consenso em torno das políticas econômicas mais favoráveis ao crescimento e à estabilização. Com exceção de alguns poucos economistas, de uma certa tradição muito conhecida entre nós, que ainda pedem protecionismo, controle de capitais e forte intervencionismo estatal – com os conseqüentes pedidos derivados, de redução compulsória dos juros e do superávit primário e de aumento dos investimentos públicos, independentemente de suas conseqüência fiscais --, creio que a maioria dos economistas hoje reconhece a importância do combate decidido à inflação (que é o principal imposto que atinge os mais pobres, aumentando as desigualdades distributivas) e a manutenção dos equilíbrios fiscal e orçamentário. Poucos se arriscariam a preconizar uma política de emissionismo irresponsável, de descontrole das contas públicas ou de protecionismo deslavado, com as demais políticas irresponsáveis nos campos fiscal, industrial, comercial ou tecnológico.
Se a despeito de tudo isso, o Brasil continua a NÃO CRESCER, como tenho afirmado, isto não se deve a uma perversão própria de nossas políticas macroeconômicas, a uma possível deterioração do meio ambiente internacional (que nunca foi tão favorável) ou a qualquer irresponsabilidade do Banco Central (ainda que todos reconheçamos que ele tem se mostrado excessivamente conservador na questão dos juros, mas os níveis dos juros reais já foram mais elevados em outras épocas). Isto se deve a FATORES ESTRUTURAIS que simplesmente inviabilizam um ritmo mais elevado de crescimento.
É sobre esses fatores que devemos atuar, se quisermos ser responsáveis: Estado desnecessariamente inflado e necessariamente despoupador dos recursos privados, tributarismo excessivo e irracional, incidindo sobre o processo produtivo de forma nociva, desincentivos à poupança e ao mercado de capitais, regulacionismo exagerado dificultando o meio ambiente de negócios, justiça lenta, tardia, falha, quando não corrupta, excesso de rigidez no mercado de trabalho, corporativismo exacerbado em todos os setores da sociedade (e não apenas no setor público e nos sindicatos de trabalhadores), enfim um conjunto de problemas que tenho me esforçado por esclarecer aqui.
Sei, por outro lado, que não haverá acordo entre minhas posições e as posições de pessoas que ainda colocam o Estado como o centro organizador da sociedade. É por ser assim, hoje em dia, que estamos pagando esse preço elevado em termos de corrupção política e dos costumes de modo geral. Como tudo passa pelo Estado, torna-se inevitável que os mais “espertos” aproveitem dessa “intermediação” para desviarem um pouco (ou por vezes muito) para si mesmos.
Estas são minhas concepções, que não são artigos de fé, mas conclusões a que cheguei com base nas evidências da história, num estudo honesto dos fatos e numa comparação objetiva com as experiências de outros países.
Voilà, é o que eu tinha a dizer...
PRA
136) Um bem-vindo profeta do apocalipse...

O Ricardo Bergamini é um economista de Curitiba que não se cansa de alertar os colegas, os estudantes e todo o Brasil sobre os problemas que irão inevitavelmente se apresentar, à presente e às futuras gerações, em decorrência de nossa total incapacidade, das elites e de toda a sociedade brasileira, em lidar com os desastres anunciados a respeito das contas públicas, crescentemente deficitárias em função de gastos perdulários do Estado brasileiro e do crescimento vegetativo de despesas obrigatórias como as obrigações previdenciárias.
Abaixo uma pequena amostra do desastre anunciado, e reiterado diversas vezes por ele, em mensagens que dirige a todos os cadastrados em seu sistema de distribuição. Vale a pena, igualmente, uma consulta a seu site, cheio de dados estatísticos, de informações econômicas relevantes, e de muitas aulas de história que são um primor de síntese e de rigor factual.
Ele representa uma das minhas "fontes primárias" para reflexões em torno de nossa caótica "economia política".
Começo de transcrição de mensagem do dia 8 de janeiro de 2006:
"Reflexão Sobre Previdência Social no Brasil – Fonte IBGE
Base: Novembro de 2005
Premissa Maior
Em novembro de 2005, segundo o IBGE, a População Ocupada (PO) tinha a participação de 43,9% de mulheres e 56,1% dos homens, a População em Idade Ativa (PIA) de 53,2% de mulheres e 46,8% de homens e a População Economicamente Ativa (PEA) de 45,2% de mulheres e 54,8% de mulheres.
Premissa Menor
As mulheres contribuem com cinco anos menos para a previdência (INSS ou Servidores Públicos) em relação aos homens, obtendo os mesmos benefícios dos homens, além de terem uma expectativa de vida de 7,6 anos maior do que os homens. Os militares possuem o direito de computarem nos cálculos de suas aposentadorias o período das escolas preparatórias e academias militares (5 anos). Com base na técnica atuarial existem 12,6 anos nas aposentadorias femininas civis, e 17,6 anos nas aposentadorias femininas militares, sem fontes de contribuições.
Conclusão
Como as estatísticas demonstram, nos últimos trinta anos, o crescimento exponencial da participação da mulher no mercado de trabalho, é óbvio e ululante que o Brasil vem montando uma bomba-relógio na previdência social, de proporções inimagináveis, que começará a ser sentida nos próximos anos, com o início dos pagamentos dos benefícios sem fontes de contribuição. Com base nas premissas acima colocadas, a falência total do sistema será inevitável.
Nota: Arquivos oficiais do governo brasileiro estão disponíveis aos leitores. Basta me solicitar.
Ricardo Bergamini
(48) 3244-7671
rberga@globo.com
www.rberga.kit.net"
Outro exemplo, do dia 7.01.06:
"“Um estado injusto com os seus próprios membros, jamais poderá praticar uma política de justiça social e distribuição de renda” (Ricardo Bergamini).
Reflexão Sobre o Salário Médio/Mês da União – Por Poderes – Fonte MF
Base: De Janeiro de 2005 até Novembro de 2005
Poderes da União Quantitativo R$ Bilhões Média/Mês R$ 1,00
Executivo Civil 1.347.858 47,2 3.183,50
Executivo Militar 643.640 21,5 3.036,71
Judiciário 109.395 11,2 9.307,39
Legislativo 34.653 3,5 9.181,92
Total 2.135.546 83,4 3.550,29
Notas: 1 - Estamos considerando o total de ativos, inativos, pensionistas, diretos, indiretos e intergovenamentais.
2 – O salário médio/mês dos trabalhadores formais da iniciativa privada é de R$ 974,50."
Pelas transcrições:
Paulo Roberto de Almeida
135) As teses de abril (sem qualquer pretensão à paródia)

Teses para o próximo encontro nacional de um grande partido
(continuação do post anterior, 134)
Companheiros,
Chegamos ao governo e estamos no poder. Junto a nós e dos movimentos sociais e de trabalhadores, que sempre defendemos, está também o grande capital, um formidável adversário no passado, mas um aliado no presente, pois ele pretende que continuemos a fazer mudanças no Brasil, na sua economia e nas instituições políticas, sem contudo provocar aquelas rupturas que constantemente anunciávamos no passado.
Pensando bem, em todos os custos e benefícios de qualquer processo de mudança numa sociedade complexa – como são todas as sociedades –, decidimos fazer uma aliança tática e estratégica com o capital, para conduzir um processo de ruptura com nossas velhas teses e aprovar algumas novas, que agora se seguem.
1. O partido não é socialista, e sim reformista.
Independentemente de continuarmos a nos chamar de “socialistas” (para fins de propaganda e de identificação políticas), vamos terminar com a hipocrisia de pretender implantar o socialismo no Brasil. O que faremos, abertamente daqui para a frente, será administrar o velho e duro capitalismo, com todo o apoio e a satisfação dos nossos novos aliados na burguesa nacional e no capital financeiro internacional.
Acreditamos que a economia de mercado é a que melhor se presta ao atendimento das satisfações básicas da população, e que o Estado deve ser contido nas suas finalidades essenciais da segurança, educação, saúde e infra-estrutura, ademais do estabelecimento de regras gerais para o bom funcionamento da economia de mercado (competição, estabilidade de políticas, abertura à inovação etc.). Vamos continuar reformando as instituições regulatórias para que a economia de mercado promova os interesses do maior número de cidadãos.
2. O partido adota uma política econômica responsável e pró-mercado.
Vamos parar de acreditar que o Estado será o grande promotor, distribuidor e equalizador das chances e oportunidades no Brasil. Da forma como ele atua, hoje, no Brasil, o Estado transformou-se no principal obstáculo a um processo sustentado de crescimento, com transformação estrutural e distribuição de benefícios, uma vez que ele atua como um despoupador líquido dos recursos privados, cristaliza benefícios em prol dos já integrados e vem redistribuindo os recursos de todos em benefício da minoria.
Nossos princípios econômicos, de agora em adiante, serão definidos por quatro diretrizes: (a) uma macroeconomia estável, dotada de responsabilidade fiscal e sério comprometimento com o combate à inflação, o principal imposto que se abate sobre os pobres; (b) uma microeconomia aberta, competitiva, aberta às novas iniciativas, dotada de instituições que favorecem o empreendimento privado e criando um bom ambiente para os negócios de modo geral; (c) um investimento maciço na qualidade dos nossos recursos humanos, a começar pelo ciclo básico e pelo ensino profissional, pois o única critério que nos separa, hoje, dos países mais desenvolvidos, é o diferencial de produtividade do trabalho humano, o que depende da variável educacional; finalmente, (d) uma abertura ao comércio e aos investimentos internacionais, no entendimento de que a interdependência econômica é a que melhor se ajusta aos nossos padrões de economia integrada nos fluxos mais dinâmicos da globalização contemporânea.
3. O partido quer uma reforma política que transforme o modo de ação do Estado.
O fazer política, no Brasil, tornou-se um modo de vida, quando não uma atividade rendosa. Os meios parecem ter se substituído aos fins e quase toda a máquina pública, em especial o legislativo e o judiciário, converteram-se em redomas privilegiadas de altos salários e de produtividade mínima. Queremos mudar profundamente tudo isso, já que o povo está descobrindo com razão com o dinheiro dos impostos, duramente arrecado em detrimento de seu consumo, vem sendo desperdiçado de maneira indigna, alimentando gastos inúteis nos gabinetes de políticos profissionais.
Por isso, o partido vai propor uma reforma política que contemple, em primeiro lugar, a redução do volume de gastos e uma mudança no tipo de representação política que se está exercendo em nome do povo. Sobretudo nos municípios menores, mas também nas assembléias dos estados mais populosos e no próprio Congresso nacional, o dinheiro do povo está sendo gasto indevidamente, com mordomias incontáveis, em total descompasso com o trabalho necessário e honesto da representação política. Sabemos disso, pois nós mesmos nos acostumamos a esse tipo de coisa.
Os poderes legislativos e judiciário consomem muito mais recursos do que o justificado, sobretudo pela forma como trabalham (ou deixam de fazê-lo). Outros questões, vinculadas à lei eleitoral ou ao financiamento dos partidos, podem vir a fazer parte do debate político num segundo momento, mas o partido deve agora esforçar-se por redimensionar a representação política nos três níveis da federação ao que se possa considerar como normal e razoável em condições democráticas. A política não pode mais continuar sendo um meio de ganhar a vida.
4. O partido não quer um Estado mínimo, mas um Estado que funcione.
Durante muito tempo acreditamos que o Estado era uma espécie de varinha mágica, que poderia fazer acontecer tudo o que se desejasse, bastando um simples toque de botão. Descobrimos que não é assim, e por isso estamos, humildemente, revisando nossas posições. Pois bem, o partido está propondo uma reforma administrativa com diminuição radical do número de ministérios e a conseqüente atribuição de diversas funções a agências reguladoras.
Também nos convencemos que as PPPs (parcerias público-privadas) constituem no máximo um paliativo e por isso estamos retomando a privatização de alguns grandes monstrengos públicos que ainda existem e são fontes de ineficiência e de corrupção, no setor financeiro, energético, de transportes e outros. Também vamos propor, mesmo sob risco de bombardeio do quartel-general pelos nossos velhos aliados sindicais, o fim da estabilidade no serviço público, que em muitos casos se converteu num incentivo à preguiça e ao ócio remunerado, como visto nas greves das universidades federais.
Provavelmente vamos propor também a concessão de autonomia completa a essas universidades, assegurando um patamar mínimo de dotações públicas e deixando-as, em seguida, livres para buscar o dinheiro onde queiram e gastá-lo como desejam, inclusive remunerando seus professores da forma como lhes parecer mais apropriada. Queremos um Estado forte nas áreas em que ele deve necessariamente atuar, não em todos os setores onde ele atua hoje, nos quais segue esbanjando recursos do povo sem resultados práticos comensuráveis. Estado bom é o Estado que tem condições de atuar de maneira efetiva, não aquele que apenas finge ou tem a pretensão de fazê-lo, mas não faz.
5. Contra a derrama fiscal: o partido quer redução de impostos.
Vamos propor uma reforma econômica ampla, com diminuição da carga tributária e a redução das despesas correntes do Estado. O Brasil já ultrapassou limites razoáveis de carga fiscal e isto se traduz no “desinvestimento” estatal e na incapacidade de se ter poupança privada para fins de investimento. Vamos impulsionar também uma série de reformas microeconômicas, com vista a criar um ambiente favorável ao investimento produtivo, ao lucro e para diminuir a sonegação e a evasão tributárias.
Ao mesmo tempo, vamos dar um aperto fiscal nesses “criadores de despesas” irresponsáveis que são os legislativos e o judiciário. Esses poderes possuem a incrível capacidade de determinar eles mesmos suas próprias despesas, sem atender a qualquer critério de disponibilidade do recursos do ponto de vista orçamentário. No plano da federação, caberia revisar a situação dos municípios sem capacidade arrecadadora, e que são obrigados a viver de “mensalão” federal: essa situação não pode mais se sustentar.
6. Por uma nova classe trabalhadora, livre da mão pesada do Estado.
Chegamos ao que um ilustre antecessor chamou de “aristocracia operária”, uma classe que se reproduz a si mesma e que inclusive ocupa diversas funções no Estado e nos sindicatos, com remunerações, comissões e outras prebendas que não encontram correspondência no trabalho dispendido em defesa dos interesses da classe trabalhadora, sobretudo daqueles que ainda não estão incorporados ao mercado formal de trabalho.
Por isso estamos propondo uma reforma trabalhista radical, com flexibilização da legislação laboral, dando maior espaço às negociações diretas entre as partes. Também propomos a extinção do imposto sindical, que alimenta sindicalistas profissionais, em contradição com o que se esperaria de representantes temporários, em sindicatos de fato livres.
Por fim, vamos encerrar de vez a era Vargas, propondo a extinção da Justiça do Trabalho, que é ela uma fonte de criação e de sustentação de conflitos, substituindo seus pesados procedimentos pela via arbitral, ou por varas especializadas na justiça comum. De forma geral, a legislação trabalhista vai ser reformada para facilitar e ampliar a empregabilidade daqueles que hoje estão excluídos do mercado trabalho.
7. O partido é, doravante, globalizado e favorável à globalização.
Sinto muito, mas teremos de dizer aos nossos amigos do Fórum Social Mundial que eles conduzem um combate de retaguarda, uma luta até mesmo reacionária, do ponto de vista dos países mais pobres e dos estratos sociais mais humildes. Defender os subsídios agrícolas e o protecionismo nessa área não é apenas insensato, é criminoso do ponto de vista dos povos africanos, sem condições de competir em outros setores. Da mesma forma, o combate às instituições-chave da globalização contemporânea – OMC, FMI e Banco Mundial – não só é risível como contraproducente no plano da cooperação internacional, assim como são patéticas essas tentativas de se introduzir taxas sobre os movimentos de capitais, o que só resulta em encarecer o custo dos recursos que os países em desenvolvimento necessariamente captam nos mercados financeiros.
Por isso, o partido não tem medo de afirmar que ele se posiciona resolutamente em favor da globalização, que tem retirado milhões de chineses e indianos de uma miséria ancestral, assim como o partido não tem mais vergonha de participar dos encontros dos capitalistas em Davos, que são uma forma de continuar discutindo condições e formas de se ampliar a globalização, num sentido plenamente responsável e conectado com as necessidades dos países mais pobres.
8. O partido se pauta, no plano externo, exclusivamente pelos interesses nacionais.
A política internacional é a continuidade da política nacional, por outros meios. Assim como estamos comprometidos com o interesse nacional no plano interno, assim deve ser feito no contexto internacional. Por isso estamos encerrando a fase de posições de princípio quando estávamos sobretudo interessados em reunir os pobres e oprimidos para lugar contra a hegemonia dos poderosos. Não vamos mais designar tal ou qual país como “aliado estratégico”, e sim julgar quais são os nossos interesses nacionais numa análise concreta de cada situação internacional.
Nenhuma situação de relacionamento externo, nem mesmo a integração regional, deve ser vista como um fim em si mesmo, mas como um meio para se atingir objetivos nacionalmente desejáveis, que são o progresso e a prosperidade da nação. Não se deve cultivar a busca de prestígio internacional apenas pelos seus efeitos de imagem, mas sim como resultado indireto de nossa cooperação desinteressada, desde que disponhamos das condições materiais e humanas para fazê-lo. Nossas forças armadas, por exemplo, elas primeiro devem ser aparelhadas internamente, antes de fazê-las cumprir missões internacionais que podem estar acima de sua capacidade operacional. A liderança, por exemplo, decorre do acúmulo de certo substrato material – financeiro e tecnológico, sobretudo – para o cumprimento de missões externas que sejam solicitadas pelos vizinhos ou pela comunidade internacional, não da vontade unilateral de proclamá-la.
Para aumentar sua capacitação no plano internacional, o país precisa estar disposto a conceder graus ainda maiores de abertura econômica – que aumentam nossa competitividade internacional ao atuar sobre os níveis de produtividade internos --, bem como operar novos patamares de liberalização comercial, condição para a expansão de todo o nosso comércio exterior, não só das exportações. Ele também precisa demonstrar, na prática, bom acolhimento ao investimento estrangeiro e decidir-se pela adesão a regimes proprietários mais avançados, que estão tradicionalmente associados a uma subida na escala tecnológica do sistema produtivo.
Voilà: estas oito teses já bastam, por enquanto, para uma profícua discussão no encontro de abril. Depois poderei comentar cada uma com maior grau de detalhe. Por enquanto, desejo apenas bons preparativos para esse importante encontro político.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 8 de janeiro de 2006
sábado, 7 de janeiro de 2006
134) Átomos que tentam se agregar...

