quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

153) O que faz um diplomata, exatamente?


Muito freqüentemente sou solicitado, por interessados na carreira diplomática, geralmente jovens, a pronunciar-me sobre a natureza exata do trabalho diplomático. As dúvidas são muitas e a curiosidade infinita. Ainda assim tento responder a cada um da melhor forma possível, mas novas demandas se repetem, com perguntas usualmente similares. Como exemplo típico desse gênero de questionamento, transcrevo mensagem enviada hoje (11.01.06), que tentarei responder em seguida:
“Ainda falta um pouco para eu me decidir por este caminho (a diplomacia), por isso vim lhe pedir um breve relato de um dia comum seu, em sua profissão. O que é comum encontrar nessa carreira? O que é gratificante? E quais as dificuldades? Não quero incomodá-lo, aliás tenho muito receio disso, mas, ao mesmo tempo, quero me encontrar com a certeza de um futuro inescusável. E como decifrá-lo, se não perguntá-lo? A simples informação de quanto tempo permanece sentado assinando papéis, de quanto de autonomia se tem, dentre outros aspectos congêneres; essas simples informações formam o motivo de minha interpelação.”

Pois bem, sei que existem muitas lendas em torno das atividades de um diplomata, geralmente de natureza turística ou etílica, ou seja, de que passamos o tempo viajando de um lugar para outro, em belas cidades de países desenvolvidos, participando de reuniões sofisticadas e, sobretudo, de coquetéis e recepções, um pouco como se todo mundo ainda vivesse nos tempos das cortes européias, em bailes e outras galanterias... Exagero, claro, mas o pessoal também exagera em torno da quantidade de bebida que é humanamente possível ingerir. Com exceção do Vinicius de Moraes, que vivia de copo de uísque na mão, o diplomata geralmente não bebe, salvo, claro, quando é obrigado...

Sans blague, para descrever um dia típico de um diplomata seria preciso, primeiro, distinguir entre o diplomata na Secretaria de Estado, ou seja, na sua capital, onde ele é miseravelmente remunerado, e aquele destacado para um posto no exterior, numa embaixada permanente, numa missão junto a um organismo internacional, ou em missão temporária, integrando uma delegação em alguma reunião internacional, onde ele ganha um pouco mais, mas onde ele tampouco vive nababescamente, como alguns podem imaginar.

Na Secretaria de Estado, somos perfeitos burocratas, processando informações, geralmente em formato eletrônico – como tudo o mais na vida, nestes tempos de informatização generalizada – mas também em suporte papel, muito papel. Ainda existe um bocado de formulários e memorandos nas burocracias governamentais, mais do que o necessário.
Um diplomata padrão cuida de alguns assuntos, sobre os quais possui, ou pelo menos deveria ter, domínio completo e competência reconhecida. Ele recebe um insumo qualquer – digamos um telegrama, hoje um simples e-mail, de uma embaixada, ou uma demanda de algum outro serviço – e imediatamente transforma esse tema em algum tipo de “instrução”, para a própria Secretaria de Estado, para outros órgãos do Estado ou para a missão no exterior que primeiro suscitou o problema. Essa resposta pode sair imediatamente ou requerer consultas a outras instâncias da Casa – divisões políticas, isto é, geográficas, ou econômicas, jurídicas, administrativas, etc. – ou de fora, algum órgão técnico do governo, por exemplo, ou até mesmo a entidades da chamada “sociedade civil”. Se o assunto é sério o suficiente para requerer uma decisão superior, ele é levado sucessivamente a escalões mais elevados, eventualmente até ao próprio presidente da República, que assume responsabilidade por todas as decisões maiores da política externa oficial, da qual o chanceler (ou ministro de Estado das relações exteriores) é o executor.

O gratificante, para um diplomata, é ver que uma proposta sua, emanada de seu “processamento” diligente, e inteligente, defendendo o que ele considera como sendo o interesse nacional, foi convertida em política de Estado e passa a ser defendida pelos representantes do país nos foros internacionais. As dificuldades, pelo menos no plano “psicológico”, geralmente estão ligadas à incapacidade de a instituição responsável pela política externa chegar a uma posição clara, contemplando esses interesses – mas nem sempre é fácil determinar onde está o interesse nacional –, ou então elas são derivadas do fato de que a melhor posição possível, em determinadas circunstâncias, tem de ser “contornada”, digamos assim, em função de alianças táticas ou de “competição” com outros objetivos, nem sempre muito claros.
Já nem considero aqui as dificuldades de tipo administrativo ou logístico – como a ausência de recursos materiais e humanos suficientes para executar o que se poderia considerar como a melhor diplomacia possível em todas as frentes abertas ao engenho e arte de nosso serviço exterior – ou os obstáculos propriamente “estruturais”, que são a obstrução dos fins pretendidos pelas “nossas” instruções por alguma coalizão mais forte no plano externo ou a insuficiente mobilização de aliados para a nossa causa. Isso faz parte da vida...

