Convite: Visite meu novo blog

Atenção: este foi meu primeiro blog, descontinuado desde meados de 2006. Convido a uma visita a meu blog Diplomatizzando: http://diplomatizzando.blogspot.com/

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

141) Previsões sobre o futuro do Brasil (feitas em 1968...)


Transcrevo abaixo interessante artigo do Professor Rubens Penha Cysne, atualmente atuando como visiting scholar no Departamento de Economia da Universidade de Chicago, sobre as previsões que o economista Mário Henrique Simonsen, de saudosa memória, fez, no longínquo ano de 1968, sobre as perspectivas de crescimento da economia brasileira, assim como sobre os demais problemas que o Brasil então enfrentava, enquanto economia e enquanto sociedade. Muitos desses problemas persistem ainda hoje.
Coloco esses exercícios de "futurologia aplicada" no contexto dos esforços de planejamento que então se faziam, para acelerar a chegada desse futuro. De certo modo, algo se construiu de positivo, como a estrutura industrial do país, mas muito se perdeu pelo caminho, também. Entre os problemas persistentes, levantados então por Simonsen e agora relembrados pelo Professor Penha Cysne, figuram a erosão na qualidade da educação, o sempre deficiente mercado de capitais e a poupança insuficiente, para efeitos de maximizar o crescimento, e, provavelmente, a racionalidade econômica e administrativa.
Pretendo igualmente retormar a análise dessas obras de trinta anos atrás, na esteira de meus trabalhos sobre a experiência histórica do planejamento no Brasil, um dos quais pode ser consultado neste link.
PRA

‘Brasil 2001/2’ e as previsões econômicas
Rubens Penha Cysne
jornal O Estado de São Paulo, domingo, 8 de Janeiro de 2006

Brasil 2001 e Brasil 2002 são títulos de dois livros publicados por Mario Henrique Simonsen, respectivamente, em 1968 e 1972. Tais livros comentam algumas projeções efetuadas para o Brasil, em 1967, relativas ao ano de 2001. Nesta virada de ano, em que proliferam projeções dos mais variados tipos, revejo aqui alguns pontos de tais análises. Fica clara a necessidade de encarar com a devida reserva qualquer exercício de futurologia econômica.
Em 1967, o Instituto Hudson, nos Estados Unidos, publicou o livro Ano 2000 - Um Arcabouço para Especulação sobre os Próximos Trinta e Cinco Anos, de Herman Kahn e Anthony J. Wiener. O estudo, prolixo, previa desde a evolução do sistema político internacional até a renda per capita de vários países fora do eixo dos industrializados, o Brasil em particular.

Nestas terras, o compêndio ganhou dimensão maior por causa dos dois livros de Mario Simonsen acima citados. Simonsen reconheceu o caráter especulativo da obra do Instituto Hudson, em consonância com a proposta dos autores. Isto posto, sua estratégia foi utilizar o exercício de futurologia de Kahn e Wiener para mostrar que algo deveria ser feito no sentido de se inverterem as tendências previstas de empobrecimento relativo do Brasil.

Simonsen enumerou cinco grandes problemas nacionais a serem resolvidos nos 35 anos que se seguiriam às previsões do Instituto Hudson: necessidade de fortalecimento da poupança interna, treinamento de recursos humanos, contenção da explosão demográfica, expansão das exportações e, por último, racionalidade econômica e administrativa.

Alguns dos problemas listados por Simonsen naquela época são ainda bastante atuais hoje em dia, outros, não. O cardápio modificou-se um pouco. Quase não se fala mais, por exemplo, em "problema do crescimento demográfico". Por outro lado, permanece a necessidade de elevar a absorção dos ganhos de comércio, de fortalecer a poupança interna e de maior racionalidade econômica e administrativa (menos impostos e mais investimentos públicos). Novos problemas, por outro lado, se incorporaram à discussão do cotidiano nacional: incerteza jurídica (que explica mais do que a metade do spread bancário médio de 40% existente em 2004, por exemplo) e violência urbana, este um problema crescente e talvez o mais urgente no momento.

O mote principal da análise de Simonsen se centrava na previsão, efetuada por Kahn e Wiener, a respeito da elevação contínua da relação entre a renda per capita americana e a brasileira - em 1965, esta era da ordem de 12,7 para 1. Kahn e Wiener previram, para 2000, um agravamento dessa diferença, chegando à razão de 20,1 para 1. A projeção dos dados brasileiros encerrava um crescimento médio anual de 4,5% para o produto e de 2,74% para a população.

A relação entre rendas per capita Brasil-Estados Unidos não se agravou como se previra. Ao contrário, reduziu-se. Passou de uma relação de 12,7 para 1, em 1965, para a nova, de 9,2 para 1, em 2000 (ao contrário dos 20,1 para 1 previstos). Simonsen apresentou (Brasil 2001, página 29) como uma projeção mais razoável a manutenção, em 2000, da relação em torno de 12 para 1 existente em 1965. Ficou mais perto do que ocorreu.

Roberto Campos, em seu texto Simonsen, um Matemático Humanista, publicado pela Revista Brasileira de Economia em 1998, refere-se à ironia utilizada por este autor em seus escritos como "ironia com penas de avestruz, e não com punhais florentinos, mais devotada aos conceitos do que aos preconceitos".

Talvez um exemplo do que diz Campos possa ser dado pelos três comentários finais com os quais Simonsen fechou Brasil 2001 e Brasil 2002 - "Especulações de longo prazo, até hoje, das duas uma: ou se reduziram a trivialidades, ou foram desmentidas pelos fatos" (Brasil 2002, página 26); ou "ser futurólogo é, antes de mais nada, uma questão de coragem de afirmar" (Brasil 2002, página 15); ou ainda "economia é a ciência que justifica, no presente, porque suas previsões para o futuro deram errado no passado" (Brasil 2001, página 12.

*Rubens Penha Cysne, professor da EPGE/FGV, é visiting scholar do Departamento de Economia da Universidade de Chicago (Home page)

2 comentários:

Cedê Silva disse...

PRA: descobri seu blog hoje, por meio de link em outro blog. Adorei o texto das reticências e o das dez regras da diplomacia do século XXI. Parabéns pelo blog.

Paulo R. de Almeida disse...

Meu caro (ou Minha cara) Cedê Silva,
Muito obrigado pelo comentário simpático, que muito me tocou. Por acaso, sem falsa modestia, mas tambem sem auto-elogio, eu tambem gosto desses dois textos. As regras de diplomacia estão em versao resumida em relacao ao original, mas serão desenvolvidas em novo texto em algum momento futuro.
O mini-tratado das reticencias é um texto de caráter mais intimista, que foi postado em sua integralidade, mas ele corresponde a uma redacao muito rapida, feita um pouco sem reflexao (pelo menos nao de caráter literário), e nunca revista. Talvez eu o desenvolva, tambem, algum dia...