Segundo leio na imprensa, o partido no poder planeja fazer um próximo encontro nacional para discutir suas orientações para as próximas etapas da vida partidária e nacional. Sem pretender interferir na vida de ninguém, eu, que não pertenço a nenhum partido nem tenho a intenção de filiar-me a algum, ofereço minha contribuição desinteressada aos debates que deverão travar-se nessas instâncias políticas.
Sugestões para o próximo Encontro Nacional de um grande partido
Paulo Roberto de Almeida
Como anunciado, um grande partido nacional fará realizar, no próximo mês de abril, em São Paulo, um novo Encontro Nacional, parecido a uma assembléia geral de associados, quando os filiados, militantes e dirigentes partidários defendem suas visões respectivas sobre como deveria se comportar o partido, no plano da sociedade, incluindo aí as orientaçãoes para sua atuação enquanto sustentáculo principal do governo.
O último encontro nacional do partido tinha sido realizado em dezembro de 2001, em clima de quase vitória nas eleições do ano seguinte, e nele tinham sido aprovadas teses e orientações partidárias que deveriam ter servido de base para a formulação das diretrizes de elaboração do programa da campanha presidencial e, depois, de governo, em caso de vitória. A vitória ocorreu, como é notório, mas não com as, ou a partir das teses aprovadas naquele encontro nacional.
Como se sabe, sem qualquer encontro nacional, muito menos partidário, a cúpula dirigente elaborou e apresentou, ao partido e à sociedade, uma série de propostas que se distanciavam nitidamente não apenas das teses do encontro anterior, como também das posturas tradicionais do partido. Em lugar de ruptura, respeito aos contratos, em lugar de magia econômica, responsabilidade fiscal, em lugar de denúncia do FMI, acomodação com o programa de ajuda financeira, enfim, uma reviravolta que a muitos pareceu puramente tática, mas que depois se revelou absolutamente estratégica, pelo menos aos olhos do grupo dirigente.
Já escrevi a respeito das posições econômicas do partido (antes da campanha de 2002), logo depois do anúncio de uma carta aberta ao povo brasileiro (de junho desse ano) e de outros documentos “de ruptura”, para voltar agora a tratar em detalhe dessas sutis mudanças de orientação no discurso e na atuação do partido, podendo remeter a diversos textos do meu site (www.pralmeida.org, que possui um instrumento de busca).
Antes do próximo encontro nacional, a secretaria de relações internacionais desse mesmo partido realizará uma reunião, em sua sede nacional, para discutir a participação de representantes do partido no próximo encontro do Fórum Social Mundial, no final de janeiro, desta vez não mais em Porto Alegre, mas em Caracas, segundo a fórmula rotativa adotada depois que o partido perdeu as eleições para a prefeitura de Porto Alegre (cujo prefeito, aliás, e todos os hoteleiros municipais, ficaram frustrados por esse “abandono de terreno”, sem dúvida uma perda, do ponto de vista do turismo local).
Seja como for, para poupar alguns possíveis interessados de longas e cansativas discussões, como é costumeiro nesses encontros, permito-me oferecer aqui algumas sugestões de “teses” – como se fazia nos antigos congressos partidários de tipo “leninista” – para consideração dos participantes nesses próximos conclaves. Afirmo que o faço de boa fé, pensando unicamente na economia de meios e na adequação das eventuais diretrizes a serem adotadas nesses encontros às realidades da atuação política no plano governamental e do atual mundo globalizado.
Serei sintético, como convém à natureza do exercício – “teses” sempre têm de ser “impactantes”, cabendo a outros, depois, a eventual tentativa de apresentar “antíteses” – mas poderei retomar cada uma destas propostas, para desenvolvimentos conceituais e sustentação empírica, em oportunidade ulterior.
(Seguem, no próximo post, 135, as teses de abril...)
133) Átomos que se desagregam...

Em 1º de janeiro de 2006, um conhecido militante petista, Francisco Whitaker comunicou aos amigos e colegas militantes que estava deixando o partido e entrando no “espaço dos sem partido”. Trata-se de uma longuíssima carta, cujo texto, quem estiver interessado em ler, pode ser acessado aqui.
Como pretendo poupar meus leitores, e o espaço deste Blog, dessa longuíssima transcrição, o que fiz em meu Blog auxiliar, ouso resumir aqui, em poucas linhas, o que ele disse:
Bye, bye PT...
“Amigos,
Estou deixando o PT porque ele foi dominado por um grupo de leninistas tradicionais que segue única e exclusivamente a lógica do poder, não a da transformação da sociedade brasileira. Não contente em aderir a essa lógica implacável, o PT transformou-se num partido igual aos outros, quiçá exacerbando certos traços negativos do nosso sistema político.
Seus atuais dirigentes, a maior parte ocupando o governo, trairam as causas pelas quais foi criado o PT e dedicaram-se com muito maior empenho à defesa dos interesses do grande capital e da burguesia, fazendo aqui e ali alguma concessão aos movimentos sociais, mas mantendo, pelo resto, a mesma lógica capitalista da velha sociedade. São esses os setores mais interessados na permanência do presidente como novo representante do modelo neoliberal.
Sinto muito, mas não posso continuar assim. Ciao.
Chico Whitaker”
Pelo resumo:
Paulo Roberto de Almeida (em 7 de janeiro de 2006)
sexta-feira, 6 de janeiro de 2006
132) À maneira de balanço...

Meus posts preferidos:
(desde a inauguração do Blog, em 7 de dezembro de 2005)
Por categoria
Livros:
03) Resenhas de livros publicadas em revistas
Desafios do Desenvolvimento
Plenarium
16) Parlamentando com os livros, Two...
Pierre Renouvin (ed.): Histoire des Relations Internationales
Pandiá Calógeras: A Política Exterior do Império
17) Parlamentando com os livros, Three...
Lincoln Gordon, Albert Fishlow, Jagdish Bhagwati, etc
19) Parlamentando com os livros, Five (and stop, for a while).
George Minois: Histoire de l'Avenir
Philip Gould: Labour Party
25) Uma história da tecnologia no Brasil (IV)
28) Uma História das Ciências no Brasil (VII)
46) PRA books (5): multilateralismo para principiantes...
47) PRA books (6): relações internacionais novamente...
49) Para quem gosta de livros e não acha algum esgotado...
52) PRA books (8): Formação da Diplomacia Econômica no Brasil
53) PRA books (9): Um visão aroniana do mundo
56) PRA books (11): Uma pequena mudança......
57) PRA books (12): De volta às relações internacionais do Brasil...
58) PRA books (13): A reedição de uma grande obra de pesquisa
63) PRA books (15): The old wild bunch of brazilianists...
64) PRA books (16): Brasilianistas Made in USA...
Diplomacia:
93) Aberta a temporada de caça a diplomatas (I)
103) Aberta a temporada de caça a diplomatas (III)
Problemas brasileiros:
38) A Universidade em Questão - Dossiê IEA-USP
43) Uma proposta modesta: a reforma do Brasil
82) Brasil, potência mundial em 2020?
83) Planos Econômicos no Brasil: visão histórica (I)
87) Planos Econômicos no Brasil (V e final)
92) Brasil 2006: as opções (1)
96) Privatizações à brasileira...
99) Brasil 2006: as opções (2)
107) A agenda econômica do Brasil
Problemas internacionais:
66) Sobre os interesses nacionais da China
105) Uma agenda ainda válida para o século XXI?
110) Think Again (1): Independência financeira?
111) Think Again (2): Alter-mundialismo?
112) Think again (3): os anti-globalizadores são alternativos?
129) Diagnóstico de duas enfermidades precoces: autismo e esquizofrenia
Produção PRA:
59) Nos traços de Ulisses...
65) Mini-tratado das reticências...
71) Resoluções de Ano Novo (I)
62) Dez regras modernas de diplomacia
108) Contabilidade geral da minha produção "literária" em 2005
131) Os índios na história do Brasil

Uma pausa, para indicar a utilíssima página do Professor John M. Monteiro, do Departamento de Antropologia da Unicamp, que tem trabalhado sobre a história indígena brasileira.
O site dele vem recheado de imagens belíssimas, como a "Viagem Filosófica
pelas Capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá - 1783-1792", com imagens da expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira às terras e águas amazônicas, no século XVIII (neste link), que constituem um verdadeiro passeio por um museu de obras de arte...
130) Um carcará? Sinceramente, preferiria uma coruja...

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) acaba de adotar o carcará como símbolo institucional e, segundo reportagens, "quer poder para grampear".
De acordo com matéria publicada no jornal O Globo (04.01.06), a ave do cerrado será o símbolo da agência e o seu diretor-geral, Marcio Buzanelli, pedirá ao Congresso autorização para realizar escutas telefônicas.
O diretor considera "pejorativo classificar os agentes como arapongas, também nome de uma ave de grito estridente, que lembra a batida de um martelo numa bigorna".
“Gavião, falcão e águia são aves altivas, destemidas e com longo raio de ação. Têm uma visão aguda, controlam o território e têm muita dignidade. O símbolo americano é uma águia de cabeça branca. A Rússia czarista era representada por uma águia negra. O símbolo do império austro-húngaro era uma águia bicéfala. O carcará é o símbolo que queremos para nossa organização”, disse o diretor Buzanelli.
O diretor afirmou que os servidores da Abin convivem com carcarás na agência, que tem vários ninhos do animal espalhados no local onde funciona. A ave é conhecida como a “águia do sertão”.
Eu, pessoalmente, se tivesse de escolher alguma ave para representar inteligência, acho que preferiria uma simples coruja...
Como dizia o João do Vale, numa canção gravada por Maria Betânia e Chico Buarque, que popularizou o carcará: “Carcará pega, mata e come/ Carcará, não vai morrer de fome”. Segundo um outro crítico do animal, o carcará "é um bicho preguiçoso, só ataca carniças...".
Acho que a coruja é símbolo de inteligência e parece ser mais cordata com os seus eventuais inimigos...
quinta-feira, 5 de janeiro de 2006
129) Fechando (provisoriamente) esta série: Diagnóstico de duas enfermidades precoces: autismo e esquizofrenia

Não, não estou falando de problemas médicos, para os quais reconheço minha monumental incompetência.
Quero referir-me ao comportamento dos anti-globalizadores, já objeto da série inteira de posts neste Blog, encerrada abaixo (começar por aqui).
Vou concluir essa série por uma digressão sobre a natureza do mal que parece afligi-los. Não sei se a comparação com transtornos mentais é a mais apropriada, mas foi a única que me ocorreu ao tentar entender a formidável confusão mental que percorre esse movimento.
Continuar a leitura aqui...
128) Think again (15): Meio ambiente e mercado: um instável equilíbrio

Uma última acusação, porém das mais nefandas, feitas pelos anti-globalizadores ao processo de "mondialisation capitaliste" -- como gostam de sublinhar os franceses -- é a que se refere à degradação ambiental. Segundo eles, a avidez pelo lucro faz com que as empresas destruam o meio ambiente e os recursos naturais, deixando atrás de si uma terra devastada.
Sem entrar no registro histórico das destruições ambientais provocadas pelo planejamento centralizado de tipo socialista -- ademais de outros crimes cometidos contra o próprio homem, como no caso do livro negro do Gulag --, ou então pela devastação florestal feita por posseiros em frentes rurais em países pobres, essa acusação tampouco parece se sustentar em face dos progressos alcançados na proteção ao meio ambiente, em quase todas as sociedades de mercado, inclusive com a ajuda dos ambientalistas.
A degradação ambiental e a diminuição da diversidade biológica são fatos que acompanham a civilização humana desde tempos imemoriais: as sociedades devastaram a natureza e substituíram-na por paisagens humanas, assim como domesticaram animais e agora tentam interferir no próprio ato de criação de novos seres vivos, desta vez ao nível molecular, quando já o vinham fazendo há milhares de anos ao nível da seleção das espécies.
Acreditar que tais fenômenos se reduzem a um problema de mercado ou que está ligado exclusivamente ao modo de produção capitalista é de um reducionismo atroz e, no entanto, é isso que vêm fazendo os anti-globalizadores ecológicos.
O que eles pedem, em essência, é o afastamento dos critérios de mercado das questões vinculadas ao meio ambiente – na OMC, por exemplo –, quando os sinais de mercado são os únicos capazes de, ao precificarem os custos relativos de utilização e de conservação, estabelecer um justo meio termo, por certo sempre instável, entre a preservação ambiental e o uso sensato dos recursos naturais.
A experiência das últimas décadas, em especial nos ex-países socialistas, indica que a ausência de sinais de mercado e a presença avassaladora do Estado na regulação do uso de recursos comuns pode andar de par com os piores atentados ao meio ambiente de que se tem notícia.
Parece claro que a livre disposição desses recursos também pode conduzir a abusos por parte das empresas privadas – sempre tentadas a atuarem segundo um comportamento free-rider –, mas justamente a combinação de mecanismos regulatórios com adequados estímulos de mercado parece mais condizente com as necessidades sociais do que um preservacionismo radical que parece impedir, atualmente, os povos dos países mais pobres de fazerem uso adequado de seus ainda vastos recursos naturais.
Como também indicado pela experiência histórica, as piores degradações ambientais tendem a ocorrer nas regiões mais pobres dos países em desenvolvimento. Desse ponto de vista, as posições assumidas pelos anti-globalizadores tendem, na prática, a perpetuar miséria e degradação ambiental nesses países.
127) Think again (14): Tecnologia proprietária e dependência tecnológica

Da mesma forma como os capitais financeiros, patentes e direitos proprietários em geral têm o dom de despertar paixões exacerbadas nas hostes do movimento anti-globalizador.
Talvez seja porque aqui estão concentrados alguns dos símbolos considerados nefastos para os anti-globalizadores: grandes multinacionais lidando com segredos industriais, extração de lucros abusivos sobre determinadas categorias de produtos, a começar pelo remédios, enfim, monopólio tecnológico dos ricos e dependência dos mais pobres.
As demandas, em conseqüência, vão da proibição de patentes em certas áreas (ligadas à vida e saúde), ao licenciamento compulsório de patentes devidamente registradas de remédios de larga utilização pública, passando pelo controle extensivo do setor pelo Estado.
Mas, será que esse tipo de demanda se sustenta em face das evidências históricas?
De fato, o regime de patentes consagra o monopólio do detentor dos direitos durante um certo tempo, que vem sendo paulatinamente aumentado (atualmente de 20 anos para patentes e bem mais para direitos do autor) e estendido a novas áreas, até aqui inéditas, do conhecimento e da engenhosidade humanas.
Pode-se, efetivamente, constatar um certo exagero na proteção patentária, atualmente, mas como disse uma vez Churchill em relação à democracia, trata-se do pior regime, à exceção de todos os demais.
Sem a promessa de ganhos trazidos pelo regime “monopólico” das patentes, seria difícil assegurar os investimentos necessários à introdução de novos remédios nos mercados.
A existência de um regime abrangente de proteção tornou-se, assim, uma condição do próprio desenvolvimento tecnológico nessas áreas de ponta, razão pela qual países dotados de “baixa cultura patentária” têm sido notoriamente deficientes no registro e na exploração de inovações, a despeito mesmo de seus progressos científicos, como parece ser o caso do Brasil.
A dependência tecnológica é um fato, mas ela não será sequer arranhada se os países em desenvolvimento seguirem os conselhos dos anti-globalizadores na condução de suas políticas tecnológicas e de propriedade intelectual.
Ao contrário, é provável que a dependência se aprofunde caso suas “prescrições” sejam seguidas, uma vez que elas não correspondem ao itinerário real dos países capitalistas desenvolvidos, e sim são meras teses agitadas no mundo abstrato em que vivem os anti-globalizadores.
126) Think again (13): Concentração da renda e desigualdades