O diplomata na capital, ainda que fazendo parte de uma grande burocracia, dispõe de mais margem de ação e de mais autonomia do que o diplomata no posto, que tem necessariamente de seguir as instruções da capital. Mas este último também participa do processo decisório e da elaboração de posições, ao informar corretamente sobre as relações de força, sobre as posições dos demais países, sobre as alianças táticas que estão sendo desenhadas em torno de algum assunto e assim por diante.
Numa embaixada bilateral, que são os postos mais numerosos, as negociações são talvez menos freqüentes, mas aumenta o volume de informações produzidas sobre o país em questão e cresce o esforço de defesa dos interesses brasileiros em temas concretos, como comércio, investimentos, acordos de cooperação, geralmente científica e tecnológica, visitas bilaterais, bem como atividades de promoção cultural.

Coquetéis e recepções constituem parte integral do “balé” diplomático, mas esse tipo de atividade “festiva” geralmente está ligada às comemorações das datas nacionais – e isso dá para preencher quase todos os dias do ano, dependendo da capital e da respectiva rede de embaixadas, mas a freqüentação desse tipo de evento varia muito em função de “quem trabalha com aquele país” – ou então contempla a parte inicial de alguma reunião importante, com a presença de várias delegações. Almoços de trabalho – muito raramente pagos pelo serviço exterior – são mais usuais, ao passo que são mais raras aquelas recepções que nós mesmos organizamos para os colegas que conosco trabalham ou com quem convivemos por dever de ofício. Chefes de missão têm, sim, uma jornada extra, recepcionando ou participando intensamente desses eventos, para os quais se requer boa disposição de espírito, bom humor e o físico em forma...

Resumindo em poucas palavras, o diplomata, em suas diferentes funções ligadas à representação, negociação e informação, passa a maior parte do tempo pesquisando, escrevendo, processando informações, se relacionando com outros diplomatas, colegas e de outros países, bem como com funcionários de diferentes serviços, com o objetivo básico de conceber instruções e depois defender posições que reflitam o interesse nacional de seu país. É uma função, sem dúvida alguma, “nobre” e gratificante, mas também muito exigente e comportando alguma dose de desprendimento, pois por vezes as condições de trabalho, ou as da vida em família, não são as melhores possíveis (em alguns postos “de sacrifício”, por exemplo, ou até mesmo na Secretaria de Estado, onde os salários são baixos e o trabalho excessivo).

No cômputo global, creio que se trata de uma profissão invejável, pela diversidade de situações que ela permite e pelas oportunidades que cria de engrandecimento pessoal, intelectual e profissional. Os interessados em uma opinião pessoal sobre o que eu creio serem, na atualidade, as regras pelas quais deve pautar-se um diplomata, podem consultar meu ensaio preliminar “Dez regras modernas de diplomacia”, no seguinte link: http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/800RegrasDiplom.html; um resumo do mesmo texto, limitado às regras, foi colocado em meu Blog, post nr. 62, neste link: http://paulomre.blogspot.com/2005/12/62-dez-regras-modernas-de-diplomacia.html.
Boa sorte aos que tentam o ingresso na carreira, mas um aviso preliminar: será preciso estudar muito, antes e durante toda a carreira...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de janeiro de 2006

16 comentários:

Santa disse...

Muito bom o post! Excelente! Esclarecedor já que pouco se vê e se sabe das tarefas profissionais. Algumas delas envolta em mitos ou caricaturas. Parabéns meu amigo.

Bjs

Pedro Campos disse...

Tantas foram as pesquisas, mas eis que achei uma reposta: se não completa, pelo menos repleta. Muitas vezes recebemos repostas de forma estranha (ou mesmo indícios, já que são mais mutáveis), algumas até escondidas, imersas no universo infinito das percepções (um tanto subjetivas) daquele que recebe. Deu-me confiança o simples fato dessa interação, alentando o sonho de realização e crescimento. Honrou-me o simples gesto de ter tido reproduzido meus questionamentos, aquilo que me movimenta. E por isso, tive confirmada a tese de que achamos a resposta pro que queremos, se queremos, nas perguntas certas que fazemos às pessoas certas. Obrigado!

Tay disse...

Excelente forma de esclarecer o que os amantes desta profissão gostaríam de saber. Sem dúvidas, esta profissão é ardua e trabalhosa, mas com muita dedicação e esforço chegamos onde desejamos! Ser um diplomata não é somente ser uma pessoa relevante, mas também é ser um Eistein moderno, lutando pelos "problemas" que o mundo nos oferece. A carreira diplomatica com certeza é minha vocação. Obrigada pela ajuda que me deste neste momento...

Anônimo disse...

Boa noite Doutor Paulo Roberto!
Gostaria muito que o senhor me enviasse um e-mail, me esclarecendo sobre a carreira diplomatica. Tenho interesses, mas gostaria de saber de uma pessoa totalmente qualificada na área e com boa experiência. Gostaria De saber remuneração e campos? E oque Agrada no senhor a carreira diplomatica?.cal_13@msn.com

junior disse...

estou muito grato ao senhor por esclarecer de forma tão ampla e de forma memorável a trajetória de uma das mais celebres e entusiasmantes profissões ,sou um aluno de ensino médio que sonha com uma carreira diplomática, ainda mais agora depois desse maravilhoso esclarecimento ,muito obrigado!

