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quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

154) Perguntas impertinentes a colegas que me acusam de ser “liberal fundamentalista”


Segundo me confidenciaram alunos, de alguns cursos de relações internacionais espalhados pelo Brasil, colegas pesquisadores nessa área, incomodados com as críticas que venho fazendo, desde muitos anos, aos movimentos anti-globalizadores, chegaram a classificar-me de “liberal fundamentalista”, ou vice-versa, o que redunda no mesmo, pois em nenhuma das hipóteses é possível saber exatamente do que eles estão falando.

Se há algo que eu não sou, justamente, é fundamentalista, pois que sempre fui e continuo partidário de uma abordagem essencialmente pragmática dos temas econômicos, como de todo o resto aliás, sendo bastante tolerante, para quem veio do pensamento de esquerda e do marxismo universitário, com todos os tipos de “religiões” políticas e filosóficas, terreno no qual, aliás, professo uma “irreligiosidade” absoluta.
Tampouco posso ser catalogado de “liberal”, na medida em que não tenho nenhum respeito por qualquer dogma político ou econômico e confesso apenas um anarquismo exemplar no plano cultural e das idéias.
Isso me faz indagar quem, de verdade, ostenta “pensamento único”, rótulo que os anti-globalizadores atribuem aos supostos liberais partidários da economia de mercado, quando estes últimos se dividem em tantas escolas de economia e de orientação política quantas são as religiões e ideologias em que se divide o mundo.

O rótulo me faz sorrir, pois indica que certas pessoas, das quais se espera, finalmente, um pouco mais de espírito acadêmico, hesitam em, quando não se recusam a, debater idéias e argumentos, preferindo catalogar os indivíduos que delas discordam, a propósito de temas concretos, e daí dão por encerrada a discussão, como se estivessem batendo a porta na cara de supostos (ou reais) opositores de suas idéias (se de fato ostentam algumas).
A academia herda, supostamente, seus métodos de trabalho da antiga tradição socrática do contraditório e da busca da verdade, o que pode e deve ser buscado no plano da lógica, mas também, e sobretudo, segundo o velho legado baconiano da comprovação empírica, da exposição honesta dos fatos e das conclusões e inferências que possam resultar dessa busca incessante de explicações razoáveis para as evidências de que dispomos para tal ou qual problema concreto da natureza ou da sociedade.

Isso me ocorreu ainda poucos dias atrás, quando escrevi, aliás gentilmente, a uma dessas sumidades universitárias, precisando-lhe a natureza puramente objetiva da decisão adotada por determinado país da América do Sul em não aderir à união aduaneira do Mercosul, esclarecendo que se tratava antes de incompatibilidade tarifária, razão portanto factual e concreta, e não de supostas “pressões dos EUA”, como ele argumentava.
Depois de idas e vindas nos elementos concretos em torno das quais se fundamentou a decisão desse país, meu interlocutor deu por encerrada a discussão dizendo que não pretendia, nem tinha tempo – “não quero e não tenho tempo”, disse ele – para discutir comigo, o que em matéria de troca de mensagens eletrônicas é o mesmo que bater a porta na cara.

Eu não fico chateado com esse tipo de atitude, que apenas indica que o parceiro, como diriam os franceses, está à court d’arguments, ou seja, lhe faltam argumentos para o debate e por isso dá por encerrada a discussão.
Como, de minha parte, nunca dou por encerrada qualquer discussão – pois sempre considero que os argumentos devam ser todos expostos, para que do debate possa surgir algum esclarecimento mais completo em torno do problema que nos ocupa –, gostaria de continuar esse exercício em torno das supostas idéias liberais, de um lado, e anti-globalizadoras, de outro, propondo algumas perguntas a esses meus colegas de academia que eles estão gentilmente convidados a responder.