Outra acusação feita à globalização pelos anti é a de que esse processo conduz inevitavelmente à concentração da renda e ao acúmulo de desigualdades distributivas, entre os países e dentro dos países.
Seria isso verdade?
A concentração e a desigualdade na distribuição da renda podem ocorrer mesmo na ausência do processo de globalização, como prova o Brasil na era do protecionismo industrial e de fechamento comercial.
A globalização, ao contrário, ao provocar uma maior taxa de crescimento da economia em países menos avançados, tende a favorecer o crescimento e, portanto, a criação de riquezas.
A distribuição da renda adicional assim criada pode não ser a mais eqüitativa possível, mas isso depende de um conjunto de fatores políticos e sociais que ultrapassam a capacidade operacional da globalização.
Esta questão, de toda forma, está ligada ao papel que o Estado desempenha no sistema econômico. Os anti-globalizadores costumam afirmar que não existe nenhuma experiência histórica que demonstre que o mercado, por si só, logre alcançar níveis satisfatórios de repartição de benefícios e muito menos justiça social, o que é no mínimo uma generalização indevida.
Ainda que o Estado tenha sido importante ao administrar mecanismos tributários, compensatórios e de benefícios indiretos – escolas, hospitais e saneamento básico, por exemplo – em favor dos mais desfavorecidos, em praticamente todos os países, as evidências mais eloqüentes em termos de crescimento da renda e de repartição eqüitativa das riquezas geradas no setor privado estão justamente naqueles países onde os mercados funcionaram de forma mais desimpedida e livre, não nos mais estatizados ou controlados pelo setor público.
Privatizações podem tanto concentrar como desconcentrar a renda, dependendo da forma como são conduzidas, sem esquecer que uma das formas mais iníquas de concentração da renda em países pobres é aquela operada em favor de certas categorias de privilegiados estatais – funcionários da ativa ou pensionistas – que logram transferir para si uma parte substancial da riqueza social sob a forma de investimentos em empresas estatais ou pensões abusivas.
125) Nova faixa presidencial: costureiras de todo o Brasil, habilitem-se...

Do jornal Folha de São Paulo, desta quinta feira, 5 de janeiro de 2006:
"O Palácio do Planalto abriu licitação para comprar uma faixa presidencial novinha em folha. Por R$ 38 mil.
A faixa, em cetim verde-bandeira e amarelo-ouro, terá fios de ouro 18 quilates nas franjas e nos bordados.
E revestimento à prova d'água."
Confesso que não entendi esta última exigência: estão pensando passar a faixa mesmo debaixo das chuvas torrenciais, que no mês de janeiro costumam cair sobre Brasília, ou seria para evitar que a faixa fosse umedecida por lágrimas eventuais?
Pensando bem, por 38 mil até eu estaria disposto a aprender a costurar...
Em todo caso, costureiras de todo o Brasil, não custa consultar o edital de licitação.
(PS: E a faixa velha? O que acontece com ela? O presidente "desempregado" tem direito de levar para casa?)
(PS2 em 13 de janeiro de 2006: Não sei se este post tem algo a ver com a decisão, mas neste dia o Palácio do Planalto anunciou que estava suspendendo a licitação. Não sei se agorá se fatá alguma compra emergencial, como na operação "tapa-buracos" nas estradas, ou se o governo se deu conta que "fios de ouro" a esta altura da crise política pegaria muito mal. Em todo caso, renovo meu apelo para todas as costureiras do Brasil: agora que não será mais preciso fios de ouro, e a faixa poderá ser feita em tecido de xita, habilitem-se em grande número...)
124) Think again (12): Crescimento e pobreza, ou o que a globalização pode fazer por eles

Os anti-globalzadores afirmam que são contra esse processo pelo fato de ele aprofundar a miséria e as desigualdades no mundo.
Seria mesmo verdade?
Pense mais uma vez...
A acusação, sempre freqüente nos manifestos do movimento anti, de que a globalização reduz o crescimento nos países mais pobres e aprofunda neles a pobreza, não é apenas risível e desprovida de fundamentação empírica: ela é totalmente ridícula, em face dos exemplos mais conspícuos em sentido contrário.
China e Índia, dois países pobres e dotados de instituições econômicas socialistas e dirigistas, foram os que mais cresceram quando, justamente, se inseriram no processo de globalização, explorando suas vantagens naturais (mão-de-obra barata) ou adquiridas (educação de qualidade, em certas categorias de trabalhadores, e facilidades logísticas e de comunicações).
Nos dois, milhões de pessoas se alçaram de uma miséria ancestral e puderam desfrutar de uma primeira sensação de progresso social desde gerações imemoráveis.
Na outra ponta, os dois países mais abertos ao processo de globalização, de fato os promotores históricos desse processo desde a era da primeira revolução industrial, o Reino Unido e os Estados Unidos, são também aqueles que apresentaram as maiores taxas de crescimento de todos os desenvolvidos durante a terceira onda da globalização, nos anos noventa, ostentando igualmente as menores taxas de desemprego entre os países da OCDE.
Por acaso são também os mais globalizados financeiramente e os que mantêm o menor número de restrições aos investimentos ou em termos regulatórios.
No que se refere aos investimentos diretos, justamente, observa-se uma virtual contradição entre, de um lado, a oposição retórica e o soberanismo vazio proclamado pelos anti e, de outro, os ativos esforços de atração de capitais de risco que vêm sendo feitos pelos países em desenvolvimento, que se mostram indiferentes ao discurso contra as multinacionais dos primeiros.
Pode parecer razoável proclamar-se a intenção de reservar “espaços nacionais” para políticas de desenvolvimento, mas a menos de se dispor de políticas setoriais definidas e concretas, o alerta pode parecer inócuo ou simples manifestação de prevenção contra o investidor estrangeiro, que ele vem em busca de objetivos muito objetivos:
liberdade de ação e o maior lucro possível, nessa ordem.
123) Think again (11): Instituições de solução de controvérsias em face do arbítrio comercial

Não contentes em despejar sua fúria contra o FMI e o Banco Mundial, acusando-os de serem sustentáculos do neoliberalismo – quando as instituições de Bretton Woods são, na verdade, instrumentos que corrigem imperfeições dos mercados –, os anti-globalizadores ingênuos também pretendem eliminar ou paralisar a OMC, vista como mais uma defensora das grandes multinacionais e da liberalização selvagem, o que constitui, obviamente, outra grande bobagem.
Longe de fazer pressão em favor de uma completa liberalização comercial – o que, aliás, seria um grande benefício para os países mais pobres – a organização de Genebra contribui, antes de mais nada, para administrar de modo relativamente imparcial as formas modernas de mercantilismo, que os países insistem em promover em lugar de aderir resolutamente aos princípios de Adam Smith.
Na verdade, se a OMC não existisse, seria preciso inventá-la, na medida em que ela constitui uma das poucas defesas, por meio do sistema de solução de controvérsias, de que dispõem os países menos poderosos para lutar contra o arbítrio dos mais fortes.
A oposição consistente dos anti-globalizadores contra as rodadas multilaterais de negociação comercial da OMC – como de resto contra a Alca e outros processos em curso de escala mais restrita – afastam as possibilidades de que países mais pobres possam se integrar mais rapidamente à economia mundial e daí extrair crescimento e riqueza.
Desse ponto de vista, os anti-globalizadores são altamente irresponsáveis.
122) Think again (10): Competição aberta contra mercados regulados e fechados

Outro dos objetos mais freqüentes da demonologia dos anti-globalizadores é o livre-comércio, invariavelmente acusado de provocar perdas para os países mais pobres e de concentrar ainda mais as riquezas em escala planetária.
Será que isso é verdade? Pense duas vezes...
Para mim, nada poderia estar mais distante da verdade.
Se existe algum tipo de consenso entre os economistas, há mais de dois séculos, é justamente o que defende os efeitos benéficos do livre-comércio para todos os participantes da relação.
Os argumentos são tão convincentes a esse respeito que não caberia insistir na argumentação em favor da liberdade de comércio, e sim aguardar provas mais evidentes, dos anti, de que ela provoca miséria e desigualdade.
Bastaria considerar os dados mais elementares da história e das estatísticas atuais confrontando níveis de renda e coeficiente de abertura externa (isto é, a participação do comércio no produto bruto) para constatar o óbvio: há uma nítida correlação entre renda per capita e abertura ao comércio.
Como ocorre nesses casos, apenas dirigentes sindicais e agricultores dos países do norte, de um lado, e “intelectuais” do sul, de outro, atacam o livre-comércio: os primeiros estão, é claro, interessados nos empregos industriais ou nos mercados agrícolas protegidos em seus países, ao passo que os segundos defendem teses abstratas, em total contradição com os interesses de seus próprios trabalhadores.
Os argumentos em favor do livre-comércio são tão poderosos que mesmo o PT, no Brasil, aderiu à tese, como se deduz desta afirmação, do seu candidato presidencial em plena campanha de 2002: “Somos a favor do livre-comércio, desde que os países possam competir em igualdade de condições” (carta-compromisso de 23.07.02).
Na verdade, a frase deveria receber um ponto final na primeira vírgula, já que a condicionalidade proclamada não tem nenhuma razão de ser: competição em igualdade de condições nunca existirá.
Os países exibem assimetrias naturais ou criadas que se manifestam de forma recorrente e que sustentam justamente o comércio, sendo ilusório acreditar que elas serão eliminadas.
Aliás, elas não podem ser eliminadas pois que constituem o que se chama de base estrutural das vantagens comparativas relativas, que é o fundamento do próprio ato de comerciar. O livre-comércio, de verdade, é sempre unilateral, nunca condicional e restrito ao princípio de reciprocidade.
121) Think again (9): Dívida externa, movimentos de capitais e globalização financeira

Um traço que unifica as mais diversas correntes do movimento anti-globalizador é, sem dúvida alguma, sua oposição ao pagamento da dívida externa dos países mais pobres e, de modo geral, à livre movimentação de capitais financeiros. Outra medida, de caráter propositivo e não simplesmente negativo como a do cancelamento das dívidas – traduzidas na prática por “plebiscitos” tão canhestros quanto viciados em sua indução automática ao não-pagamento, sustentado de forma piegas na “miséria do povo” –, é a que apresenta uma taxação sobre a movimentação de capitais, dita Tobin Tax, como sendo o remédio milagre tanto à volatilidade financeira quanto ao problema do não desenvolvimento dos países mais pobres.
Mas, pense duas vezes: você acha, realmente, que a criação de uma taxa internacional sobre movimentos de capitais, ainda que factível, poderá, de fato, diminuir a volatilidade das aplicações especulativas ou servir para diminuir a miséria desses países mais pobres?
Rejeitada pelo próprio economista, James Tobin, que sugeriu um modesto controle sobre as aplicações cambiais no momento da derrocada do sistema de Bretton Woods, essa taxa, patrocinada especialmente pela vertente gaulesa do movimento anti – de onde retira o acrônimo ATTAC –, não apenas não resolveria o problema da volatilidade e da especulação, como se colocaria frontalmente contrária aos interesses de países emergentes tomadores de recursos, como o próprio Brasil.
Neste terreno das finanças internacionais, as simplificações dos anti são tantas e tão risíveis que resulta difícil sequer “dialogar” com representantes desse movimento, que parecem não ter idéias mínimas sobre como funcionam os mercados financeiros e que partes de responsabilidade compartilhada devem ser atribuídas em momentos como os das graves turbulências financeiras dos anos noventa do século XX.
Já escrevi o suficiente sobre as crises financeiras – em especial em meu livro Os Primeiros Anos do Século XXI, ver o cap. 10, “O Brasil e as crises financeiras internacionais, 1929-2001” – para voltar agora em detalhe sobre seus determinantes, as conseqüências econômicas de curto prazo e as possíveis lições do ponto de vista da globalização financeira (inclusive quanto aos necessários cuidados que se há de ter em relação a esse aspecto da globalização, necessariamente diferente da liberalização comercial, que sempre provoca efeitos positivos).
Não pretendo, em todo caso, contestar argumentos infantis e desprovidos de qualquer fundamentação histórica ou factual, como os alinhados por organizações como o “Jubileu 2000”, que promove uma sistemática campanha em prol da eliminação da dívida externa dos países mais pobres.
Registro aqui apenas um exemplo desse tipo de argumento:
“Resolver os problemas da dívida externa implica buscar saldar uma dívida histórica que os países do norte têm com os povos do sul como conseqüência do saque e da devastação que neles realizaram durante mais de 500 anos”.
Como se diz: contra esse tipo de afirmação não há argumento.
Sem dúvida que a dívida externa dos países mais pobres pode e deve ser diminuída ou mesmo eliminada, em certos casos, mas uma ação generalizada de cancelamento dessas dívidas faria mais mal do que bem ao conjunto dos países em desenvolvimento e emergentes, já que os retiraria dos mercados voluntários de capital por um tempo considerável, acumulando mais prejuízos do que benefícios.
Em relação aos movimentos de capitais puramente especulativos, vilipendiados tanto pelos anti-globalizadores como por alguns “globalizadores” – como por exemplo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – pode-se simplesmente relembrar que eles estão em todas as partes, em especial nos países mais avançados, mas são capazes de provocar prejuízos apenas naquelas economias que já enfrentam desequilíbrios, nas quais a volatilidade é um dado intrínseco, não extrínseco, ao sistema.
Controles podem ser utilizados, mas não são certamente a panacéia que alguns apregoam, sobretudo na forma permanente de restrições às entradas e saídas, de suposta paternidade keynesiana.
Movimentos mais livres de capitais, assim como maior grau de competição no sistema financeiro contribuem para o bom funcionamento de qualquer sistema econômico, mas níveis adequados de liquidez podem ser regulados por instrumentos tributários ao alcance de qualquer país.
Apenas a ojeriza atávica em relação aos mercados financeiros ostentada em certos círculos esquerdistas pode justificar algumas das medidas propostas pelos grupos anti-globalizadores: elas pertencem mais ao reino da paixão política do que ao terreno da administração sensata das relações econômicas internacionais.
120) Think again (8): Protecionismo agrícola e vantagens comparativas dos mais pobres

Vários documentos dos anti insistem numa pouco definida segurança alimentar: segundo esses textos, se deve dar prioridade à alimentação do povo a partir da própria região ou país, e não às exportações ou importações.
Para eles, a segurança alimentar e a sustentabilidade rural só podem existir quando um país é capaz de satisfazer uma parte significativa de suas próprias necessidades alimentares.
Esta posição transparece em vários documentos franceses, por exemplo, e eu mesmo assisti, pessoalmente, ao representante mais eloqüente desse tipo de proposta, Bernard Cassen, da ATTAC, defender esse absurdo na Câmara dos Deputados, em Brasília, sem que nenhum dos parlamentares brasileiros presentes ousasse responder a tamanha sandice econômica e a tão evidente atentado aos interesses exportadores do Brasil.
Pois bem, pense duas vezes: existe, atualmente, insegurança alimentar no mundo e isso justifica o protecionismo dos países mais ricos?
Parece evidente, aos observadores isentos, que não há qualquer “insegurança alimentar” no mundo como um todo. Desde os tempos de Malthus, a produção agrícola cresceu muito mais rápido do que a “produção” de indivíduos, e ainda que possa haver, ocasionalmente, carências produtivas numa região localizada – geralmente por motivo de guerra civil ou desastre natural –, elas podem ser rapidamente supridas via comércio internacional ou assistência alimentar de emergência.
A tese da “segurança alimentar” e a da “multifuncionalidade agrícola” constituem disfarces canhestros do mais egoísta protecionismo agrícola, que tanto mal faz aos povos mais pobres da Terra. Estes não podem utilizar-se de suas vantagens comparativas, que estão todas localizadas no setor primário, para alçar-se da miséria mais vergonhosa, mantida em grande medida graças à concorrência desleal de um punhado de ricos agricultores subsidiados dos países mais avançados.
De resto, a indústria e ainda mais os serviços são muito mais “multifuncionais” do que a agricultura, já que estão presentes em todas e cada uma das nossas atividades diárias, não se podendo argumentar sobre sua localização espacial ou eventual isolamento do mercado externo, como se faz em relação à agricultura, sem cometer novos atentados pueris à mais simples racionalidade econômica.
Não tenho nada contra a existência da agricultura familiar, assim como nada tenho a opor a que os países ricos subsidiem suas populações da forma como desejarem, mas eles não podem fazê-lo opondo-se ao livre comércio de produtos agrícolas como vem fazendo e sabotando a comercialização externa da produção agrícola dos países mais pobres por meio de subvenções às suas próprias exportações não competitivas.
O protecionismo hipócrita dos países mais ricos está assim roubando, literalmente, os mais pobres de oportunidades de desenvolvimento.
A hipocrisia nesse terreno é inaceitável e o movimento anti-globalizador não poderia se fazer cúmplice desse vil atentado aos direitos humanos de milhões de pobres ao redor do mundo.
Espero que pelo menos os anti-globalizadores brasileiros saibam desvencilhar-se dessa armadilha que os torna coniventes com um dos piores atentados aos direitos econômicos dos mais pobres.
119) Idéias são perigosas?: a questão anual do The Edge