Joseane Rocha disse...

Fico feliz em ler algo realmente positivo sobre a carreira diplomática, tenho 24 anos e iniciei agora a minha faculdade de direito e quero me especializar em relações internacionais, ouço tantas conversas que de uma certa forma me desanima, ouço que para começar uma carreira diplomática teria que começar aos 10 anos de idade, falo inglês e dizem que não é suficiente. É verdade? Mesmo assim continuo investindo e correndo a frente de meu sonho.
Muito obrigada
Joseane Rocha

Hanna disse...

Senhor Paulo,
Tenho uma dúvida e gostaria de saber sua opinião a respeito de escolas que tem o ensino médio voltado a diplomacia.
Vou iniciar a oitava serie em 2009,e pretendo seguir a carreira.Moro no interior de Minas Gerais e tenho duvidas quanto a escolha de fazer um ensino médio em algum colégio que de ênfase a essa carreira.
Busco uma ajuda a escolha de uma capital que tenha esse suporte.
Agradeço desde já.
Hanna

Jéssica Dourado disse...

É muito bom ver a sua dedicação em esclarecer pontos importantes sobre a carreira diplomática.Depois do que disse,me alegro mais e mais em ingressar nessa carreira fascinante .

Anônimo disse...

è muito bom ver a sua dedicação em esclarecer pontos importantes sobre a carreira diplomática.Depois do que disse,me alegro mais e mais em ingressar nessa carreira fascinante .

Elisa Duarte disse...

Olá Sr. Paulo!
Fiz como os Diplomatas e pesquisei sobre essa carreira realmente exigente, como acabo de ler no seu post.
Ainda tenho 16 anos, mas já me interesso pela maioria das coisas que os Diplomatas se interessam, ou são obrigados á conviver. Então acho que estou no caminho certo.
Amo línguas, falo Inglês, brevemente Espanhol e Francês.
Pretendo cursar Relações Internacionais e Ciências Políticas.
Gostaria de saber se estou no caminho certo, e se o Sr. mantém contato com questões internacionais,e qual foi a pessoa mais ilustre que o Sr. já conheceu.
Parecem dúvidas pouco inteligentes, mas sem dúvida me dariam um grande estímulo.
Obrigada por esclarecer tudo, ou quase tudo dessa carreira tão bonita que é a Diplomacia.
Grande Abraço.


Elisa Duarte de Mattos.

Paulo R. de Almeida disse...

Elisa,
Se voce tem 16 anos e já faz e já sabe tantas coisas, então está no caminho certo para tornar-se diplomata. Mas, tenha plena consciência de que precisará ler muita coisa, que está no Guia de Estudos do Instituto Rio Branco (veja em mre.gov.br)
No meu site (www.pralmeida.org), secao Carreira Diplomatica tem muitos textos e alugns conselhos que respondem a algumas de suas questoes.
Bons estudos e boa sorte
PRA

Anônimo disse...

Boa noite Sr. Paulo,

Quando fala a respeito dos baixos salários baixos para os diplomatas na Secretaria do Estado, em que termos de valores médios você se refere?

bruno benedini disse...

Muito obrigado Paulo, fazia tempo que procurava algo assim.

Natália disse...

Bem esclarecedor.. eu gostaria de saber quais os critérios que determinarão a posição em que o diplomata vai atuar: se aqui no Brasil mesmo, ou em alguma missão no exterior. Seria essa um opção do próprio diplomata?
agradeço a resposta.

Paulo R. de Almeida disse...

Natalia,
A carreira é composta de estagios no exterior e na Secretaria de Estado em Brasilia, geralmente a razao de 2-3 e 1-3 do tempo, aproximadamente, mas isso é flexivel.
A decisao é tomada em interacao entre o diplomata e o setor de Administracao. Geralmente voce tem de cumprir prazos no exterior para poder ser promovido, entao as pessoas tem interesse em sair para ficar em cinducoes de ser promovido.
Para onde se vai é uma negociacao complexa, mas sempre tem alguma compensacao posterior: se voce pega um posto C ou D (de maior sacrificio), voce tem direito, depois, de ir a posto A ou B (que são as grandes capitais do mundo desenvolvido).

Paulo R. de Almeida disse...

Natalia,
A carreira é composta de estagios no exterior e na Secretaria de Estado em Brasilia, geralmente a razao de 2-3 e 1-3 do tempo, aproximadamente, mas isso é flexivel.
A decisao é tomada em interacao entre o diplomata e o setor de Administracao. Geralmente voce tem de cumprir prazos no exterior para poder ser promovido, entao as pessoas tem interesse em sair para ficar em cinducoes de ser promovido.
Para onde se vai é uma negociacao complexa, mas sempre tem alguma compensacao posterior: se voce pega um posto C ou D (de maior sacrificio), voce tem direito, depois, de ir a posto A ou B (que são as grandes capitais do mundo desenvolvido).