A esse propósito, justamente, um deles já argumentou que eu não sou acadêmico – por não retirar meu sustento ou não ter como atividade principal a docência universitária – como se isso fosse critério de inclusividade na categoria e como se esta devesse recrutar única e tão somente os “dedicados integrais”, cuja dedicação exclusiva e cuja “integralidade”, aliás, deixam por vezes a desejar.

Tenho plena consciência de que meus esforços são absolutamente unilaterais, pois que nunca obtive resposta ou contestação a meus muitos escritos “anti-globalizadores” – muitos deles absolutamente provocadores, não hesito em confessar –, mas pretendo ainda assim continuar no terreno de luta, armado unicamente de meus instrumentos habituais: os argumentos como elementos essenciais do discurso, a lógica como método irrecusável e a sustentação empírica e as evidências históricas em apoio fático às minhas afirmações e propostas.

Voilà, tendo feito esses prolegômenos necessários, vamos às perguntas:

1. Quais são as evidências materiais, ou seja, provas estatísticas, dados quantificáveis, observáveis e verificáveis, de que a globalização, como pretendem os anti, aprofunda a miséria, cria mais desemprego e acarreta mais desigualdades no mundo? Isso vale tanto para dentro dos países, como entre os países, esclareço.

2. Se as políticas liberais só conseguem produzir recessão e desemprego, privilegiando unicamente os setores financeiros – o capital financeiro monopolista internacional, como se dizia antigamente –, por que, exatamente, os países que mais crescem e que ostentam as menores taxas de desemprego são, justamente, esses ditos “neoliberais”?

3. Se o “consenso de Washington” fracassou redondamente na América Latina, por que os países que mais são contrários às suas regras não são, longe disso, exemplos de crescimento, de dinamismo e de inserção competitiva na economia internacional? E por que, a contrário senso, os países que mais se identificaram com essas medidas “neoliberais”, a começar pelo Chile, conseguem ostentar taxas sustentadas de crescimento ao mesmo tempo em que fazem progressos no caminho da redução das desigualdades distributivas e da qualificação competitiva de suas economias?

4. Se os processos de abertura econômica e de liberalização comercial significam, ipso facto, sucateamento da indústria e desmantelamento de setores inteiros da economia nacional, como explicar as evidências de que países que adotaram essas medidas de modo unilateral, como o Brasil do início dos anos 1990, por exemplo, registraram, nesses anos justamente, as maiores taxas de crescimento da produtividade, além de ganhos significativos e comprovados de competitividade internacional?

5. Se as regras liberais impõem, como acusam os anti-globalizadores, total liberdade aos movimentos de capitais e a plena abertura cambial, o que facilitaria as atividades especulativas nos mercados de divisas, como explicar o fato que de que a Argentina, no auge do seu “fundamentalismo liberal”, impunha a rigidez cambial, em direção oposta aos regimes cambiais praticados pela maior parte dos países e contrariamente ao que sempre prega o FMI em caso de correção de desequilíbrios de balanço de pagamentos?

6. Se a flexibilização neoliberal do mercado de trabalho produz desemprego e perda de direitos consagrados, resultando em precarização ampliada das relações de trabalho e terceirização, por que os países que mais adotaram essa postura são os que exibem as menores taxas de desemprego e o maior crescimento da produtividade do trabalho?

7. Se o livre-comércio internacional acarreta desigualdades crescentes e dependência de empresas multinacionais, o que compromete políticas públicas, macroeconômicas e setoriais, por que os países, ou melhor, as economias que mais se inseriram nos fluxos internacionais de intercâmbio comercial são as que melhoraram de padrão de vida, viram o surgimento de suas próprias multinacionais e diminuíram, justamente, sua dependência de alguns poucos mercados de matérias-primas ou manufaturados leves, que são dominados por alguns poucos oligopolistas mundiais?

8. Se os direitos de propriedade intelectual são inerentemente injustos, transferindo renda dos países mais pobres para os mais ricos, condenando os primeiros a uma “eterna dependência tecnológica” dos segundos, por que países como China e Índia, que são ainda relativamente pobres para os padrões internacionais, estão aderindo de forma crescente a normas mais elevadas de proteção patentária?