The Edge é um site de questões científicas, que vale a pena visitar ocasionalmente. Sua contribuição mais relevante para agitar os meios cientificos é a de colocar, todo final de ano, uma questão relevante para a comunidade científica e recolher as opiniões recebidas.
No ano passado, 2005, a questão foi:
"What do you believe is true even though you cannot prove it?"
Isso gerou uma enorme controvérsia, que acaba de ser convertida em livro: What We Believe But Cannot Prove: Today's Leading Thinkers on Science in the Age of Certainty.
Pois bem, neste começo de 2006, o site voltou a atacar, desta vez com esta questão:
existem idéias perigosas, qual é a sua?
The Edge Annual Question — 2006
WHAT IS YOUR DANGEROUS IDEA?
The history of science is replete with discoveries that were considered socially, morally, or emotionally dangerous in their time; the Copernican and Darwinian revolutions are the most obvious. What is your dangerous idea? An idea you think about (not necessarily one you originated) that is dangerous not because it is assumed to be false, but because it might be true?
Confira alguma das respostas em:
http://www.edge.org/q2006/q06_index.html
O colunista Pedro Doria, do jornal eletrônico NO Mínimo (Notícia e Opinião), de onde eu retirei a idéia deste post, selecionou o que lhe pareceu a melhor resposta:
"Daniel Gilbert, psicólogo e professor de Harvard, um dos quatro mais importantes na área de psicologia social da atualidade segundo a revista Psychological Inquiry, respondeu melhor:
Perigoso quer dizer que é possível de causar grandes danos. A idéia mais perigosa é a única idéia perigosa: a de que idéias podem ser perigosas.
Vivemos num mundo em que pessoas são decapitadas, presas, demitidas e censuradas simplesmente porque abriram suas bocas, mexeram os lábios, vibraram algum ar. Sim, estas vibrações podem fazer com que nos sintamos tristes ou burros ou alienados. Dane-se. Este é o preço de entrada no mercado das idéias. Comentários odiosos, blasfemos, preconceituosos, vulgares, rudes ou ignorantes são a música de uma sociedade livre. É o constante discurso de idiotas que mostra que estamos numa sociedade livre. Quando todas as palavras em nossas conversas públicas são justas, boas e verdadeiras, é hora de fugir."
Pode até ser, mas uma grave questão de ordem moral, que sempre se coloca a todos nós, e que eu particularmente coloco a todos os que me lêem, é a seguinte:
Expressões de ódio racial, justificativas políticas de cerceamento à liberdade, censura, minimização da corrupção, moral ou efetiva, incitações ao crime e ao linchamento, ainda que no plano puramente verbal, manifestações diretas de intolerância religiosa ou a defesa explícita do terrorismo, como arma política ou religiosa, entre vários outros exemplos de possíveis atentados aos direitos humanos, à democracia e à segurança individual ou coletiva, todas essas demonstrações do que pode haver de mais vil ou mesquinho no ser humano podem ou deveriam ser permitidas livremente, na vida civil ou nos meios abertos como a Internet?
118) Think again (7): existem idéias concretas sobre temas concretos?

Para facilitar a confrontação de idéias, isto é, entre as minhas próprias e as que parecem defender os anti, a melhor coisa a fazer é organizar o debate em torno de algumas questões práticas que costumam concentrar o interesse do movimento.
Escrevi “parecem” pois que o movimento não ostenta idéias oficiais, o que é compreensível, pois que não pretende ser ou parecer “autoritário”, e não consolidou suas propostas em um conjunto de alternativas que mereçam ter esse nome.
O fato é que eles não apresentam os meios e modos pelos quais suas “idéias” poderiam ser testadas na prática, ou pelo menos ser objeto de simulações econométricas ou de elegantes equações de equilíbrio ao estilo de Keynes (um profeta freqüentemente invocado nesses meios).
Como os anti não apresentam esse corpus conceitual, fica muito difícil, o que já é pouco compreensível, considerá-los pelo que eles pretendem ser, um movimento, e não apenas um ajuntamento heteróclito de individualidades, ostentando um conjunto heterogêneo de idéias dispersas.
Apresento minhas desculpas antecipadas aos autores de trabalhos dotados de idéias sensatas, mas a reunião de todos esses textos num mesmo barril de baixa coerência intrínseca dá uma horrível impressão de sopa de letras.
Arriscando-me, portanto, a ser injusto com os detentores de idéias menos estapafúrdias (mas, humildemente, eu os convido a me contradizer), aqui estão algumas “idéias” defendidas pelos anti-globalizadores e meus próprios comentários a respeito.
Estes são os grandes temas do movimento anti-globalizador, aos quais serão dedicados os próximos posts:
1) Protecionismo agrícola e vantagens comparativas dos mais pobres
2) Dívida externa, movimentos de capitais e globalização financeira
3) Competição aberta contra mercados regulados e fechados
4) Instituições de solução de controvérsias em face do arbítrio comercial
5) Crescimento e pobreza, ou o que a globalização pode fazer por eles
6) Concentração da renda e desigualdades
7) Tecnologia proprietária e dependência tecnológica
8) Meio ambiente e mercado: um instável equilíbrio
Em torno de cada um desses temas, não basta apenas ouvir os argumentos dos anti-globalizadores, mas parar e pensar duas vezes, para ver se esses argumentos fazem sentido...
(À suivre...)
117) Think again (6): os anti-globalizadores defendem "idéias", certo?

Hélas, errado mais uma vez. O que eles menos parecem exibir são idéias...
Não que não existam propostas ou “idéias” a respeito da globalização, ou sobre como ela poderia ser mais humana, solidária, economicamente eqüitativa, socialmente justa e ecologicamente responsável.
Mas é que, em minha análise, as propostas ou alternativas à globalização apresentadas pelos anti me parecem desumanas, muito pouco solidárias, economicamente desastrosas, socialmente catastróficas e ecologicamente poéticas, mas insustentáveis no plano prático.
Talvez eu esteja sendo apressado demais, ao condenar as alternativas antiglobalizadoras, mas esta é a sensação que me deixou a leitura de praticamente todos os documentos do site www.forumsocialmundial.org.br.
Para ser honesto, comigo mesmo e com os representantes da anti, existe sim uma condição geral para que essa globalização deixe de ser tudo aquilo que ela aparenta ser, aos olhos dos anti: que ela deixe de ser capitalista.
Isto, pelo menos, é o que eu deduzo do 11º princípio da Carta de Princípios, que define o fórum como sendo
“um movimento de idéias que estimula a reflexão, e a disseminação transparente dos resultados dessa reflexão, sobre os mecanismos e instrumentos da dominação do capital, sobre os meios e ações de resistência e superação dessa dominação, sobre as alternativas propostas para resolver os problemas de exclusão e desigualdade social que o processo de globalização capitalista, com suas dimensões racistas, sexistas e destruidoras do meio ambiente está criando, internacionalmente e no interior dos países”.
Em outros termos, se a dominação do capital fosse eliminada, metade (ou pelo menos grande parte) dos problemas da humanidade estaria resolvida.
Ou muito me engano, ou a reflexão não vem sendo muito estimulada nesses encontros, já que não consigo atinar como se pretende eliminar um dos mais poderosos fatores de produção criados com o processo civilizatório, desde a revolução agrícola: o capital (ou talvez mesmo desde o paleolítico inferior, uma vez que armas de pedra ou de madeira são uma forma de “capital”).
Seriam os anti-globalizadores astronautas?
São eles de outro planeta, ainda não tocado pelo modo de produção capitalista?
Acredito que não, o que nos deixaria uma única conclusão: eles são simplesmente anti-capitalistas, o que tampouco é consenso entre eles. Com efeito, muitos proclamam não ser contra o modo de produção capitalista, apenas pretendendo melhorar o seu funcionamento.
De fato, ao ler os documentos da “Biblioteca das Alternativas”, constatei que alguns ostentam um anti-capitalismo visceral, ao passo que outros são apenas levemente anti-capitalistas.
Seriam os anti-globalizadores marxistas, socialistas ou de alguma forma pessoas de esquerda?
Dificilmente, pois nada existe de mais anti-marxista e de anti-socialista do que o pensamento nacionalista, chauvinista ou contrário ao saudável internacionalismo proclamado pelo autor do Manifesto Comunista e d’O Capital.
Marx proclamava, antes de mais nada, as virtudes do capital enquanto redutor das diferenças entre sociedades, em suas diversas etapas de desenvolvimento: ele pretendia que o capital unificasse rapidamente as forças produtivas e as relações de produção nos cantos mais recuados do planeta para que o exército dos proletários pudesse, finalmente, não recusar o capitalismo, mas sim superá-lo a partir de seu acabamento enquanto modo de produção, cedendo lugar a uma etapa superior de organização social da produção.
Mas isto eu não preciso relembrar, pois que constitui o “beabá” de qualquer marxista digno desse nome.
O que me surpreende, apenas e tão somente, é que, ao constatar a presença de vários “marmanjos” marxistas no movimento – com isso eu quero me referir aos mais velhos, que ainda leram Marx, já que os mais novos parecem simplesmente ignorar as obras do velho barbudo –, eles não tenham atinado para a existência dessa “contradição insuperável” em seu seio:
um marxista conseqüente deveria estar lutando em favor de mais, não de menos, globalização, pois apenas ela é capaz de trazer para mais perto de nós o dia da derrocada final do capitalismo e sua superação pelo socialismo.
A posição da anti-globalização não é, portanto, marxista ou sequer socialista.
O que de fato transparece nos muitos documentos compilados, como indicado no já citado 4º princípio, é um posicionamento dos anti contra o “processo de globalização comandado pelas grandes corporações multinacionais e pelos governos e instituições internacionais a serviço de seus interesses, com a cumplicidade de governos nacionais”.
Ou seja, o mal absoluto são as grandes empresas multinacionais, e quem não se posicionar contra elas fica proibido, portanto, de freqüentar os encontros do movimento.
No longo prazo, esse posicionamento pode representar uma contradição nos termos, na medida em que o movimento anti-globalizador já se transformou, de fato, em uma grande corporação multinacional, com representação em quase todos os países e com várias “instituições internacionais a serviço de seus interesses”.
Assim, se ele, por acaso, numa hipótese não de todo irrealizável, conquistar governos – como parece que já conseguiu convencer alguns e dispõe de muitos aliados em outros, inclusive perto de nós –, ele se tornará uma força irresistível, capaz de mudar de verdade a face do planeta.
Apenas não sei se para melhor, como uma análise de algumas de suas propostas alternativas pode demonstrar.
116) Think again (5): O Fórum Social Mundial é um espaço aberto de reflexão, certo?

O primeiro princípio do Fórum Social Mundial -- durante algum tempo tambem conhecido como Fórum de Porto Alegre -- afirma ser ele “um espaço aberto de encontro para o aprofundamento da reflexão, o debate democrático de idéias, a formulação de propostas, a troca livre de experiências…”
Certo isso? Errado!
Pense duas vez: só se pode participar de suas reuniões sendo a favor das idéias do movimento, do contrário você não apenas não é convidado, como é sequer admitido...
E quais seriam essas idéias?
Na verdade, muito poucas, e que já vem consignadas no seguimento desse primeiro princípio acima transcrito:
o FSM visa “…a articulação para ações eficazes, de entidades e movimentos da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo…”
Isto pelo lado negativo. Pelo lado positivo, continua o texto: as entidades participantes “estão empenhadas na construção de uma sociedade planetária orientada a uma relação fecunda entre os seres humanos e destes com a Terra”.
Se eu fosse impaciente, eu diria: so what?, só isso?
De fato é muito pouco para definir um vasto movimento que mobiliza centenas de milhares de pessoas, talvez milhões, em todo o planeta, e que se propõe a grandiosa tarefa de mudar a “sociedade planetária”.
Mas o 4º princípio – numa carta que alterna, de forma algo anárquica, procedimentos, regras e definições – vai um pouco mais adiante:
“As alternativas propostas no Fórum Social Mundial contrapõem-se a um processo de globalização comandado pelas grandes corporações multinacionais e pelos governos e instituições internacionais a serviço de seus interesses, com a cumplicidade de governos nacionais. Elas visam fazer prevalecer, como uma nova etapa da história do mundo, uma globalização solidária que respeite os direitos humanos universais, bem como os de tod@s @s cidadãos e cidadãs em todas as nações e o meio ambiente, apoiada em sistemas e instituições internacionais democráticos a serviço da justiça social, da igualdade e da soberania dos povos.”
Aqui chegamos um pouco mais perto do que seriam as propostas propositivas – com perdão pela redundância – do movimento.
Para minha frustração, no entanto, não encontrei alternativas dignas desse nome, ou pelo menos não de forma sistemática e organizada, de maneira a permitir um diálogo racional com essas “alternativas”.
Existem dezenas, provavelmente centenas, de documentos, na “Biblioteca das Alternativas”, mas, à diferença das bibliotecas normais, a dos anti não está classificada, não possui seções, nem “fichas catalográficas” que nos habilitem conhecer as idéias, as propostas e as alternativas apresentadas pelo movimento.
Figuram nela tão somente os títulos e a indicação da língua em que se encontram os documentos: percorri vários, muitos deles e, com pesar, recolhi apenas uma sensação de déjà vu again.
De 2001 até os dias que correm, esses documentos são monotonamente repetitivos: eles condenam sempre, em termos ásperos, a globalização capitalista, conclamam à mobilização ativa contra as reuniões das organizações internacionais que supostamente pretendem facilitá-la – aquelas mesmas já mencionadas – e terminam pelas promessas de sempre.
Os anti-globalizadores, por ocasião dos seus próprios encontros, “não vêm manifestar, nem protestar, mas sugerir correções e propor soluções para que, finalmente, de fato, um outro mundo seja possível” (“Anti-globalização”, Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, da ATTAC francesa e um dos “papas” do movimento, em texto de 4.09.2002).
Busquei, em vários outros documentos, essas soluções, essas “correções” prometidas, mas confesso minha frustração: não encontrei nada digno desse nome.
Pense duas vezes: trata-se de verdade de um espaço aberto, ou de um circuito fechado?
quarta-feira, 4 de janeiro de 2006
115) Think Again (4): os anti-globalizadores são contra o pensamento único, certo?

Os anti-globalizadores afirmam lutar contra o pensamento único, que seria o do "consenso de Washington", o do neoliberalismo, o da economia ortodoxa, enquanto eles mesmos defendem a diversidade e a liberdade de pensamento, certo?
Errado! Pense duas vezes e veja quem ostenta o "pensamento único" (ou talvez até mesmo a falta de pensamento).
Não é fácil debater com o pessoal da anti, a começar pelo fato de que não se consegue saber direito o que pensam sobre os temas da globalização e o quê, exatamente, pretendem colocar no “lugar” desse processo.
Por mais que eu tenha me esforçado na busca, navegando de site em site, de documento em documento, encontrei poucas propostas concretas desse movimento, alguma sistematização que contivesse as principais idéias, se alguma, sobre a “globalização realmente existente” e esse “outro mundo possível”.
Slogans à parte, a consistência analítica desses “escritos” é deficiente, para dizer o mínimo, e sua adequação aos dados da realidade é inexistente.
Para dizer a verdade, existem inúmeros documentos, geralmente de caráter retórico, conclamando a manifestações antes e durante as datas e locais dos encontros oficiais da assim chamada globalização capitalista: o Fórum Econômico Mundial de Davos, em primeiro lugar, obviamente, considerado a bête noire do processo (mas agora que eles têm o seu próprio foro, Davos foi relegado a uma posição secundária), mas também as reuniões do FMI e do Banco Mundial, da OMC, da Alca, e até da UE e da UNCTAD.
O tom geral é de indignação, de revolta, mas um exame ponderado dos fatos, que é o mínimo que se requer de qualquer trabalho universitário digno de nota (no sentido de pontuação, mesmo), é algo raro, senão inexistente nos textos da anti.
Como, nessas circunstâncias, debater com o movimento?
Seria preciso antes dispor da matéria-prima essencial a qualquer debate: idéias sistematizadas, claramente expostas, método.
Não só não é fácil, como na verdade não é permitido debater com esse pessoal, na medida em que, pelas próprias regras estatutárias dos anti, só participam dos encontros do Fórum Social Mundial – o arauto le plus en vue da anti-globalização (junto com a ATTAC e outros foros menores) – aqueles movimentos e entidades da sociedade civil que se declaram de acordo com sua Carta de Princípios.
Ou seja, não é permitido ser a favor da globalização, ainda que eles o sejam, na prática, ao usarem e abusarem de todas as facilidades permitidas pela globalização para se informar, se reunir e debater. Qualquer outra pessoa física ou movimento, todavia, só pode participar se declarar-se a favor de um documento extremamente vago em seu conteúdo e definições.
Alguém que seja um anti da anti, como eu mesmo, não apenas está sumariamente excluído, ab initio, como jamais será cogitado para comparecer em algum foro. Registro aqui, ipsis litteris, o que figura nos procedimentos do FSM:
“Poderão ser convidados a participar, em caráter pessoal, governantes e parlamentares que assumam os compromissos da Carta de Princípios.”
Para participar, portanto, é preciso primeiro comprometer-se com posições dos próprios organizadores, o que não apenas configura um reducionismo absurdo, um verdadeiro cerceamento à liberdade de expressão, como também uma manifestação brutal de “pensamento único”, que eles dizem condenar.
Pensou outra vez? Não há nada mais chato e unanimemente estupido do que esse pessoal sair para manifestacoes repetindo slogans e gritando palavras de ordem. Por que eles não usam o tempo livre, que eles parecem ter de sobra, para estudar, escrever textos dotados de uma certa coerência, expor seus argumentos de maneira clara, enfim, pensar duas vezes antes de falar bobagem?
114) Um iPod para ler livros? Por que não?

Depois do meu post sobre o "Odissei", o e-reader da Philips (ver o post nr. 77), tomei conhecimento do surgimento deste concorrente, desta vez da Sony. Transcrevo abaixo a matéria de jornal sobre o novo aparelho.
Será que estamos perto do livro eletrônico de verdade? E, além de Sidney Sheldon, será que teremos também Max Weber, Karl Marx e Adam Smith? Bastante improvável, mas se der para descarregar os milhares de livros eletrônicos já disponíveis nas bibliotecas públicas, seria um grande avanço.
Não creio, porém. Desconfio que os fabricantes vão atuar de conluio com as grandes editoras para fornecer apenas conteúdo proprietário, extraindo renda extra dos leitores compulsivos (como eu). Isso já acotneceu com música e video, o que estimula o mercado pirata e os "circumvention devices" dos hackers, o que leva os produtores a darem saltos ainda maiores na tecnologia de criptagem, até que tudo volte ao preço normal. Sempre foi assim, nos novos mercados atrativos...
Mas será que livros eletrônicos atrairão tantos fanáticos quanto hoje os amantes de música pop e piratas do video? Acho que não.
De minha parte, eu só gostaria que o e-reader fosse também impermeável, pois assim daria para lê-lo na chuva, no sol, e quem sabe até num banho de imersão...
(PS: A imagem que ilustra este post é do Librie, uma versão anterior de e-reader, que parece não ter decolado...)
Jornal Valor Econômico - 03.01.06 - pág. B3
Novidade será apresentada amanhã em Las Vegas
Business Week
A Sony será capaz de fazer o iPod dos livros digitais? Esse é o plano. Na Feira de Eletrônicos de Consumo, com início amanhã em Las Vegas, a gigante japonesa planeja lançar um "e-reader" - aparelho portátil leitor de livros em formato eletrônico - para vender nos EUA.
O usuário poderá armazenar e ler livros digitais. O preço no varejo irá de US$ 300 a US$ 500. A Sony, que forneceu poucos detalhes sobre a novidade, já firmou contratos com pelo menos três grandes editoras para vender cópias de livros digitais em sua loja virtual Sony Connect - iniciativa semelhante à adotada pela Apple Computer, em sua iTunes Music Store, que atende os usuários de iPods.
Nos idos de 2000, um punhado de leitores de livros digitais chegou ao mercado, mas ficaram frustrados porque a tecnologia não proporcionava uma experiência adequada equivalente à leitura de um livro real. Agora que muitas empresas - Google, Microsoft e HarperCollins, entre elas - estão digitalizando livros e com a chegada de uma nova e elegante tecnologia de telas de exibição, a Sony acredita que este é o momento certo para lançar o leitor portátil no mercado americano.
Mas embora a "estratégia tipo iPod" da Sony, integrando perfeitamente conteúdo e hardware, tenha perspectivas, a leitura de livros num aparelho digital ainda não se assemelha a ler um "livro de verdade" para a maioria dos consumidores. Por isso, será difícil criar um mercado substancial para os "e-livros", que corresponderam a 0,2% dos 944 milhões de livros vendidos no mundo pelas editoras americanas em 2004. "Ninguém criou um aparelho suficientemente atraente capaz de seduzir as massas", diz Nick Bogaty, diretor-executivo do International Digital Publishing Forum, uma organização que congrega as empresas do setor.
Estará a Sony à altura do desafio? A empresa que no passado dominou o mercado dos aparelhos portáteis sofreu uma de série recentes reveses, devido a implementação deficiente no terreno de mídia digital. A chegada tardia da Sony ao mercado de música digital e sua política de exclusividade permitiu que a Apple dominasse uma categoria antes comandada pela Sony. Em 2004, a japonesa lançou, em seu mercado local, um "e-reader" que não decolou. Denominado Librie, o dispositivo conquistou aprovação entusiástica por seu design, mas o preço elevado e uma tecnologia antipirataria draconiana afastaram os consumidores - os usuários podiam alugar livros da Sony por 60 dias; depois, eles apagavam-se automaticamente.
Agora, nos EUA, a Sony tem uma segunda oportunidade de criar um mercado para livros digitais. Embora sejam conhecidos poucos detalhes sobre o novo leitor, é razoável prever que seja um dispositivo tecnológico excepcional. Segundo fontes que viram o aparelho, em muitos aspectos, ele é similar ao Librie japonês. Os dois aparelhos utilizam a tela "E Ink", baseada numa tecnologia desenvolvida pela E Ink, de Cambridge, Massachussets. A tecnologia E Ink compõe o texto eletronicamente, ativando seletivamente milhares de minúsculas cápsulas pretas e brancas e criando uma experiência excepcionalmente similar à leitura de uma página impressa.
Assim como fez a Apple no caso de música para o iPod, a Sony negociou contratos com importantes empresas do setor, entre elas a Random House, Simon & Schuster, e HarperCollins, mediante os quais as editoras poderão vender livros na loja on-line.
O serviço será inaugurado com apenas os poucos milhares de livros que cada editora atualmente vende em formato digital a preços próximos dos cobrados por seus livros de bolso. Mas esse número crescerá rapidamente. Jane Friedman, executiva-chefe da HarperCollins, diz que planeja digitalizar todo o seu catálogo, tanto atual como de anos anteriores - o que poderá totalizar 25 mil títulos -, e torná-lo disponível na loja da Sony tão logo negocie seus direitos com os respectivos autores. A Random House também oferecerá seu catálogo inteiro para venda on-line (mais 25 mil títulos).
As editoras estão ansiosas por divulgar a novidade da Sony. "Esperamos que aconteça o equivalente a quando o Walkman ou o iPod surgiram" e os áudio-livros registraram um pico de venda, disse Friedman.
Tecnologia atraente e o apoio da comunidade editorial são um bom começo. Mas a Sony defronta-se com vários obstáculos. Um deles é o fato de que outras empresas também têm acesso à tecnologia E Ink, capaz de mudar as regras do jogo. É verdade que a Sony chegará ao mercado antes dos outros. Mas para o primeiro semestre de 2006, a iRex Technologies, uma empresa desmembrada da Philips Electronics, e uma companhia chinesa denominada Jinke planejam, ambas, lançar aparelhos similares nos EUA. Depois, no início de 2007, outra empresa originada da Philips, denominada Polymer Vision, e a Plastic Logic, uma recém-criada empresa britânica, planejam lançar leitores de livros eletrônicos ainda mais semelhantes a livros "de verdade" do que o da Sony. O Polymer Vision poderá ser rolado como um papiro e o da Plastic Logic será quase tão flexível quanto o papel de uma revista.
Com esses concorrentes, a Sony tem tudo a ganhar se conseguir que seu produto seja compatível com o máximo de padrões possível.
Os usuários poderão copiar qualquer arquivo no padrão PDF (formato de arquivo desenvolvido pela Adobe Systems) para o leitor de livros digitais, segundo uma pessoa familiarizada com o aparelho, bem como arquivos no formato exclusivo da Sony. Isso significa que o aparelho poderá ler de tudo - artigos de revistas, relatórios de analistas, livros com direitos autorais caducos etc.
A Sony precisa muito de uma explosão de vendas, mas não será fácil repetir no terreno dos livros o sucesso que a Apple alcançou com a música.
113) Recursos para economistas na Internet

Existem milhares, talvez zilhões de recursos para economistas na Internet, entre elas vários blogs de valor inestimável.
A própria abundância de fontes e a pletora de materiais de valor desmentem os próprios fundamentos da teoria econômica, que seria a ciência da "escassez", e sobretudo o mais famoso motto econômico dessa arte: there is no free lunch in economy.
Neste caso, existe sim, e dá para fazer café, almoço e jantar sem pagar literalmente nada, só tempo, que como diria Benjamin Franklin, também é dinheiro...
O investimento, aqui, é só no inglês, mas você teria de fazer o esforço, anyway...
Selecionei alguns que me pareceram mais úteis a partir deste link: http://www.oswego.edu/~economic/econweb.htm, que pertence ao Economic Resources for Economists.
Veja os os blogs por mim selecionados em um post no meu Blog "dependente": Textos PRA
Sim, um último aviso: não me responsabilizo se você perder longas horas visitando esses sites, pois cada um emprega o seu tempo (e o seu dinheiro) como quiser...
112) Think again (3): os anti-globalizadores são de fato alternativos?

Pense duas vezes: os anti-globalizadores oferecem de verdade novas alternativas aos velhos problemas da economia de mercado?
Essas "soluções" seriam novas e seriam elas boas, as duas coisas ao mesmo tempo, ou nem uma nem outra? Pretendo, desta vez, fazer algumas considerações metodológicas, antes de discutir os problemas concretos da economia de mercado e as "soluções" oferecidas pelos anti-globalizadores.
Em primeiro lugar, eles seriam, de verdade, alter-mundialistas, como proclamam, ou simplesmente anti-globalizadores?
Já vimos, pelo post anterior, que sua pretensão a oferecer um "outro mundo possível" é muito pouco credível, dada a total inexistência de propostas concretas sobre como organizar esse mundo (ou qualquer outro).
Fiquemos, portanto, na anti-globalização, que, ela sim, é um movimento de sucesso, aliás, muito mais ruidoso e organizado do que o dos altermundialistas, que são apenas um pequeno bando de irredutíveis gauleses (que preferem a palavra "mundialização" ao conceito bem mais comum de "globalização", para não terem de se render ao "imperialismo linguístico anglo-saxão).
O movimento anti-globalizador se constituiu para se opor a algo de concreto: a globalização que “está aí, aos nossos olhos”, que é por essência capitalista e de mercado. Contra ela se mobilizam todos aqueles que têm algumas idéias na cabeça e algumas soluções tentativas (partimos da presunção de que todas são consistentes até prova em contrário).
Também partimos do pressuposto de que os anti-globalizadores têm essas soluções alternativas que eles gostariam de propor aos demais, esperando, em algum momento, que elas sejam aceitas pelos que decidem e que elas possam, assim, converter-se algum dia em realidade.
Como vêem, parto do pressuposto de que os anti-globalizadores têm algo a dizer, que esse algo faz sentido, que seus argumentos merecem ser considerados e que vale a pena, a despeito do seu caráter heteróclito, debater com esse movimento ruidoso, ainda que ela me pareça marcado por uma certa cacofonia conceitual.
Confesso, também, que tenho tido uma certa dificuldade em identificar precisamente as “idéias” dos anti, na medida em que eles parecem mais propensos a fazer manifestações do que em colocar no papel, de forma ordenada, seus argumentos anti, ou mesmo a favor de alguma coisa, qualquer coisa que permita substituir “esta” globalização por outra.
Rendendo uma modesta homenagem à minha tribo de origem, os sociólogos, considero, de minha parte, que o movimento anti-globalizador é uma ideologia, e que, como todas as ideologias, parte de uma certa concepção do mundo e da realidade, concepção que recusa o mundo como ele é e que pretende mudar-lhe os fundamentos ou o seu modo de funcionamento, de modo a torná-lo mais conforme aos princípios e idéias defendidos por esse movimento.
Chamemos a esse movimento “ideologia da anti-globalização”, se me permitem o empréstimo de sabor levemente marxista. Não há nenhum preconceito nesta caracterização, pois eu aceito que chamem à minha própria concepção do mundo “ideologia da globalização”, com todas as conseqüências que isto implica, isto é, o desejo de fazer com o que o mundo também se conforme àquilo que eu julgo ser bom e desejável para seus habitantes, isto é, um pouco mais, ou bem mais, na verdade doses maciças de globalização, com todos os seus efeitos “devastadores” (no bom e no mau sentido).
Admitamos, portanto, que somos ambos “ideólogos”, eu e os adeptos da anti-globalização, e nisto não vai nenhum julgamento preliminar negativo; trata-se apenas de uma constatação. Há uma diferença, porém, entre eu e os anti-globalizadores: eu não pertenço a nenhum movimento, grupo, partido, seita, igreja, confraria, clã ou tribo.
Não costumo freqüentar fóruns pró- ou anti-globalização e não admito nenhum argumento de autoridade que se interponha entre a informação que busco e recebo – de todas as fontes possíveis – e minhas próprias reflexões independentes.
Sou um ser livre, tanto quanto me permite a minha condição de assalariado do Estado e atividades acadêmicas à margem da jornada na burocracia pública. Sou eu e meu computador, apenas, no qual escrevo e no qual recolho as informações que me chegam de todas as partes sobre a globalização e o seu contrário, isto é, o quixotesco movimento anti-globalizador.
Faço aqui um último parágrafo introdutório para me desculpar pelo adjetivo usado acima, isto é, “quixotesco”, em relação aos adeptos da anti, mas é que considero, de verdade, esse movimento como sendo quixotesco, isto é, uma figura (neste caso coletiva) levantada de lança em riste contra alguns moinhos de vento que só existem na cabeça dos que esgrimem argumentos anti-globalização, como passo a discutir nos posts seguintes.
Portanto, antes de achar que os anti-globalizadores oferecem soluções efetivas aos velhos problemas das desigualdades, desajustes e desequilíbrios inerentes às economias de mercado, pense duas vezes se são de fato realizáveis as alternativas apresentadas e se elas representam reais soluções aos problemas que pretendem resolver...
(À suivre...)
111) Think Again (2): Alter-mundialismo?