9. Se os investimentos estrangeiros são criadores de maior dependência econômica e de remessa ampliada de divisas e de royalties para o exterior, por que tantos países em desenvolvimento vêm aumentando o volume e a qualidade da proteção dada ao IDE, assinando acordos de garantia de investimentos e assegurando livre transferência dos resultados produzidos?

10. Se já existem evidências concretas de que as políticas agrícolas, subvencionistas e protecionistas, de países desenvolvidos, como os EUA, a União Européia e o Japão, entre outros, são absolutamente condenáveis, em primeiro lugar em função de sua inerente irracionalidade econômica, em segundo e principal lugar em virtude do enorme prejuízo trazido aos países mais pobres, por que os movimentos anti-globalizadores, que dizem atuar em prol do desenvolvimento e da inserção dos mais pobres e do bem estar de suas populações, não são mais incisivos na oposição a essas políticas?

11. Se os países em desenvolvimento são, por definição e historicamente, importadores líquidos de capitais dos países mais ricos, por que os movimentos anti-globalizadores insistem tanto na adoção de uma taxação internacional sobre os movimentos de capitais, sabendo-se que esse novo imposto irá necessariamente aumentar o custo dos empréstimos e de captação de recursos financeiros nos mercados livres?

12. Finalmente, se mercados livres já provaram, ao longo da história, sua funcionalidade absoluta do ponto de vista da modernização tecnológica, dos ganhos de oportunidade, da distribuição de renda via especialização produtiva e outros benefícios indiretos da livre circulação de fatores, por que os anti-globalizadores, e com eles o contingente bem maior de protecionistas de todos os tipos, insistem tanto na administração política dos mercados internacionais, como se os governos soubessem melhor do que agentes econômicos ou do que os indivíduos consumidores o que é melhor para o bem estar dos cidadãos dos mais diversos países?

Voilà: deixo aqui algumas perguntas para as quais eu apreciaria muitíssimo dispor de respostas pelo menos tentativas por parte daqueles que se identificam, de perto ou de longe, com o movimento anti-globalizador.
Elas podem também servir de sinalização para o próximo encontro dos anti, a ser realizado neste final do mês de janeiro de 2006.
Respostas eventuais para a minha caixa postal, por favor...

Paulo Roberto de Almeida (pralmeida@mac.com)
Brasília, 12 de janeiro de 2006

2 comentários:

Carolina Valente disse...

Voilà! Finalmente um "Geraldo Viramundo" (aquele Grande Mentecapto) que nunca desiste de uma discussão!
Queria muito saber quem são esses "colegas pesquisadores"...
Parabéns pelo texto (eu que particularmente acho que existem, sim, algumas coisas que são inevitáveis na história). Gostei bastante!
Abraço grande,
Carolina Valente.

SamirMoraes disse...

Caro Paulo Roberto,
Estou digerindo aos poucos seu rico material (navego por temas de interesse conforme o dia da semana - sem qualquer conotação mística, claro). As reflexões acima são muito oportunas ao universitário anos 70-80 (e 90?) bombardeado pelo contexto da bipolaridade e do militarismo traduzidos por miscelânea de conceitos, ideologias e registros históricos mal contados que, ao final, por postura quase sempre juvenil e romantizada, escolheu por 'demonizar' o capital. Como sabemos, emergiu daí a categoria de professores que hoje predomina nos corredores de nossas universidades. É claro que seria mais tolerável tal cristalização de conceitos - ou a falta de oxigenação deles, se a profissão da categoria não fosse ensinar, ou melhor, estimular a aprendizagem. Apresenta-se aqui um dos nossos gargalos: novos indivíduos ensinados por quem não se recicla retarda ainda mais as coisas. Será que o crescimento econômico da sociedade é o principal elemento para abreviar o tempo e estimular a mudança do quadro?
Abraço forte,
Samir Henrique de Moraes