Se posicionar contra ou a favor de coisas em geral, sejam elas idéias, processos, movimentos, pessoas ou princípios, dá um pouco mais de trabalho do que simplesmente ser acomodado, passivo ou mesmo indiferente. Decidindo ser contra ou a favor de algo, o dono da posição tem, em geral, de se justificar perante outros, explicar os motivos de sua postura, defendê-la de ataques ou contestações que possa julgar equivocados, enfim, fazer qualquer coisa que torne suas idéias não apenas “melhores” do que outras, que são concorrentes ou alternativas, mas também compatíveis com os princípios pelos quais ele afirma pautar sua vida, sob risco, em não o fazendo, de ser acusado de inconseqüente ou, simplesmente, de contraditório.
Ser contra ou a favor de um conjunto de idéias dá, portanto, um certo trabalho, pois que em geral se é obrigado a deixar a acomodação monótona dos slogans rápidos ou o simplismo redutor das idées reçues – isto é, as velhas crenças, sem fundamentação empírica ou validade prática – para pesquisar sobre os fundamentos das posições que se está defendendo, investigar suas causas e conseqüências, examinar a validade dos argumentos em favor de posições opostas – do contrário como seria possível recusá-las, tão simplesmente? –, bem como destrinchar as “fortalezas” de suas próprias posições e tornar evidentes as “fragilidades” das idéias alternativas.
Isso parece complicado e trabalhoso demais? Seria preferível, talvez, a placidez de algum consenso geral? Isso não existe: concordância de opiniões não é uma realidade muito presente nas sociedades democráticas, sobretudo em relação a fenômenos ou processos que são inerentes à própria dinâmica social na qual se vive, como é o caso da globalização. É assim inevitável que sobre ela persistam tantos debates e tanta polêmica.
Pense bem: os assim chamados alter-mundialistas -- que também recebem o nome de anti-globalizadores”, embora eles sejam o contrário disso – são efetivamente a favor do progresso social e da prosperidade dos países em desenvolvimento? Não creio, mas o debate corre o risco de ser um pouco longo e enfadonho.
Pretendo abrir um debate – que, pelo que sei, não terá resposta do outro lado – sobre um dos mais curiosos e surpreendentes fenômenos destes tempos de globalização e que conforma, ao mesmo tempo, um paradoxo: o fato de pessoas medianamente inteligentes – posto que, todas, da classe média para cima –, ou mesmo de indivíduos tidos como de inteligência superior – já que ostentando títulos universitários, livros publicados, espaços na imprensa, homenagens recebidas, enfim, credenciais reconhecidas pela mídia – se posicionarem de forma veementemente contrária ao processo de globalização (refiro-me, obviamente a “esta” globalização, que eles costumam chamar de “capitalista”).
A curiosidade está em que, contra tantos argumentos contrários às suas posições, eles façam sucesso, e o paradoxo (ou a ironia) é que esse sucesso se deve inteiramente ao processo de globalização, que eles condenam com tanta veemência.
Com efeito, não há fenômeno mais disseminado, mediatizado e de maior sucesso público nos últimos anos do que o chamado alter-mundialismo, também chamado de anti-globalização, termo que prefiro e já explico por quê. O alter-mundialismo, como ele mesmo se proclama, é um movimento que defende que um outro mundo é possível, ou seja, um mundo diferente do atual, talvez oposto, ou em todo caso melhor do que o que agora temos: injusto, desigual, contraditório, cheio de misérias e tragédias, feito de exploração do homem pelo homem, de dominação política, de guerras imperialistas, mas também de guerras civis, guerras tribais, limpezas étnicas, degradação da natureza, esgotamento de recursos, bref, um mundo horrível, capitalista e desigual, que caberia eliminar, ou pelo menos substituir por outro melhor. Mas é um fato, também, que o mundo está sempre mudando: já não temos tantas guerras como antigamente, menos pessoas morrem de fome ou doenças, hoje temos penicilina, saneamento básico, um pouco mais de direito e, certamente, mais justiça e democracia também. Enfim, o mundo mudou, embora talvez não no ritmo e na extensão que seriam desejáveis, mas ele mudou, e para melhor, nos últimos dois ou três séculos de revolução industrial e de globalização capitalista (usemos este adjetivo que incomoda muita gente, mas que expressa a realidade que os altermundialistas querem recusar).
Se o mundo mudou, e continua mudando a cada dia, a caracterização usada pelos altermundialistas é, no mínimo, tautológica, ou redundante, motivo pelo qual devemos recusar esse conceito. Mas, há um motivo a mais pelo qual esse conceito é inoperante, pouco prático e no mínimo carente de significado. É porque ele promete coisas que é incapaz de entregar, ou seja, a própria definição prometida em sua caracterização enquanto grupo. Se esse movimento é a favor de um outro mundo, que já indica ser possível sem qualquer tipo de demonstração positiva, ele deveria dizer, de imediato, qual é, como se organiza, quais são os fundamentos materiais, espirituais, arquitetônicos e conceituais desse outro mundo que seus proponentes proclamam de modo contínuo na internet e nos encontros ruidosos nos quais eles martelam um pouco mais a idéia, sem desenvolvê-la de fato. Portanto, o conceito não nos serve, até que ele venha recheado de algo mais e, por isso, estou jogando-o na lata de lixo da história.
(À suivre…)
Paulo Roberto de Almeida
Brasília (1523), 4 de janeiro de 2006
110) Think Again (1): Independência financeira?

Think again, ou traduzindo: “pense duas vezes”! Antes de tomar qualquer decisão, que possa comprometer sua situação presente ou futura, reconsidere todos os dados do problema em causa e veja se a sua escolha é a mais apropriada possível.
Vou começar uma nova série de “pílulas reflexivas”, sob o signo do popular “pense duas vezes”, na qual pretendo oferecer alguns elementos de ponderação quando se está em face de alguma questão que parece recolher a unanimidade do senso comum, isto é, que dispõe de um quase consenso, generalizado entre o distinto público e os chamados formadores de opinião, oferecendo, de meu lado, uma outra visão do problema. Esse tipo de atitude se justifica, numa primeira abordagem, por meu espírito “contrarianista” – ou seja, provocador e rebelde às “verdades reveladas” – mas ela também pode ser legitimada pelos argumentos de racionalidade que pretendo trazer à discussão de um determinado problema.
Começo por uma situação muito simples: a desejável e desejada independência financeira de todos nós, condição para uma vida tranqüila e livre de aborrecimentos.
Pense bem: você tem um empréstimo hipotecário, para construir ou comprar sua casa, e, pelo empréstimo favorecido nessa linha de crédito – digamos 6% ao ano, o que pode parecer uma aberração no Brasil, mas é muito comum lá fora –, você está pelo “seu” banqueiro obrigado a manter uma caderneta de poupança naquela instituição, com a qual você se comprometeu a depositar, todo mês, 3% dos seus vencimentos ou salários, recebidos naquele mesmo banco. Essa é uma maneira de o seu banqueiro ter acesso a um dinheiro fácil, pelo qual ele paga os juros modestos do mercado da poupança, em contrapartida dessa disponibilidade de um empréstimo igualmente a juros mais facilitados do que as taxas comerciais habituais, geralmente o dobro do empréstimo hipotecário.
Você se incomoda e legitimamente se aborrece com essa imposição do banqueiro, de praticamente congelar 3% dos seus rendimentos mensais, durante toda a duração do empréstimo, e quer se ver livre dessa obrigação.
O que você faria?: dispensaria o empréstimo hipotecário a 6% ao ano, acoplado a essa obrigação “poupadora” de 3% ao mês, e o trocaria por um empréstimo livre de quaisquer obrigações, mas acoplado a uma taxa de juros de 10 ou 12% ao ano? Acho que você pensaria duas vezes antes de cometer tão tresloucado gesto, não é mesmo?
Pois, acredite: essa atitude de racionalidade duvidosa acaba de ser adotada pelo Brasil e pela Argentina em relação aos empréstimos do FMI, exatamente assim. Em nome de uma independência financeira que todo mundo preza, ambos os países acabam de trocar um empréstimo a juros camaradas, dessa tiazona severa que é o FMI, pelas incertezas dos empréstimos de mercado, nos quais as condições são mais lenientes mas as taxas mais extorsivas.
De fato, os empréstimos dados por essa rígida senhora que se chama FMI – ela é uma tia rica, mas está longe de cobrir indefinidamente o seu cartão de crédito – são feitos no âmbito de “programas de ajuste” que geralmente implicam em redução de déficits orçamentários, eliminação de subsídios inadequados, redução de despesas públicas, abertura comercial, liberalização econômica e, last but not the least, uma severa cura de emagrecimento que se traduz na tradicional obrigação do “superávit primário” (parcela das receitas correntes dedicada ao pagamento dos juros da dívida pública). Tudo isso pode parecer redutor da soberania, limitador da sua independência política e, cá entre nós, tremendamente “recessivo”, pois impede “investimentos sociais” e outros gastos públicos nas áreas consideradas “estratégicas” ou “indutoras de crescimento e de emprego”.
Não é isso que você tem ouvido recentemente?: “ganhamos, finalmente, a nossa independência, ficamos livres do FMI para decidir nós mesmos quais as melhores políticas econômicas para o nosso país, somos totalmente soberanos e não aceitaremos mais nenhuma imposição de ninguém...”
Pense duas vezes: você acha realmente um bom negócio dispensar um dinheiro barato, mas que vinha acoplado a uma obrigação de fazer economias adicionais, por um outro dinheiro, totalmente livre, mas para cujo serviço você se obrigou a pagar o dobro dos juros? Onde você está com a cabeça?: jogando dinheiro fora, arrumando um pretexto para gastar mais e depois ficar ainda mais endividado?
Think again!: quando alguém vir com justificativas políticas para o uso do seu rico dinheirinho, reconsidere os dados do problema, faça os cálculos e veja se é realmente melhor trocar o certo barato, mas constrangedor, pelo incerto e caro, com ares de plena independência financeira. Isso pode acabar custando caro.
E cá entre nós: aquela tia severa, que ralha com suas extravagâncias financeiras, pode não ser a melhor companhia para o almoço do domingo, mas ela está lá, sempre a postos para lhe garantir uma eventual ajuda em caso de necessidade emergencial, desde que você lhe prometa começar a fazer economias no mesmo momento.
Moral da história: nem sempre as tias severas são más conselheiras e nem sempre o banqueiro liberal é seu amigo sincero...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília (1522), 4 de janeiro de 2006
terça-feira, 3 de janeiro de 2006
109) Antineoliberal e antiimperialista... (outra vez?)

Da Agência Estado, 3 de janeiro de 2006
Chávez recebe Morales e anuncia o "eixo do bem"
Caracas - O presidente eleito da Bolívia, Evo Morales, foi recebido hoje com honras de chefe de Estado em Caracas, onde reafirmou sua adesão à luta "antineoliberal e antiimperialista" de Cuba e Venezuela.
"São novos tempos. Estamos em um milênio que será para os povos, não para o Império. Juntamo-nos à tarefa de Fidel (Castro) em Cuba e de Hugo (Chávez) na Venezuela para dar uma resposta às necessidades das maiorias nacionais", afirmou em uma improvisada entrevista.
Morales, que procedia de La Paz, chegou ao aeroporto da capital venezuelana às 9h50 (11h50 de Brasília) em um Airbus da companhia Cubana de Aviação. O presidente eleito da Bolívia foi recebido na saída do avião pelo governante venezuelano, Hugo Chávez, e pela maioria dos membros de seu governo.
Enquanto esperava a chegada de Morales, Chávez referiu-se ao fato de Morales ser o primeiro índio boliviano a chegar à Presidência do seu país: "São os povos indígenas que retornam do fundo da História". Assegurou também que a visita de Morales é um elo na "formação do eixo do bem", em contraposição ao "eixo do mal".
"Vocês já sabem quem é o eixo do mal. O eixo do mal é Washington e seus aliados, que ameaçam, que invadem, que matam. Nós estamos formando o eixo do bem", assinalou o presidente venezuelano.
Chávez disse que falará hoje com Morales sobre a maneira como a Venezuela poderá apoiar a Bolívia na realização dos dez pontos que o partido de Morales, o Movimento ao Socialismo (MAS), propôs na campanha eleitoral. "Vamos apoiá-lo modestamente para que se torne realidade o que Evo chamou de o resgate da dignidade da Bolívia", disse Chávez.
O governante venezuelano disse que leu as dez propostas do MAS e assegurou que tratará de todas elas na reunião que manterá hoje com Morales no Palácio de Miraflores, sede do executivo.
Chávez citou a nova lei de hidrocarbonetos, a convocação de uma assembléia constituinte, a lei para as autonomias regionais, o plano de desenvolvimento produtivo, a lei contra a corrupção, a lei de terras produtivas, a segurança cidadã, a soberania social, a transformação educacional e a revalorização da cultura.
108) Contabilidade geral da minha produção "literária" em 2005

Apresento a seguir uma contabilidade e descrição geral da minha produção em 2005. A relação individual dos trabalhos se encontra no meu Blog "dependente": Blog Textos PRA (http://textospra.blogspot.com/), doze posts sucessivos, enfeixados sob a denominação geral de "Vinhos da casa, safra 2005", seguindo-se a relação mês a mês.
Apresento aqui a relação dos trabalhos do ano de 2005, com o respectivo link para cada um dos meses do ano:
1) Janeiro: http://textospra.blogspot.com/2006/01/08-vinhos-da-casa-safra-2005-1.html
Síntese: 16 trabalhos, totalizando 112 páginas, ou uma média de 7 páginas por trabalho, ou 3,6 páginas escritas por dia. Como este Blog chama-se, precisamente, "Textos PRA", e deveria em princípio estar voltado para a divulgação de meus textos (mas até aqui tenho colocado mais textos de terceiros do que meus), vou dar início agora à apresentação de minha produção "literária" (mais bem acadêmica) em 2005. Trata-se de uma simples lista sequencial, dividida mês a mês (daí os doze posts sucessivos), contendo a ementa dos trabalhos produzidos, alguns inéditos, ainda, outros publicados. Vários deles encontram-se à disposição no meu próprio site (www.pralmeida.org), outros nos links indicados, mas havendo curiosidade por algum, basta pedir pelo número...
2) Fevereiro: http://textospra.blogspot.com/2006/01/09-vinhos-da-casa-safra-2005-2.html
Síntese: 15 trabalhos, num total de 71 páginas. Em 28 dias, dá uma média de 2,5 páginas por dia, ou 4,7 páginas por trabalho. Motores aquecidos pelo mês de janeiro, passemos agora ao mês de Fevereiro de 2005, uma produtividade menor, talvez, dado o menor número de dias, mas ainda assim a comparação se sustenta: 71 páginas em 28 dias, o que dá uma média de 2,5 páginas por dia.
3) Março: http://textospra.blogspot.com/2006/01/10-vinhos-da-casa-safra-2005-maro.html
Síntese: um total de 15 trabalhos, com mais de 120 páginas redigidas, sem falar do livro preparado para publicação e que representou uma revisão de quase 300 páginas. Não computado o livro, são quase 4 páginas por dia (3,8, mais exatamente) e algo como 7,5 páginas por trabalho. A média do mês foi distorcida pela revisão, para publicação, do livro sobre as relações Brasil-EUA, que só ele alcança 307 páginas. Retirando-se esse livro, mas que nessa fase final poderia contar com pelo menos 10 páginas de texto (apresentação, síntese para publicidade, notas para convites etc.), ainda assim alcançaria 114 páginas escritas, com um tesxto polêmico no meio, sobre a "cultura da esquerda" (sem qualquer duplo sentido...).
4) Abril: http://textospra.blogspot.com/2006/01/11-vinhos-da-casa-safra-2005-abril.html
Síntese: Oito trabalhos, com aproximadamente 22 páginas, ou menos de 3 páginas por trabalho. Pouca coisa: oito trabalhos, apenas e tão somente, mas algumas viagens e reuniões de trabalho explicam essa relativa "improdutividade": um trabalho a cada quatro dias e cerca de três quartos de página por dia. O resto é preguiça...
5) Maio: http://textospra.blogspot.com/2006/01/12-vinhos-da-casa-safra-2005-maio.html
Síntese: Quinze trabalhos, 173 páginas,o que dá uma média de 11,5 páginas por trabalho. Razoável... Depois da relativa preguiça do mês de Abril, a produtividade conheceu enormes ganhos no mês de Maio, com aproximadamente 5,5 páginas escritas por dia, à razão de um trabalho a cada dois dias. Somando às aulas, grupo de pesquisa sobre direito econômico internacional, uma viagem a SP e outras tantas reuniões de trabalho, creio que se pode considerar suficiente...
6) Junho: http://textospra.blogspot.com/2006/01/13-vinhos-da-casa-safra-2005-junho.html
Síntese: Exatos dez trabalhos, com uma média de 7,2 páginas cada um, num total de 72 páginas. De volta à preguiça: apenas uma dezena de textos, com uma média de um texto a cada três dias, ou só 2,4 páginas por dia. Não considero aqui, obviamente, os muitos trabalhos incompletos, os textos preparatórios, que ficam aguardando acabamento, em várias pastas de "working files", assim como as anotações de livros para elaboração de resenhas formais mais adiante.
7) Julho: http://textospra.blogspot.com/2006/01/14-vinhos-da-casa-safra-2005-julho.html
Síntese: Seis trabalhos, com dez páginas efetivamente inéditas, 17 no total, com a junção de dois trabalhos anteriores. Não é brilhante, mas eu estava de férias. Passei o mês de Julho na Europa, aliás via Ceará e Portugal, num total de 7 mil kms rodados de carro, com ida e volta até a Alemanha, e uma semana inteira em Paris. Computador a tiracolo, Internet ocasional, deu para me informar e produzir alguma coisa, exatamente seis trabalhos em dez páginas de fato. C'est pas brillant, mais vacances obligent...
8) Agosto: http://textospra.blogspot.com/2006/01/15-vinhos-da-casa-safra-2005-agosto.html
Síntese: Onze trabalhos, num total de 72 páginas, ou pouco mais de duas páginas por dia, com a média de 6,5 páginas por trabalho. Últimos preparativos para o lançamento do livro organizado sobre as relações Brasil-EUA e um trabalho "iconoclástico" sobre o Mercosul, são os feitos mais significativos desse mês de Agosto, que também teve contribuições sobre as políticas econômicas na era da globalização.
9) Setembro: http://textospra.blogspot.com/2006/01/16-vinhos-da-casa-safra-2005-setembro.html
Síntese: Nove trabalhos, com uma média de treze páginas por trabalho, e um trabalho a cada três dias, aproximadamente. Preparação a curso de especialização em comércio exterior, digressões sobre as relações internacionais do Mercosul (também para um curso acadêmico) e, sobretudo, um retorno a Florestan Fernandes, foram os traços dominantes deste mês de Setembro de 2005.
10) Outubro: http://textospra.blogspot.com/2006/01/17-vinhos-de-casa-safra-2005-outubro.html
Síntese: Quinze trabalhos, ou seja, um a cada dois dias, com uma média de 8 páginas por trabalho, num total de 118 páginas, o que significa 4 páginas por dia. Leitura e resenha de livros de ciência e tecnologia no Brasil, cursos e palestras sobre comércio internacionalme o desenvolvimento de uma "teoria da jabuticaba", que promete ainda render bons frutos, se me permitem a expressão. Em todo caso, o mês foi variado e produtivo...
11) Novembro: http://textospra.blogspot.com/2006/01/18-vinhos-da-casa-safra-2005-novembro.html
Síntese: Treze trabalhos em 56 páginas, ou pouco mais de 4 páginas por trabalho, sendo um em quase dois dias e meio, À razão de menos de duas páginas por dia. Carreira diplomática, debates com a esquerda, minilateralismo e política comercial, prospectologia e uma lembrança para Peter Drucker, ou seja um menu bastante variado num mês de muito trabalho e um certo cansaço...
12) Dezembro: http://textospra.blogspot.com/2006/01/19-vinhos-da-casa-safra-2005-dezembro.html
Síntese: Foram 17 trabalhos em 31 dias, ou menos de dois para cada um, com 58 páginas inéditas (sem falar do esforço do Blog) e mais 34 de reestruturação. Ufa, ainda bem que o ano acabou, pois o cansaço já estava batendo: foram neste mês 17 trabalhos e um redraft do meu livro sobre Formação da Diplomacia Econômica. Mas, a novidade mesmo foi a participação em grupo de debates e a inauguração de u m Blog, em 7 de dezembro, logo complementado por um segundo, e quem sabe, alguns mais...
Somatório geral: Em 2005, eu produzi 150 trabalhos de tamanhos variados, com um total de 1.000 páginas escritas aproximadamente (alguns reaproveitamentos foram descontados). Isso representa uma média de doze trabalhos por mês, de uma dimensão média de 6,6 páginas, ou um trabalho a cada 2 dias e meio. Foram quase três páginas por dia, apenas de trabalho efetivamente terminados, sem contar todas as outras anotações que se transformarão em algum trabalho futuramente.
Só posso agradecer ao meu Macintosh, e ao meu próprio esforço pessoal, sem deixar de lembrar a leniência e a compreensão da família.
Brasília, 3 de janeiro de 2006
segunda-feira, 2 de janeiro de 2006
107) A agenda econômica do Brasil

Gostaria de indicar um link para um post em meu Blog "dependente", no qual eu coloquei um resumo e minhas observações críticas ao livro:
João Sicsú, José Luís Oreiro e Luiz Fernando de Paula (orgs.)
Agenda Brasil: políticas econômicas para o crescimento com estabilidade de preços
(Barueri-Rio de Janeiro: Editora Manole & Fundação Konrad Adenauer, 2003, 390 p).
Apresento um resumo do livro, seguido de meus comentários para seus pontos centrais.
Ver o post: "06) Um novo modelo econômico para o Brasil?" no Blog: Textos Paulo R. de Almeida, neste link: http://textospra.blogspot.com/2006/01/06-um-novo-modelo-econmico-para-o.html
106) O terceiro-mundismo europeu, por um velho sábio...

Transcrevo trechos de entrevista concedida pelo politólogo italiano Giovanni Sartori ao El País, publicada no jornal O Estado de São Paulo deste domingo, 1º de janeiro de 2005 (a entrevista completa encontra-se neste link: http://txt.estado.com.br/editorias/2006/01/01/int010.html):
‘Europa sofre de ideologia suicida’
Crise da esquerda criou o terceiro-mundismo e agora é preciso ser terceiro-mundista para ser de esquerda, diz analista
José Manuel Calvo
EL PAÍS
"Tudo o que penso, digo. Já não tenho idade para ter medo de algo." Giovanni Sartori sente-se livre. Livre para dizer o que quer, ainda que irrite ou escandalize. Com 81 anos completados em maio e depois de ter escrito mais de 30 livros, dezenas de ensaios e centenas de artigos, este sábio da ciência política e da comunicação, que recebeu o Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais em 2005, pode opinar que George W. Bush é "o pior presidente dos EUA" ou que a posição de Jacques Chirac na crise que levou à guerra no Iraque foi "uma vergonha". "Sempre estive à margem da correção política", diz. Provocador por natureza e com humor e saúde para beber um copo de vinho ao meio-dia, Sartori - que nasceu em Florença e divide o tempo entre Itália e EUA - não pára de trabalhar: "Quando alguém pára, envelhece."
(...)
O que acontece com a Europa política que o sr. critica?
A Europa padece de ideologias suicidas. Há um esquerdismo pacifista de origem parcialmente religiosa. A crise da ideologia da esquerda criou um terceiro-mundismo, uma lógica segundo a qual, para ser de esquerda, é preciso ser terceiro-mundista. Sou bastante esquerdista, mas não enxergo a relação. A esquerda sofre uma crise de identidade gravíssima. Creio que deveria adotar a causa da ecologia, abandonada pela direita, cujos interesses econômicos são tais que ela nem quer ouvir falar dessas coisas. Se a esquerda abraçasse essa causa, salvaria o planeta, teria um argumento sólido para lutar e beneficiaria também a si própria.
Como é esse terceiro-mundismo que o sr. rejeita?
É um movimento cego e suicida, com várias manifestações. Ninguém na Europa gosta da guerra ou quer guerra: tivemos guerras demais. Mas essa gente adota um pacifismo implacável que cria adversários fantoches, moinhos de vento. É um pacifismo absoluto, sem condições, que convida à guerra, à agressão. A esquerda mais ativista, em busca de nova identidade depois de ter perdido seus ídolos e referências, ficou sem ideologia e inventou a fuga para a esquerda, que é uma estupidez: é uma fuga de quem não tem idéias nem bom senso e cai no puro extremismo. Depois vem a esquerda reformista, que tenta deter isso. Mas há uma parte da esquerda ativa, bastante forte em toda a Europa, que pratica o extremismo puro e consegue seqüestrar a esquerda mais moderada. Esta outra esquerda poderia se recuperar se, entre outras coisas, se aproximasse da ecologia; mas está embebida demais na memória do próprio passado e não tem imaginação ou preparo para encarar um mundo sem as velhas ideologias mortas.
O sr. também qualificou de suicida o relativismo moral segundo o qual não se deve aplicar ou exigir códigos fixos de conduta.
Creio que a tolerância é o valor básico do pluralismo. Mas o relativismo é um comportamento suicida: se tudo equivale, nada vale. Os valores desaparecem. Mas sou antiquado, há valores que me agradam. O relativismo é uma doutrina que se pretende moderna e diz que todos os valores são iguais. É suicida porque assim não se pode criticar nada, tudo é bom, "a Al-Qaeda tem seus valores e estes devem ser respeitados". Creio que cada um deve ter seus valores e defendê-los. A tolerância nos diz que respeitemos os valores dos outros. Nós os respeitamos, mas isso não quer dizer que os aceitemos. Aceitaremos se chegarmos à conclusão de que são superiores. Essa história de que não se deve ofender ninguém, não se deve falar em choque de culturas... Se isso existe, existe; se não, muito bem. Não sei ao certo o que há de terrível em afirmar isso. Será preciso esconder a realidade? Se há duas religiões monoteístas, uma das quais se reanimou com a ajuda da TV, e há uma civilização teocrática, ideologicamente mobilizada e invasiva - as religiões monoteístas dizem que seu Deus é o único verdadeiro e o que fazem é a guerra santa, como fez o cristianismo -, então se cria um problema de defesa para os outros, que devem enfrentar o choque ou render-se.
Mas faltará fazer algum esforço para chegar a acordos, para compreender os outros.
Quanto a mim, entendo os outros perfeitamente. Li o Alcorão, li muita literatura, não sou bobo. Entendo-os maravilhosamente, e por isso digo que não quero ser assim. Isto é ofensivo? Sou um estudioso e, como tal, procuro entender o mundo. E procuro salvar a civilização na qual acredito, que é a ocidental, que tem sido melhor que as outras dos pontos de vista ético e político. Na sociedade liberal-democrática, quase todos podemos viver; não vamos para a cadeia sem um devido processo legal, etc. Isso é o que primou no Ocidente, o que conseguiu criar uma cidade política onde se pode viver, bastante livre, com ampla margem de segurança ao cidadão. É claro que tem inconvenientes, mas conta com tudo isso de que falamos.
Para esta ‘cidade política’ seria conveniente, em seu próprio interesse, ter menos inimigos.
O inimigo se cria sozinho, não é criado pelo Ocidente. O que se pode fazer? Uma sociedade liberal-democrática já faz bastante: aceita os imigrantes e os integra a sua organização social. Mas, como dizia Ronald Reagan, é preciso um par para dançar o tango. Se um não quer dançar, não há nada a fazer. Um exemplo: nem sequer somos capazes de definir o terrorismo. Por quê? Porque os países islâmicos não querem aceitar que os palestinos que matam italianos sejam definidos como terroristas. O que devemos fazer? Dizer que o terrorismo não existe? Não, o terrorismo existe e, se não conseguirmos achar uma definição jurídica comum com o mundo islâmico, teremos de manter a nossa. Claro que queremos paz. Quem quer a guerra hoje em dia? Mas isso não quer dizer que devamos nos render; temos de nos defender.
domingo, 1 de janeiro de 2006
105) Uma agenda ainda válida para o século XXI?

As propostas de 1988 dos prêmio Nobel revisitadas em 2006
Paulo Roberto de Almeida
Meu primeiro trabalho elaborado em meu próprio computador pessoal, então o pioneiro Macintosh Plus, foi este aqui, em fevereiro de 1988, consistindo em um breve texto de comentários às 16 propostas elaboradas por 75 cientistas e personalidades do mundo literário agraciados com o Prêmio Nobel, reunidos em Paris sob a iniciativa do humanista polonês Elie Wiesel.
A razão de retomá-lo aqui é dupla. Primeiro, pretendo prestar homenagem a esse nobre instrumento da escrita contemporânea, no meu caso uma pluma eletrônica que levava o simpático apelido de Mac Plus. Em segundo lugar, cabe verificar se aquelas propostas elaboradas dezoito anos atrás ainda guardam validade para os nossos tempos.
Procederei da seguinte maneira: primeiro transcreverei o teor completo de meu texto, com as 16 propostas anexas, e depois aduzirei novos comentários, pertinentes ao atual contexto da globalização (uma expressão então praticamente desconhecida).
A) Transcrição do texto de fevereiro de 1988:
“A Conferência dos Prêmios Nobel: Uma agenda para o Século XXI?”
Reunidos em Paris no período de 18 a 21 de Janeiro de 1988 para discutir sobre as “ameaças e promessas no alvorecer do Século XXI”, 75 Prêmios Nobel de 31 diferentes países divulgaram o resultado de seus trabalhos sob a forma de 16 conclusões e recomendações relativas aos mais importantes problemas da atualidade internacional deste final de século (vide lista).
A iniciativa do Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, escritor judeu de naturalidade polonesa, foi sem dúvida alguma meritória, mesmo se cabe questionar a representatividade intrínseca de cientistas e homens de letras de origens as mais diversas (com maciça predominância norte-americana) e sua competência específica para debater problemas complexos que nos afetam a todos, mas de maneira variada. Uma vez que se reconhece, porém, a um biólogo o direito de apresentar propostas, enquanto cidadão, sobre problemas do desarmamento ou da educação, ou a um homem de letras o de argumentar sobre a melhor maneira de resolver o problema da dívida do Terceiro Mundo ou de acelerar a transferência de tecnologia em favor dos países em desenvolvimento, pode-se concordar em que o impacto mediático de uma conferência de laureados representa uma boa maneira de, mais uma vez, chamar a atenção da opinião pública ou dos homens de Estado para algumas das questões mais cruciais da agenda mundial.
O problema essencial, contudo, deve ser colocado da seguinte forma: as propostas dos Nobel são condizentes com a natureza das “ameaças” percebidas e suas recomendações caminham realmente em direção das “promessas” do século XXI? Se a principal qualidade de um bom cientista é a de ser um pouco “visionário”, isto é, de saber antecipar-se aos desafios futuros, as “conclusões” dos Prêmio Nobel devem ser julgadas à luz de sua adequação aos cenários desenhados para o próximo milênio, ou seja, segundo sua capacidade de realizar, nos termos do filósofo alemão Koselleck, uma “projeção utópica do futuro”.
Em outros termos, a agenda que os Nobel levantam hoje para os homens do presente corresponde efetivamente às necessidades de desenvolvimento das sociedades do futuro e as recomendações propostas representam algo mais do que simples manifestação de boa-vontade de homens desvinculados de tarefas executivas ou responsabilidades governamentais? Subsidiariamente, se poderia também indagar se os “remédios” propostos levam em consideração os meios atualmente disponíveis ou a organização social e política do sistema inter-estatal contemporâneo, bem como a relação de forças nele predominante.
AS 16 PROPOSTAS DA CONFERÊNCIA DOS NOBEL
1. Todas as formas de vida devem ser consideradas como um patrimônio essencial da Humanidade. Causar dano ao equilíbrio ecológico constitui portanto um crime contra o futuro.
2. A espécie humana é única e cada indivíduo que a compõe tem os mesmos direitos à liberdade, à igualdade e à fraternidade.
3. A riqueza da Humanidade está também na sua diversidade. Ela deve ser protegida em todos os seus aspectos: cultural, biológico, filosófico e espiritual. Para isso, a tolerância, a atenção a outrém, a recusa das verdades definitivas devem ser incessantemente lembradas.
4. Os problemas mais importantes que a humanidade enfrenta atualmente são ao mesmo tempo universais e interdependentes.
5. A ciência é um poder. O acesso à ela deve ser igualmente repartido entre os indivíduos e os povos.
6. O fosso existente em muitos países entre a comunidade intelectual e os poderes públicos deve ser reduzido. Cada um deve reconhecer o papel do outro.
7. A educação deve tornar-se prioridade absoluta de todos os orçamentos e deve contribuir para valorizar todos os aspectos da criatividade humana.
8. As ciências e tecnologias devem estar à disposição de todos, especialmente dos países em desenvolvimento, de forma a permitir-lhes o controle de seu próprio destino e a definição dos conhecimentos que julguem necessários a seu futuro.
9. Se a televisão e os novos meios de comunicação constituem um instrumento essencial de educação para o futuro, a educação deve ajudar a desenvolver o espírito crítico em relação ao que é divulgado nesses meios.
10. A educação, a alimentação e a prevenção são os instrumentos essenciais de uma política demográfica e de redução da mortalidade infantil. A generalização do uso das vacinas existentes e o desenvolvimento de novas vacinas devem constituir a tarefa comum dos cientistas e dos homens políticos.
11. Todas as pesquisas relativas à prevenção e ao tratamento da AIDS devem ser partilhadas e estimuladas, sem bloqueios ou barreiras, especialmente através da cooperação da indústria farmacêutica. Uma vez disponível, a vacina contra a AIDS deve ser assegurada pelos poderes públicos.
12. A biologia molecular, que por seus recentes avanços permite prever progressos na medicina e no isolamento da dimensão genética de certas doenças, deve ser estimulada, o que permitirá prever e talvez curar essas doenças.
13. O desarmamento dará um estímulo significativo ao desenvolvimento econômico e social, tendo em vista os recursos limitados do mundo, atualmente drenados pela indústria armamentista.
14. Nós pedimos a organização de uma conferência internacional para tratar em seu conjunto do problema da dívida do Terceiro Mundo, obstáculo ao seu desenvolvimento econômico e político.
15. Os governos devem comprometer-se sem ambiguidades e de maneira legalmente vinculatória com o respeito aos direitos do homem, assim como aos tratados por eles ratificados.
16. A conferência dos laureados do Nobel se reunirá novamente dentro de dois anos para estudar estes problemas. No intervalo, se uma urgência se manifestar, vários Nobel poderão reunir-se localmente, ou em todos os lugares onde os direitos do homem estiverem ameaçados.”
(Fim da transcrição; nota sobre o trabalho: 156. “A Conferência dos Nobel: Agenda para o Século XXI?”, Paris, 22 de Janeiro de 1988; Genebra, 21 fevereiro 1988, 3 pp. Artigo sobre a reunião de 75 Prêmios Nobel em Paris, de 18 a 21/01/88 e de análise crítica das conclusões. Não concluído. Anexo: Propostas da Conferência.)
B) Comentários PRA em janeiro de 2006:
Creio que a maior parte das propostas se sustenta, ainda hoje, muito embora seu caráter “ultra-otimista” já fosse passível de algumas críticas naquele mesmo momento. As três primeiras apresentam, em minha opinião, caráter universalemente válido e não são passíveis de qualquer restrição ou comentário, mas a partir daí tenho qualificações ou condicionantes a agregar, que explicito a seguir.
“4. Os problemas mais importantes que a humanidade enfrenta atualmente são ao mesmo tempo universais e interdependentes.”
PRA: Os problemas mais importantes não estão expressamente referidos – embora alguns deles figurem nos tópicos seguintes –, mas creio que eles podem ser resumidos da seguinte forma: segurança, paz, bem estar e igualdade de chances. A segurança e a paz fizeram enormes progressos no mundo, depois que os cientistas e literatos se reuniram em Paris, no início de 1988. O comunismo acabou e com ele a ameaça de um enfrentamento praticamente suicidário entre as duas grandes potências atômicas. As guerras que subsistem são residuais – com uma ou outra exceção – ou reduzidas ao contexto regional e civil interno. O desenvolvimento social também conheceu enormes avanços, muito embora subsistam zonas de fome endêmica, geralmente naqueles contextos de conflitos civis e político, e alguns casos de privação epidêmica, dados os desequilíbrios ambientais criados pelo homens, também em grande medida coincidentes com as zonas de conflito.
A igualdade de chances não é, infelizmente, muito bem disseminada no mundo, mas isso não quer dizer que se trata de um problema “ao mesmo tempo universal e interdependente”, uma vez que a responsabilidade pela educação dos cidadãos – fator primordial da igualdade de oportunidades – permanece indefectivelmente com os Estados nacionais. Não se concebe, neste momento, processos universais de educação e capacitação técnica, pois isso poderia ser assimilado à “desculturação” ou mesmo ao “etnocídio”. Sim, infelizmente, a ditadura do “politicamente correto” e outras inovações típicas dos anti-globalizadores inviabiliza uma diminuição do grau de soberania estatal associada aos processos de educação e socialização para o trabalho.
“5. A ciência é um poder. O acesso à ela deve ser igualmente repartido entre os indivíduos e os povos.”
PRA: Interessante como proposta, mas algo ingênua. Se a ciência é um poder, então ela nunca será repartida igualmente entre os povos, uma vez que a humanidade não se encontra suficientemente homogeneizada, ou livre de perigos residuais, para que o poder seja repartido de forma equânime. Isso não vai ocorrer antes de muito tempo.
Mas, mesmo que a ciência não fosse um poder, e sim um simples instrumento de poder – o que redunda quase no mesmo –, ainda assim não haveria condições de “dispensá-la” de forma igualitária entre todos os povos e indivíduos. As condições de sua produção implicam custos e ônus para os que investem nessa atividade, o que deve ser de alguma forma compensado. Por isso que à essa produção estão associados mecanismos de monopolização – patentes e outros títulos proprietários – que são a contrapartida indispensável ao investimento inicial.
De forma geral, entretanto, os avanços propriamente científicos já se encontram à disposição de todos, de forma livre e irrestrita, apenas a tecnologia sendo objeto de apropriação monopólica.
“8. As ciências e tecnologias devem estar à disposição de todos, especialmente dos países em desenvolvimento, de forma a permitir-lhes o controle de seu próprio destino e a definição dos conhecimentos que julguem necessários a seu futuro.”
PRA: Os mesmos comentários acima valem para esta proposta também. Cientistas e literatos, em especial os agraciados com o Prêmio Nobel, deveriam saber o que custa chegar a uma resultado “premiável”: anos e anos de pesquisas, despesas imensas para resultados por vezes frustrantes, sem contar os falsos caminhos e os ensaios fracassados. Os literatos devem gostar de viver de direitos autorais, do contrário teriam de procurar outro meio de vida. Colocar algo que custou muito à livre disposição de terceiros significaria que existe sim “almoço grátis”, o que parece contradizer um dos princípios econômicos mais elementares.
“12. A biologia molecular, que por seus recentes avanços permite prever progressos na medicina e no isolamento da dimensão genética de certas doenças, deve ser estimulada, o que permitirá prever e talvez curar essas doenças.”
PRA: Esses progressos científicos, como o das pesquisas com células-tronco, que alcançaram igualmente, no plano tecnológico, a melhoria genética dos alimentos (plantas e animais), vêm sendo infelizmente obstaculizados por fundamentalistas religiosos e outros fundamentalistas ecológicos, que brandem argumentos não científicos para impedir esses avanços. Os cientistas deveriam esforçar-se mais para vulgarizar o conhecimento técnico, afastando os aspectos religiosos e ideológicos que dificultam sua disseminação.
“14. Nós pedimos a organização de uma conferência internacional para tratar em seu conjunto do problema da dívida do Terceiro Mundo, obstáculo ao seu desenvolvimento econômico e político.”
PRA: Esse problema já foi praticamente encaminhado, ao longo das duas últimas décadas, com a renegociação das dívidas dos países emergentes – o que implicou algum desconto do valor face – e o cancelamento unilateral ou negociado das dívidas dos países mais pobres. Caberia registrar, contudo, que o problema da dívida não é uma perversão do sistema financeiro internacional, e sim o resultado de fatores contingentes e outros imponderáveis, numa relação quase simétrica, de disponibilidade de liquidez do lado dos credores – que atuam de forma irresponsável, pelo desejo de lucro – e de demanda excessiva por parte dos tomadores, que também atuam de forma irresponsável ao contratarem encargos acima de suas possibilidades. Trata-se de velho e recorrente problema, que não deixará de conhecer novos episódios no futuro.
Brasília, 1º de janeiro de 2006
104) Homenagem a uma pluma eletrônica...

No encerramento das atividades “redatoriais” de 2005, ao corrigir e dar formato final à lista dos trabalhos produzidos no ano que acaba de se encerrar e ao dar início, em 1º de janeiro de 2006, a uma nova fase de produção de textos, gostaria de começar este ano prestando uma singela homenagem ao meu principal instrumento de trabalho desde 1988: o computador.
Meu primeiro computador foi um Macintosh Plus, uma pequena caixa cinzenta, acompanhada de um mouse pouco ergonômico, que servia então, apenas e tão somente de processador e de tela de visualização para o ato da escrita (e para algumas poucas outras ações de desenho e de cálculo), uma vez que todos os demais recursos informáticos tinham de ser acessados e arquivados em outros suportes, externos. Os computadores pessoais dessa época não tinham, acreditem, disco rígido interno! Com efeito, tanto o sistema operacional, como os softwares – na verdade um ou dois, apenas – e os produtos então criados tinham de ser armanezados em disquetes compactos, até aquele momento reduzidos à fabulosa capacidade de 712 kilobytes (o que já era um progresso em relação aos antigos discos flexíveis de maior tamanho, mas de menor capacidade de armazenamento).
Lembro-me de ter pago caríssimo – talvez mais de três mil dólares – pelo meu primeiro Mac, aliás usado, comprado de segunda mão de um estudante que o tinha trazido dos EUA. Isso foi em Genebra, em fevereiro de 1988, onde eu então servia na Delegação do Brasil. Suas limitações operacionais e de armazenamento eram um problema para quem, como eu, manipulava grandes textos, pois a partir de um certo volume de informações, não se podia seguir adiante. Como o sistema operacional do Mac, o software de redação – o MacWrite – e os textos produzidos tinham de ficar no mesmo disquete, os arquivos não podiam ser muito grandes, para caber no limite dos 712 kb. Assim, meu primeiro investimento, em poucos meses, foi um disco rídigo externo, que importei diretamente dos EUA.
Meu primeiro trabalho feito no novo instrumento de trabalho foi um texto de comentários a propostas emitidas naquele mesmo momento numa conferência de prêmios Nobel, que pela sua pertinência e atualidade – e também como forma de rememorar aqueles velhos tempos e homenagear o meu primeiro Mac – pretendo retomar e reproduzir novamente em meu Blog.
Um ano depois, eu já passava ao meu segundo computador, sempre um Mac, mas desta vez um SE-40, com processador mais poderoso, dotado de disco rígido interno e outros recursos (a começar, pelo novo sistema operacional, agora embutido). Não preciso dizer que minha produtividade no trabalho redacional aumentou exponencialmente, assim como o apelo a arquivos eletrônicos, em lugar dos incômodos maços de papel. Não se falava em Internet, então, mas já existia o modem, um módulo de comunicação que se conectava aos aparelhos de fax para transmissão de mensagens em papel térmico.
Sempre fui fiel ao Mac, tendo conhecido e adquirido todos os computadores produzidos pela Apple e experimentado praticamente todos os sistemas operacionais. Depois do SE-40, adquiri um Mac Portable (na verdade um “transportável”, uma mala imensa, pesada e lenta), junto com uma copiadora laser (um desperdício de dinheiro, hoje reconheço), e menos de um ano depois um Mac Performa. Também comprei um híbrido – isto é, um Mac dotado de dupla plataforma, uma para o sistema Mac, outra esquipada com Windows--, um primeiro laptop PowerBook (que ainda tenho, com teclado francês) e vários outros mais. Atualmente trabalho com um PowerBook G4, com disco rígido de 40 GB e memória de 768 MB SDRAM. Já estou pensando nos G5.
Também aprendi a conviver com os inimigos, sempre dominantes no trabalho e na vida, de forma geral. Como um bom macintoshiano, eu desprezava então a Microsoft e seu sistema operacional copiado da interface do Mac, o Windows. Só fui utilizar o Wordbem mais tarde, por puro preconceito contra os programas do Bill Gates, preferindo outros processadores de texto, como o MacWrite (muito limitado) e, durante bastante tempo, o WriteNow (já com a facilidade das notas de rodapé, indispensáveis para quem elabora trabalhos acadêmicos).
Não vou falar de tudo o que fiz com os meus computadores, e de tudo o que ainda tenho arquivado e que pretendo fazer um dia. Basta começar o ano voltando a relembrar do velho Mac Plus, que deve agora ter virado carcaça em algum cemitério eletrônico ou então repousar em algum museu de tecnologia, ao lado do machado de bronze e da roca de fiar.
Uma lágrima de saudade e um sorriso de reconhecimento...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 1 de janeiro de 2006
103) Aberta a temporada de caça a diplomatas (III)

Guia de Estudos do Concurso de Admissão à Carreira Diplomática
Recomendações Bibliográficas
Indicações resumidas por
Paulo Roberto de Almeida
(www.pralmeida.org; pralmeida@mac.com)
Nota inicial:
Como a bibliografia recomendada no Guia de Estudos do IRBr (na versão 2005) apresenta um volume considerável de leituras, elaborei, pensando nos muitos candidatos que me consultaram ao longo dos dois últimos anos, uma lista reduzida, constando de leituras que eu pessoalmente considero essenciais. Evitei incluir novas leituras, de livros que poderiam ser recomendados, mas que não constam, atualmente, da bibliografia “oficial”, uma vez que a intenção foi, justamente, reduzir o volume total de leituras. Trata-se, obviamente, de uma escolha pessoal e portanto arbitrária, ou subjetiva, dos títulos que me parecem recomendáveis, apenas e tão somente nas matérias para as quais me julgo minimamente capacitado para opinar.
1) Indicação inicial de leituras gerais sobre o Brasil:
“A bibliografia e a orientação para estudo incluídas neste Guia de Estudos não têm caráter limitativo. Feita essa ressalva, recomendam-se as seguintes obras, com vistas a facilitar a preparação básica do candidato:
CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1997.
FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. São Paulo: Global, 2003.
FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2003.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
PRADO Jr., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1996.
RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.”
Nota PRA:
Eu pessoalmente considero que todo e qualquer candidato deve possuir uma boa base de leituras relativas ao Brasil, na qual se inclui, evidentemente, o conhecimento dos chamados “clássicos do pensamento brasileiro”. Aos que não têm tempo ou disposição para penetrar na leitura de obras por vezes maciças, em alguns casos “maçantes” (ou mesmo relativamente defasadas em relação às pesquisas mais recentes em seus respectivos campos), eu lembraria que a obra de todos esses autores, com a possível exceção de Ribeiro, já foi esmiuçada e resumida por gerações de cientistas sociais brasileiros, encontrando-se no “mercado” excelentes resumos desses livros ditos “essenciais”. Um instrumento de busca como o Google, por exemplo, ou mesmo o Google Scholar, pode ajudar na identificação desses trabalhos que, por vezes em 20 páginas, resumem o conteúdo das 300 ou 500 páginas dos originais. Por outro lado, vários desses autores são objeto de sites mantidos pela família ou por acadêmicos, admiradores ou discípulos, nos quais se encontram bons resumos e comentários das obras respectivas. Encontrei, por exemplo, um excelente site sobre o Gilberto Freyre, que traz o essencial da obra desse prolífico autor em poucos resumos muito bem feitos. Não tenho tempo de buscar, agora, os links respectivos para esses resumos ou comentários, mas agradeceria aos que o fizerem que me enviem esses endereços para inclusão numa futura edição deste pequeno Guia de Estudos resumido.
2) Teste de Pré-Seleção (TPS)
“Em termos de orientação para estudo, o TPS não comporta recomendações particulares, uma vez que não lhe corresponde um programa específico. Não obstante, cabem as indicações que se seguem, no entendimento de que não limitam o conteúdo das questões do TPS. Na preparação dos candidatos, serão certamente úteis as informações constantes deste Guia sobre as provas de Português (Segunda Fase), de História do Brasil e de Geografia (Terceira Fase). Da mesma forma, deve ser consultado o programa de História Mundial Contemporânea constante do Guia de Estudos de 2004, reproduzido ao final deste volume junto com a bibliografia pertinente.”
Nota PRA:
Considero basicamente correta essa indicação do Guia de Estudos 2005.
3) Português
Nota PRA:
Considero que a redação culta, mas não pedante, é essencial para qualquer candidato à carreira diplomática. Por isso, toda e qualquer leitura é essencial. O candidato precisa partir do requerimento básico que ele deve ser capaz de redigir pelo menos cinco páginas sobre qualquer assunto de maneira inteligente, com correção gramatical. Por isso a recomendação básica é o treino constante em redação. Tenha sempre consigo uma caderneta na qual o candidato deve se exercitar várias vezes por dia, colocando em linguagem formal os seus próprios pensamentos diários, sobre qualquer assunto. O importante é redigir bem, não o tema, necessáriamente.
Quanto à “Bibliografia sugerida” no Guia de Estudos, eu retiro os Dicionários e gramáticas, pois considero essa parte um requerimento primário, e me concentro nos seguintes livros:
SAVIOLI, Francisco e FIORIN, José Luiz. Manual do Candidato – Português. 2. ed. Brasília: FUNAG, 2001.
CAMARA Jr., Joaquim Mattoso. Manual de Expressão Oral e Escrita. 21. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
GARCIA, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna: aprenda a escrever, aprendendo a pensar. 21. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2002.
PENTEADO, J. R. Whitaker. A Técnica da Comunicação Humana. 8. Ed. São Paulo: Pioneira, 1993.
VANOYE, Francis. Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral e escrita. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
Nota final: Não me considero especialista em língua portuguesa para recomendar qualquer um dos livros acima indicados, mas entendo que se eles figuram na bibliografia “obrigatória”, deve ser por alguma razão.
4) História do Brasil
Bibliografia resumida por PRA:
CAMPOS, Flávio; Dohlnikoff, Miriam. Manual do Candidato: História do Brasil. 2. ed. Brasília: FUNAG, 2001.
CERVO, Amado e BUENO, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil. Brasília: editora da UnB, 2002.
FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo: EDUSP/Imprensa Oficial, 2002. (Nota PRA: Na verdade, seria essencial ler o livro original, isto é, completo de Boris Fausto: História do Brasil, editado pela EDUSP em 1994).
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O Brasil Monárquico: do Império à República. São Paulo: Bertrand Brasil, 1995. (História Geral da Civilização Brasileira, v. 7)
IGLESIAS, Francisco. Trajetória Política do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.
LINS, Álvaro. Rio Branco (Barão do Rio Branco): biografia pessoal e história política. São Paulo: Editora Alfa-Ômega, 1996.
5) Geogra